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4 de setembro de 2011

Enrolados

Difícil assistir filmes com a chancela Disney sem uma certa má vontade. Na primeira cantoriazinha a gente já torcer o nariz sem nem prestar atenção ao que se trata a música.

Enrolados aponta para um esforço monumental do estúdio em se adaptar aos novos tempos. Precisa manter a linha que todos crescemos aprendendo a reconhecer como da casa do Mickey, mas também fazer dinheiro na bilheteria, interessando a um público cada vez menos interessado em cinema, além dos minutos que passará sentado assistindo.

Começa por adaptar uma princesa clássica como de costume (Rapunzel), mas não usar seu nome no título como de costume. Usaram um trocadilho com uma gíria que dá mais a impressão de romance do que a aventura que nos será apresentada.

Há ainda aquelas perversões à história original. Lembro pouquíssimo de Rapunzel, mas lembro (principalmente pela versão do Sitio do Pica Pau Amarelo) que o príncipe caia numa armadilha ao tentar subir pelas tranças, despencando de cara num roseiral.

Aqui, evidente, nada de cegueira com sangue espirrando pelos olhos. A guria nem trança usa como escada, vive com ele solto, tal e qual uma dessas evangélicas radicais que vemos por aí.

Mas nem por isso é uma história tolinha, como vimos em coisas de fundo puramente mercantilista como Pocahontas. Não há um fiapo de história cheio de músicas com começo, nada de meio e final feliz.

É bem desenvolvido, interessante tanto para adultos quanto para crianças. Bom sinal para o primeiro longa tendo John Lasseter num cargo executivo, alma da Pixar, parece ter conseguido injetar algum fôlego nos poupando de outro comercial animado gigante.

Até as canções são divertidas, ajudando no (desculpe o trocadilho) desenrolar da história sem parar tudo para a ouvirmos. Particularmente achei graça perceber uma evidente (para adultos) analogia com sexo.

Mais precisamente a perda da virgindade. Quando desobedece a suposta mãe, que havia lhe botado muita caraminhola na cabeça sobre o mundo lá fora e os homens malvados, ela oscila entre maravilhada e muita culpa, vergonha e remorso por ir contra as palavras da velha.

Outro momento é quando ouve da mulher que assim que ela entregar a bolsa com a coroa para ele o perderá. Acabará o romance assim que o galã colocar as mãos no que lhe interessa.

Falando na vilã, entrou direto para a tradicional galeria das melhores! Com um ar de Cher com Gloria Swanson, suas aparições são empolgantes e nos remetem (principalmente seu fim) às produções da Hammer.

Desconfortável mesmo é a relevância de se jogar balões ao ar. Pode ser algo exótico nos Estados Unidos (buscaram referências em tradição asiática), mas no Brasil é uma praga que nos assola durante as festas juninas.

Outra coisa estranha é a Disney incluir uma animação computadorizada no seu rol de longas. Pela primeira vez assume se tratar do 50º, colocando no mesmo balaio Família do Futuro, aquele do cãozinho branco com Pinóquio e Cinderela.

Enrolados - Tangled

- EUA 2010 De Nathan Greno e Byron Howard Com as vozes de Mandy Moore, Zachary Levi, Donna Murphy 100’ Ação/Animação


Blu-Ray- Fantasticamente cristalino, mesmo com a ausência de poros visíveis na pele dos personagens, nos oferece riqueza espantosa de texturas nos cenários e figurinos. É provável que em outros formatos perca boa parte da graça.

Bônus não são muitos, mas interessantes como cenas inéditas ainda em storyboards, músicas estendidas e um documentário apresentado por Mandy Moore, Zachary Levi localizando o filme dentro da história das animações Disney.

Interessante a existência da montagem (que tinha se tornado um viral no You Tube) com a contagem de todas as 50 animações deles, de Branca de Neve a Enrolados.


Cotação:

22 de outubro de 2009

A Menina e o Porquinho (1973)

Ousadia da Hanna-Barbera, tradicional estúdio de curtas, ciscar no terreno Disney. Por décadas a casa do Mickey era sinônimo de longas em animação.

Tecnicamente este desenho tem todos os defeitos dos produtos H-B que bem conhecemos da TV, econômicos, muitas vezes os personagens só movem a boca. Isso se torna mero detalhe diante da história encantadora, com imortal lição de coleguismo.

Talvez o nome em português possa frustrar, já que a menina em questão participa só no começo, quando não permite que o porquinho Wilbur seja sacrificado. Ele não foi vendido como os demais por ter nascido menor que os demais.

Adulto e gordinho, o amigo rosa vai morar em outra fazenda, e lá, para não virar toicinho contará com a auxílio de Charlotte. A aranha solidária usará sua teia para falar aos humanos que belo suíno eles têm.

Essa atitude altruísta envolverá todos os outros animais direta ou indiretamente numa teia da bondade. Portanto, com esse trocadilho com a rede (web) da ajuda, o título original, idêntico ao do livro que o inspirou, dá mais sentido à trama.

Com algumas canções menos enfadonhas do que minha memória guardava, ainda dá pra assisti-lo tranquilamente. Graças ao ritmo lento, deve agradar apenas as crianças bem novinhas, embora se eu tivesse um filho, pela valiosa lição, forçaria um pouco a barra.

Nunca tinha assistido inteiro, mesmo tendo sido exibido incontáveis vezes nas tardes da Globo dos anos 80. Estudava de manhã, então, ainda mais com aquelas músicas, acabava dormindo na metade, esparramado no sofá.

Em certo ponto, A Menina e o Porquinho sempre causava choradeira entre a galerinha lá de casa. Depois de adulto não me pareceu tão sentimentalóide.

Curiosamente ele usa atores famosos, prática que só se tornaria comum dos estúdios Disney nos trabalhos recentes. As vozes de Debbie Reynolds (como a aranha Charlotte) e Agnes Moorehead (a gansa atrapalhada) são identificáveis, e um motivo a mais para curtir.

As duas eram amicíssimas a ponto de alimentar as línguas ferinas da época sobre um suposto affaire entre as duas. Moorehead, atriz shakesperiana conhecida como a Endora do seriado A Feiticeira, faleceria no ano seguinte, sendo este seu último trabalho para o cinema.


A Menina e o Porquinho - Charlotte's Web

- EUA 1973 De Charles A. Nichols Iwao Takamoto Com as vozes de Debbie Reynolds, Agnes Moorehead, Paul Lynde, Danny Bonaduce, William B. White, Henry Gibson 94’ Animação/Drama


DVD- Quando saiu o filme em live action protagonizado pela Dakota Fanning voltei a vê-lo nas boas lojas do ramo. Atenção porque há outro “A Menina e o Porquinho” bem baratinho, produzido por aqueles picaretas que vão na cola de sucessos e lançam títulos semelhantes. O clássico é da Paramount. Widescreen anamórfico, ótimo para quem não tem uma TV no formato já que as faixas negras costumam afugentar a petizada. Possui a dublagem em português que nos acostumamos na TV, além de dar a oportunidade de pela primeira vez ouvir a original, com as célebres atrizes com legendas em português. O único extra é o trailer original.

Cotação:

21 de outubro de 2009

Carrie, A Estranha (1976)

Brian de Palma brilhante demonstrando domínio na arte de filmar e manipulação da platéia. É o que ele mais tem de seu amado Hitchcock, muito mais do que referências visíveis.

Primeira adaptação de livro do Stephen King, abandona sua estrutura original, narrado em flashbacks com os depoimentos da sobrevivente Sue Snell e recortes de jornal. Linearmente a protagonista é envolvida na teia até a tragédia que todos estamos carecas de saber qual é.

Em mãos menos habilidosas escorregaria para a obviedade principalmente porque explora temas bem em moda no cinema 70’s: catástrofe e adolescentes problemáticos com “problemas” inexplicáveis ao senso comum. Carrie é uma garota que não consegue se enquadrar socialmente, como todo jovem se sente um pouco em qualquer época.

Criada por uma mãe fanática religiosa (Piper Laurie doentiamente espetacular!), paga o mico de ficar apavorada ao menstruar pela primeira vez no vestiário escolar. Impossível não ter vergonha por ela, e muita raiva da estupidez que lhe rodeia.

Hoje Carrie White seria facilmente identificada como sofredora de bullying. Pode claramente fazer referência a fatos recentes da vida americana, como o adolescente de Colombine que, desprezado pelos colegas, abriu fogo contra todos.

O que só a gente e ela sabemos, é que possui poderes telecinéticos, habilidade que lhe faz mover objetos com a mente. E está aí a graça de mesmo conhecendo o que vai acontecer (o próprio trailer mostra), seja a primeira ou a 20ª vez que se assiste, acompanhar o desprezo sádico daquelas meninas boçalmente nojentas de cabelo a lá Farrah Fawcett.

A subversão está em que em momento algum Carrie pareça uma coitada psicótica. Vai atrás pra tentar entender seus dotes mentais, peita a loucura materna e desconfia das boas intenções do mocinho com cabelo igual ao do Ovelha quando este lhe convida a ir ao baile da Bates High School.

O filme discute intensamente o que nos pertence, fruto do que adquirimos conscientemente durante a vida, herdamos geneticamente e o que os outros tentam nos impingir rotulando. Por duas vezes Carrie é emporcalhada fisicamente ao tentar ser ela mesma.

O diabo são os outros!


Carrie, A Estranha - Carrie

- EUA 1976 De Brian De Palma Com Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, William Katt, Betty Buckley, Nancy Allen, John Travolta, P.J. Soles 98’ Suspense


DVD- Comercializado em três versões no Brasil. Há uma edição que só vem o trailer de bônus, uma edição “presente de grego” onde Stigmata o acompanhado e esta edição especial.

Para quem o viu como eu, a primeira e inesquecível vez na TV (TV Bandeirantes), depois o adquiri em VHS, parece estarmos assistindo a um novo filme! A imagem cristalina (com TODAS as sardas da Sissy Spacek aparentes) em widescreen, áudio 5.1 deixando a trilha sonora de Pino Donaggio ainda mais arrepiante...

Pena que o DVD saiu em 2000, primórdios da era digital, e nenhum extra venha com legendas. Há um longo documentário com todo o elenco (exceto Travolta) relembrando as filmagens, outro com making of, galeria de imagens, o espalhafatoso trailer original e muito texto em português sobre Stephen King.


Cotação:

3 de janeiro de 2009

O Cheiro do Ralo

Desde Macunaíma não tínhamos um personagem tão brasileiro nas telas. O canalha com justificativas passa a perna até na Dora de Central do Brasil. Lourenço é o dono de uma casa de penhores que pra ganhar mais precisa se desfazer do que lhe oferecem. No começo tinha dó, depois acabou se acostumando porque “precisa sobreviver”. Daí a tratar pessoas como as quinquilharias que o cercam será um pulo. Solitário, apaixona-se pela bunda da balconista do boteco. Leia bem, não a balconista, só a bunda! O título bizarro combina tal e qual com a galeria de seres que aparecem a todo instante. Todos sem nomes, fora a empregada doméstica que depois de sete anos avisa Lourenço do equivoco que ele comete a chamando de forma errada. É um filme leve e inteligente, feliz em seu disfarce de comédia ligeira. Só que com sua busca desesperada em conseguir uma estética Cult demora a nos envolver naquele universo. Nos extras descobre-se que a inspiração principal talvez seja as pornochanchadas, porque o Selton Mello (excelente como protagonista embora aparente ter muito menos idade do que o personagem) assume a inspiração em Paulo César Pereio. Já a produção assume lado algum. Tentando parecer internacional, atemporal, todo o resultado foi pra lugar nenhum, uma espécie de limbo artístico. Aquele mesmo lugar onde o Coyote busca incansavelmente capturar o Papa-Léguas. Bacana mas distante.

O Cheiro do Ralo

- Brasil 2006 De Heitor Dhalia Com Selton Mello, Paula Braun, Paulo Alves, Susana Alves, Roberto Audio, Jorge Cerruti, Fabiana Guglielmetti, Sílvia Lourenço, Lourenço Mutarelli 112’ Comédia


DVD- Dá pra imaginar pelas cenas deletadas o trabalho que a edição deve ter dado. Nenhuma delas aparenta estar inferior ao que vimos na tela. Tem um making of profissional, tipo filme mesmo, diferente dos tapa buraco que as distribuidoras de DVD por hábito costumam nos impingir. Outra demonstração de capricho da Universal é o diário longo do Selton Mello, onde se sente o sacrifício que deve ter ser fazer cinema com tão pouca grana.

Cotação:

22 de dezembro de 2008

Os Inocentes

Olha o pedigree: roteiro de Truman Capote, fotografia de Freddie Francis, estrelado por Deborah Kerr e baseado no romance A Outra Volta do Parafuso de Henry James. Essa é a receita para uma das produções psicologicamente mais aterradoras já filmadas. Um dos melhores e mais chocantes de horror não explícito. Se o que é dito e sugerido fosse mostrado, pode ter certeza de que seria insuportável de ser assistido. Muito escuro, a protagonista passa maior parte do tempo vagando pelo casarão vitoriano empunhando um castiçal, prestando atenção a qualquer ruído que possa surgir. Babá (Kerr) é contratada por milionário para cuidar de seus dois sobrinhos órfãos. Moram em uma afastada propriedade na companhia apenas dos empregados, sendo que dois deles morreram em circunstâncias suspeitas há algum tempo. Pouco a pouco, ela começará a perceber que a docilidade das crianças pode ser uma manobra para esconder terríveis segredos do passado. Como só a babá vê os mortos (assustadores!), não se chega a saber se não é ela quem levou tanto transtorno aquela casa, ou se realmente suas suspeitas estão corretas. Correto em seus contornos fantasmagóricos e múltiplas interpretações, é um camafeu gótico sem sustos fáceis, mas tão angustiante que mesmo depois de seu confuso desfecho fica-se engasgado.

Os Inocentes – The Innocents

- Inglaterra 1961 De Jack Clayton Com Deborah Kerr, Peter Wyngarde, Megs Jenkins, Michael Redgrave, Martin Stephens, Pamela Franklin, Clytie Jessop, Isla Cameron 100’ Horror


DVD- É da Fox mas poderia ser de uma distribuidora pirata qualquer. Capa tosca com a Deborah Kerr parecendo o Michael Jackson na capa do CD Invincible, menus estáticos mal feitos, fotos da contra-capa mal colorizadas, sendo que o filme é preto-e-branco, e nem trailer de extra vem!

Cotação:

21 de dezembro de 2008

Crepúsculo

Pra começo de conversa, a mocinha parece muito anêmica para ser interesse de um vampiro. Se bem que estes novos vampiros adolescentes são de butique: Nada de sexo, nada de sangue humano, medo da luz solar, nem caninos pontiagudos. Uns chatos mesmo! O filme não esconde sua ambição de levar às telas todos os livros que o inspiraram, o deixando ainda mais com cara de piloto de seriado de TV, cheio de pontas a serem atadas posteriormente. Se fosse um produto televisivo não seria nada mal, na tela grande, as mais de duas horas de chove não molha púbere chega a dar certa impaciência. Isso talvez porque sou velho pro material e aqueles marmanjões de 17 anos fugindo da naturalidade da vida fazem pouco sentido, além de cheirar a demagogia norte-americana. Mas a molecada deve amar! A sala lotada de menininhas que faziam “hihihihihi” a cada investida do casalzinho inter-racial é um sinal a não ser desprezado. A mocinha (Um misto de Jennifer Garner com Ingrid Guimarães mas muito mais pálida) vai morar com o pai numa pequena cidade depois que a mãe casa pela segunda vez. O motivo exato talvez seja descoberto nos evidentes próximos filmes. Lá, se encanta com o garoto da escola mais estranho (mas feio! Muito feio mesmo!), se apaixonam, e depois ficam naquela de que deve ser vampira também ou não. O que também não faz muito sentido já que vampiros são seres maravilhosos e amiguinhos que vivem numa belíssima casa de vidro no meio da floresta, sem nada que os desabone. Aliás, sabe o que acontece quando saem ao sol? Brilham! Como se tivessem tomado banho de purpurina. Cruzes!

Crepúsculo - Twilight

- EUA 2008 De Catherine Hardwicke Com Kristen Stewart, Robert Pattinson, Billy Burke, Billy Burke, Nikki Reed, Jackson Rathbone, Kellan Lutz, Peter Facinelli, Cam Gigandet 122’Romance


*** Em Cartaz ***

Cotação:

10 de outubro de 2008

Mortos que Matam

Primeira versão do texto de Richard Matheson, que geraria outros dois filmes sendo o mais recente Eu Sou A Lenda com Will Smith, revela-se bem à frente de seu tempo. O IMDB, conta que o projeto original foi criado para a Hammer Films, mas como a censura inglesa o recusou, teve que ser filmado na Itália. Estrelado pelo grande Vincent Price, em silêncio por longos minutos, tem alguma violência explícita e um final nada feliz. Seus zumbis de hábitos noturnos atacam com fúria alguns anos antes dos de Romero no filme que mudaria o rumo do gênero horror para sempre. Aqui, também surgem por um inexplicável vírus, com as vítimas estranhamente cegas antes de se transformarem em mortos-vivos. Apenas um cientista incrédulo sobrevive, e por mais de três anos cria a rotina num cenário apocalíptico, tentando contato com outros possíveis sobreviventes, construindo réstias de alho protetoras e, claro, acabando com os mortos vivos enquanto é de dia. Durante um flashback conhecemos sua história, com a família adorável sendo destruída pela doença junto com a sociedade mundial. Qualquer informação a mais pode estragar as inúmeras surpresas do roteiro muito inventivo filmado com capricho. Mesmo quem viu a versão recente pode esperar um desenrolar diferente e camadas mais profundas do que se vê numa simples produção B. Price, como de costume, parece se divertir (literalmente) horrores enquanto trabalha.

Mortos que Matam – L´Ultimo uomo della terra (The Last Man on Earth)

- Itália 1964 De Ubaldo Ragona Com Vincent Price, Franca Bettoia, Emma Danieli, Giacomo RossiStuart, Umberto Raho, Christi Courtland, Antonio Corevi, Ettore Ribotta 86’ Horror


DVD- Com direitos autorais vencidos, pode ser baixado legalmente em sites que disponibilizam filmes nas mesmas condições. A Media Group o comercializou de forma bastante amadora, com a arte da capa muito feita, impressa em impressora caseira, visivelmente cortada com tesoura. O selo do disco está escrito Mortos que Matam e A Casa dos Maus Espíritos, num erro básico de atenção. Os extras são um monte de texto sem sentido algum, trailers feitos por eles de outros lançamentos e vários do diretor Willian Castle, sendo que ele não tem absolutamente nada a ver com o filme.

Cotação:

27 de setembro de 2008

Querelle

Livremente baseado em romance de Jean Genet, Fassbinder, talvez o último verdadeiramente grande diretor alemão, dava ao mundo seu canto de cisne sem concessões comerciais. Tanto que o filme é febrilmente erótico sem mostrar se quer um único corpo nu. Fotografado em alaranjado lúgubre, com claustrofóbicos cenários teatrais, não se desenvolve neste mundo que em que vivemos, mas no sempre misterioso terreno do desejo, embora faça uso de claras regras sociais. Querelle (Brad Davis) é o marinheiro que ao aportar se lambuza dos pés à cabeça do poder proporcionado pela atração que desperta em homens e mulheres. Trapaceará no jogo de dados para ser possuído pelo marido da dona do bordel jurando ser aquela sua primeira vez. Jeanne Moreau, a única mulher em cena, interpreta a triste puta velha que cantarola a mesma canção enquanto recolhe para si os amantes recusados pelo esposo. “O homem mata tudo aquilo que ama” diz a canção. Há uma trama policial que na verdade só serve para mostrar a desenvoltura do marinheiro em usar os atributos físicos a seu bel prazer. Querelle só não consume nada com o paternalista capitão (Franco Nero) e o doentiamente apaixonado irmão. O mais perto que chegará do incesto é ao experimentar o primeiro beijo na boca de outro homem, quando um fugitivo (Hanno Pöschl em papel duplo) se disfarça tornado-se idêntico a ele. Brilhante trabalho de atmosfera, envolve principalmente na ótima construção de personagens, e na narrativa ousada. De forte temática homossexual, é, sobretudo, um filme sobre machos.

Querelle - Querelle

- Alemanha/França 1982 De Rainer Werner Fassbinder Com Brad Davis, Franco Nero, Jeanne Moreau, Laurent Malet, Günther Kaufmann, Hanno Pöschl, Burkhard Driest 120’ Drama


DVD- A Versátil bate no peito deixando claro no texto da contra capa de que está sob licença da Gamount. Essa óbvia alusão ao paraíso das contraversões de copyrights que parece ser o Brasil pode ser desculpa justa aos preços estratosféricos de seus maravilhosos produtos. Pena que o valor alto não nos dá direito a um conteúdo mais caprichado. Menus horrorosos, extras relaxados se resumindo a texto e galeria curta, e o pior de tudo, legendas que não passaram pela mínina revisão. Há palavras com três esses, fora erros gramaticais grosseiros. Mesmo sendo uma película considerada forte, as legendas ainda apazigua o linguajar dos marinheiros, marca registrada de Jean Genet.

Cotação:

16 de setembro de 2008

Laranja Mecânica

Não só se manteve bendito/maldito por todos estes anos, como uma excelente demonstração de como um livro deve ser adaptado ao cinema. Kubrick pegou o romance de Anthony Burgess e limou aqui e ali, aumentou acolá, conseguindo extrema fidelidade sem ser chato. Até as gírias, que obrigam o leitor a ficar o tempo todo recorrendo ao glossário das últimas páginas, estão em sua maioria presentes, embora com sutis explicações visuais. Alex, o pequeno delinqüente mais inteligente do que qualquer outro personagem, parece muito mais carismático e de duvidosa identificação com a platéia. Sorrateiramente as vítimas têm destaque quase nulo após suas barbáries. Não é um filme, aliás, sobre vítimas, mas sobre o perigoso jogo de dominação e dominado, que nos lembra que absolutamente todos nós fazemos parte do chamado sistema. A engrenagem que roda infinitamente criando lobinhos para depois os converter a doces cordeirinhos e vice versa. Hermético, de incontáveis paralelos, foi polêmico desde quando lançado, permanecendo proibido na Inglaterra pelo próprio cineasta após algumas ameaças de delinqüentes juvenis. E a vida nunca imitou tanto a arte quanto com Laranja Mecânica. O futuro próximo já virou passado e presente... Dando ritmo ainda mais épico, a chocante trilha sonora de Walter Carlos abraçada a Beethoven, Rossini e Terry Tucker.

Laranja Mecânica – A Clockwork Orange

- Inglaterra 1971 De Stanley Kubrick Com Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, Adrienne Corri, Aubrey Morris, Sheila Raynor 136’ Ficção Científica


DVD - A edição dupla e restaurada dá a sensação de estarmos vendo um filme inédito, tamanha quantidade de novas nuances notadas. É triste que os extras do primeiro disco (faixa de comentários de um historiador, de Malcolm McDowell e o trailer original) estejam sem legendas em português. Tal desleixo desmerece o titulo de edição especial, já que custa mais do que a versão simples vendida antes. O segundo disco tem apenas três documentários bons. Um com o impacto cultural da obra, outro menos feliz sobre os bastidores e um terceiro de uma hora e meia sobre a carreira de McDowell.

Cotação:

6 de setembro de 2008

Rebecca - A Mulher Inesquecível

Bem à frente de seu tempo artisticamente, Hitchcock estreava no cinema americano dando três filmes de gêneros distintos em um. A primeira parte é um magnífico romance, onde uma simplória dama de companhia conhece milionário viúvo. Apaixonada perdidamente por seu charme, aceita de imediato o pedido de casamento. O irresistível (e artificial) conto de fadas é crucial para nossa identificação com a garota já que a trama é contada na primeira pessoa. Na segunda parte, casados vão morar na mansão centenária Manderley. Temos um filme de horror, daqueles góticos com o vento soprando palavras de desordem em mentes desprotegidas, sem faltar nem uma governanta, que pra bruxa só precisa de vassoura. A noivinha descobrirá que caiu numa furada. Desprotegida, terá que enfrentar Rebecca, a falecida esposa mais viva do que nunca em todos os cantos escuros. Exatamente porque a história exigiu nossa identificação com a mocinha lá no começo que neste ponto chega a dar certa raiva da sua inércia diante da vida empoeirada ao qual lhe é imposta. Quando finalmente resolver peitar não só a governanta fidelíssima à finada, mas sua costumeira postura submissa, Hitchcock nos entrega uma trama policial cheia de reviravoltas bem à sua maneira. Todo o esforço de clima faz com que a obra perdure por muito tempo na mente após seu término, e também nos leva a certos raciocínios. É muito discutido o possível lesbianismo da governanta com Rebecca, e até pode ser, mas pouco se aponta para outro traço forte de homossexualidade. Qual seria o motivo para Max, o magnata dono do mundo, se manter casado com Rebecca, sabendo desde o início que a moça não era flor que se cheirasse? Embora posteriormente tivesse torcido o nariz ao resultado, o mestre chegava com muita gana de vencer nos EUA e não ser cozido pelo sistema como aconteceu com vários outros diretores. Toda a munição gasta aqui gerou um de seus filmes mais típicos, e sem dúvida, uma de suas maiores obras-primas. Isso sob o olhar do poderoso produtor Selznick que sempre mandou e desmandou no trabalho de seus contratados. Reza a lenda que ele só deu relativa liberdade a Hitch por estar muito ocupado finalizando ...E O Vento Levou. Ao estrear no Brasil, a escritora Carolina Nabuco acusou a inglesa Daphne Du Maurier, cujo livro originou o roteiro, de ter plagiado seu romance A Sucessora, lançado quatro anos antes. Rebecca teve uma tradução nacional assinada por ninguém menos do que Monteiro Lobato.

Rebecca - A Mulher Inesquecível – Rebecca

- EUA 1940 De Alfred Hitchcock Com Laurence Olivier, Joan Fontaine, Judith Anderson, Nigel Bruce, Reginald Denny, George Sanders, Florence Bates 130’ Suspense


DVD - Com nitidez digna de VHS, a Continental comercializa tal filme no Brasil há quase 20 anos com os costumeiros erros de legendas. Como extras há biografias em texto, lista bem mal feita de atrizes q trabalharam com o diretor, galeria com dois pôsteres que não inclui Rebecca e o trailer original.

Cotação:

22 de agosto de 2008

Pacto Sinistro

Obra prima de Alfred Hitchcock, embora pouco lembrada como um dos melhores já produzidos em Hollywood. Era o início da feliz fase que entraria na década de 50, embora tecnicamente, aparente ser mais antigo. Por mais frescor que exigisse de seus roteiros (por acaso a estréia em adaptações dos livros de Patricia Highsmith), Hitchcock preservava muitos cacoetes já fora de moda. Retro projeções ao invés de externas, câmera acelerada em cenas de perseguição, etc. Óbvio que este pode ser um de seus diferenciais, fez tudo do jeito que sempre quis, com aprovação da platéia e de forma pouco vista, pelos estúdios. Em uma viagem de trem, jogador célebre de tênis cruza com Bruno (Robert Walken), um pretenso fã. Conversa vai, conversa vem, o desconhecido conta-lhe sua idéia de crime perfeito. Cada qual assassinaria um desafeto do outro, e como não há relação alguma entre ambos, jamais seriam descobertos. O esportista tem a ex-esposa libertina a lhe empacar e Bruno, seu pai magnata e intransigente. Claro que não há como levar a sério tais devaneios, embora o desconhecido creia no pacto selado, cumpre sua parte, e passa a exigir o mesmo do outro. O circo está armado e o que não faltam são momentos do mais puro talento artístico! Adaptado por Raymond Chandler (entre outros), polemicamente como muitas das parcerias do mestre, é um dos textos mais bem amarrados que já filmou. Conduz a platéia a uma espécie de funil macabro, enquanto ricamente dá espaço às mais variadas interpretações, inclusive sexuais. Walken, que faleceria logo depois graças ao alcoolismo, entrou para a diminuta galeria de atores que conseguiram ter seu talento destacado em um filme de Hitchcock.

Pacto Sinistro - Strangers On A Train

- EUA 1951 De Alfred Hitchcock Com Farley Granger, Robert Walken, Ruth Roman, Patricia Hitchcock, Laura Elliot, Marion Lorn, Norma Vaden 101’ Suspense


DVD - Outro clássico lançado com a dignidade que merece pela Warner, distribuidora número um para este tipo de filme. Embalado em luva de papelão, só a faixa de áudio com comentários e o trailer não estão com legendas em português. No segundo disco, a versão integral de Pacto Sinistro conforme foi exibido numa pré estréia, com alguns minutos a mais e sem a cena final no trem. São quatro documentários: Um com historiadores contando detalhes de bastidores, outro com Patricia (filha de Hitchcock e participante do elenco) com as filhas relembrando fatos familiares, um terceiro com a atriz que faz a vitima míope e o mais curioso com M. Night Shiamalan analisando o roteiro.

Cotação:

8 de agosto de 2008

Los Angeles – Cidade Proibida

Quem tem asas voa na cidade dos anjos. Quem não tem se envolve até o pescoço com todo tipo de sujeira. A grande sacada deste filme, dirigido pelo então apenas medíocre Curtis Hanson, não é em apelar para o realismo de uma época, mas desenrolar a história justamente no imaginário popular sobre o que teria sido a primeira metade da década de 50. A Califórnia repleta de espertalhões mamando na efervescência local à revelia de uma polícia considerada a melhor do mundo. Como não poderia deixar de ser, perambulando pelo roteiro inúmeras referências à Hollywood clássica, sendo a mais saborosa a agência Flor de Lis, especializada em prostitutas sósias de atrizes famosas. Nesse cenário surge a personagem de Kim Basinger, uma ode ao saudosismo relembrando a fatal Veronica Lake. Ela é o contrapeso aveludado entre os policiais bonzinhos e durões, arrastados para a disputa do tráfico local. Tem presença luminosa, embora seu desempenho não seja lá essas coisas pra ter levado o Oscar de melhor atriz coadjuvante em 97. Mero detalhe perto da reconstituição de época, trilha sonora, direção de arte, tudo parece funcionar! Só não é uma obra-prima porque há subtramas e personagens demais ao ponto de depois da primeira hora ficar confuso, quase maçante. Assista aos créditos finais inteiros.

Los Angeles – Cidade Proibida – L.A. Confidential

- EUA 1997 De Curtis Hanson Com Kevin Spacey, Russell Crowe, Guy Pearce, James Cromwell, Kim Basinger, Danny DeVito, David Strathairn, 138’ Policial


DVD - Muito bem feito, com a estética dos menus lembrando uma revista sensacionalista, tal e qual a revista Hush-hush do filme. O material em texto sobre os 50’s é bem interessante, dando um panorama geral aos pontos relacionados à ficção que se acabou de ver. Falha grave a falta de legendas não só no making off de quase meia hora, mas no resto dos extras. Há um mapinha com as localidades de Los Angeles onde cada ícone ao ser clicado exibe trecho do filme com algumas explicações, e uma galeria curiosa com Hanson mostrando imagens que serviram de base para a produção. Ele confirma que o galã B Aldo Rey teria servido de inspiração para Russel Crowe, inclusive o corte de cabelo. Está presente a opção (típica dos DVDs mais antigos) de se assistir ao filme só com as músicas, função não muito prática graças aos longos minutos silenciosos sem os diálogos. Além disso, spots de TV e trailer de cinema.

Cotação:

7 de agosto de 2008

Cega Obsessão

Estudo hardcore sobre a cegueira da paixão incondicional, a evidente servidão do algoz diante das recusas do ser preterido. Tem ecos de vários outros de mocinhas aprisionadas, quase um subgênero dos romances, ou histórias de amor para adultos, sem finais tão óbvios. Como em Nunca Fui Santa, Ata me! e O Colecionador, desconfia-se pouco de que as tentativas da garota em fugir vão acabar em suplicas de afeto eterno. Pelo contrário, há sempre reviravoltas aqui e ali, e muitas vezes o final feliz tem sabor discutível. No caso deste exemplar nipônico, espera-se um radicalismo maior e não nos decepciona. Doentio em sua estética discorre ainda sobre a figura materna (onipresente) na vida de um homem adulto, muito mais do que discussões sobre caminhos relevantes da arte. Tema, aliás, que acabou diluído entre tantos emaranhados psicológicos. O enredo é basicamente sobre modelo de pouco sucesso que se submete a fazer trabalhos (fotos e esculturas) de nudez, despertando a atenção de artista plástico cego. Junto a sua possessiva mãe, seqüestra a beldade a fim de que pose só para ele. Apenas com três atores e um grande e bizarro cenário com mórbidos pedaços de corpos de argila, consegue nos fazer pensar ininterruptamente em meio à claustrofobia incessante. É um grande filme, artesanal, muito mais preocupado em apontar sentimentos do que declarar verdades sombrias.

Cega Obsessão – Môjû

- Japão 1969 De Yasuzo Masumura Com Eiji Funakoshi, Mako Midori, Noriko Sengoku 84’ Drama/Suspense


DVD - Impossível não reparar de cara o erro grosseiro no nome da distribuidora Magnus Opus, mas graças ao interesse dela temos inúmeros filmes que nem em uma próxima encarnação seriam lançados no Brasil. O longa tem imagem de escopo original, legendas boas e o esforço dos esforços em extras. Em uma produção rara como Obsessão Cega, até o material em texto se torna precioso. Há também o dramático trailer de cinema, biografias e um videozinho em texto ridículo de outros lançamentos. O ponto ruim é seu preço elevado, sendo que o disco vem acondicionado numa embalagem plástica de péssima qualidade, semelhante à usada pelos camelôs. Nem dá pra fechar direito.

Cotação:

30 de junho de 2008

Abril Despedaçado

A máxima de que se deve aprender com nossos erros nem sempre é verdadeira. Como o caso deste sucessor de Central do Brasil. Walter Salles ouviu tanto que seu defeito tinha sido o sentimentalismo e/ou pieguismo, que aqui não nos permite nenhum sentimento além de admirar fotografia, produção de arte, etc. Essa frieza faz com que embora seja um filme que se assista facilmente, soe vazio. O empenho estético não é refletido em momento algum nas atitudes dos personagens ou na manipuladíssima edição. O que era pra ser amostra de amadurecimento artístico resultou em pedantismo técnico. Uma atualização visual do que já foi mostrado em alguns filmes que tiveram o sertão nordestino como cenário. Em 1910, duas famílias vizinhas de nordestinos fazem a gerações uma espécie de jogo pela disputa de terras. O filho mais velho de uma tem que matar o da outra família. Enquanto os adultos forçam para que se siga o quase ritual macabro, há estranheza e falta de sincronia entre os jovens. Entre os jovens, o galã Rodrigo Santoro, demonstrando esforço interpretativo, apesar de seus traços fisionômicos destoarem de qualquer outro do elenco. Ainda sobre os atores, não dá pra entender como uma terra tão grande como o nordeste só produziu um ator com o biótipo típico local. A onipresença de José Dumont faz com que logo de cara tudo pareça déjà vu.

Abril Despedaçado – Abril Despedaçado

- Brasil 2001 De Walter Salles Com Rodrigo Santoro, Ravi Ramos Lacerda, José Dumont, Rita Assemany, Wagner Moura, Luiz Carlos Vasconcelos 105’ Drama


DVD - Pelo menos a Imagem preservou desta vez a tela em sua proporção original. Só que é outro exemplo de filme brasileiro lançado de qualquer jeito. Seus extras não passam de restos de material promocional, todos muito curtos e polidos.

Cotação:

10 de junho de 2008

Topázio

Historicamente o pior Hitchcock, sem sombra de dúvida o melhor se comparado a muitos filmes considerados bons de outros diretores. Seu raro toque de genialidade está em muitas cenas, o que é suficiente para prender a atenção até o fim. Mesmo com roteiro confuso sobre espionagem em plena Guerra Fria, calcada no Best-Seller de Leon Uris, onde se leva quase uma hora para compreender o que realmente os personagens estão fazendo. Estranho porque contradiz as palavras do próprio Hitchcock sobre o roteiro de Vertigo, com o mesmo roteirista Samuel A. Taylor, de que para o suspense funcionar é preciso nunca esconder o jogo à platéia, tudo tem que ser bem claro desde o inicio. Pra piorar há uma profusão de personagens, todos com subtramas, e nenhum rosto realmente conhecido para se ter qualquer apatia. Repelido na audiência teste foi remontado, o que deu aspecto truncado a muitos momentos, inclusive à trama afetiva central, e um final um tanto quanto simplório depois de mais de duas horas de reviravoltas. Curioso o papel dos comunistas cubanos, truculentos, quase como os nazistas nos filmes B antigos, mas a posteridade provou que esta visão nem estava tão errada assim. Graças a Topázio a brasileira Eva Wilma ficou cara a cara com o mestre do suspense conforme já contou em muitas entrevistas. Ela fez o teste para o papel principal feminino latino, Juanita de Cordoba. Deixou de protagonizar uma das cenas de assassinato mais emblemáticas de todos os tempos.

Topázio – Topaz

- EUA 1969 De Alfred Hitchcock Com Frederick Stafford, Dany Robin, John Vernon, Karin Dor, Michel Piccoli, Philippe Noiret, Claude Jade, Michel Subor 126’ Suspense


DVD - Essa coleçãozinha da Universal é padronizada até nos menus, com o engraçado tema do seriado Alfred Hitchcock Apresenta no menu principal destoando da película. Sempre se esforça nos extras, até nos discos simples. Topázio vem com um longo especial onde estudioso tenta explicar todos os tropeços da produção, os três finais filmados, inclusive com o escolhido pelo diretor, mil vezes melhor ao que entrou no corte final, trailer, storyboards e fotos de divulgação. Fora o trailer, tudo está legendado em português. Resta falar de um mistério. A contracapa indica que o filme está em fullframe(1:33:1), ou seja na TV aparece em tela cheia com boa qualidade de imagem. Não era comum um filme de um grande estúdio não usar o formato widescreen.

Cotação:

3 de junho de 2008

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas

Este apanhado de contos fantásticos curtos, recebeu do roteirista uma costura habilidosa, acrescentando uma trama passada na realidade. Mas por mais bem feita é inegável o desequilíbrio do que é fantasia e do drama familiar no qual um filho tenta saber o que é verdadeiro na história de seu pai, prestes a morrer. Tim Burton tentando ser adulto, mas também aceito como cineasta sério, chega à banalidade da maioria dos filmes americanos neste gênero. E a trilha sonora sentimental, repleta de momentos grandiloqüentes acentua este sabor, uma das piores de Danny Elfman em sua parceria com o cineasta. Se nos entretemos com as aventuras de Ewan McGregor por terras misteriosas, logo voltamos ao agora, com aquele filho reclamando não se sabe do quê ao certo. Pode ter sido um recurso útil ao roteirista para emendar os contos, mas não parece ser motivo plausível para um filho ficar de mal com o pai por anos só porque o velho gosta de contar histórias absurdas. No faz de conta, há várias mensagens bacanas claramente retiradas do livro, mas como são muitas seguidamente acabam se diluindo. Certamente teríamos um filme mais feliz se fosse divido em capítulos. Burton, acolhido por uma produção esmerada, está claramente muito mais a vontade no que se refere à fantasia conseguindo momentos memoravelmente mágicos. E são estes momentos que fazem Big Fish permanecer na nossa memória por muito tempo tal e qual o incrível passado do herói Edward Bloom.

Big Fish – Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas

- EUA 2003 De Tim Burton Com Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Helena Bonham Carter, Alison Lohman, Steve Buscemi 125’ Drama


DVD - Edição simples e ao mesmo tempo caprichada. Poucos mas bem realizados extras como trailer original, e de outros filmes, um documentário dividido por partes e faixa de áudio com o diretor dando uma entrevista sobre o filme. Essa entrevista é curiosa porque eles não comentam exatamente o que está acontecendo na tela, mais parece um programa de rádio. Porém, comparada às vezes em que Burton comentou sozinho seu trabalho, como no DVD de A Lenda do Cavaleiro sem cabeça, é uma boa idéia, porque é monossilábico. Tem um joguinho de perguntas e respostas sobre a carreira do diretor não muito fácil, mas se todas as respostas estiverem corretas somos presenteados com um mini documentário. Tudo está legendado em português fora os extras e o recurso de durante o filme se clicar em certos ícones e se saber mais sobre a realização ou dos personagens. Aliás, este recurso desabilita as legendas do próprio filme! Atenção para um easter egg escondido logo no menu principal.

Cotação:

15 de maio de 2008

Drácula (2006)

Bacana quando não se espera nada e pelo menos somos entretidos por alguns minutos. Mas há jeito de se esperar alguma coisa desta enésima versão da obra de Bram Stoker, atual, e ainda mais feita para TV? Na maior parte do tempo consegue ser bem fiel, seu ineditismo está no foco da trama mostrando os fatos paralelos que teriam ocorrido a Lucy não descritos no livro, ao invés de Mina como heroína principal. O vilão é muito mais Lorde Arthur Holmwood, sempre pouco explorado nas incontáveis versões cinematográficas. Às vésperas de contrair matrimônio com Lucy, ele descobre ter herdado sífilis de sua finada mãe durante a gestação. No desespero para consumar as bodas, entra numa seita diabólica que envia Jonathan Harker aos Cárpatos para trazer Drácula! O resto a gente já sabe o que acontece, né? O final é sutilmente diferente, mas não compromete pela requintada produção e capricho cênico. O elenco desconhecido pode ser feio, mas convence, embora seja quase inevitável compará-los com o cast escolhido por Coppola em 1992. Principalmente o Drácula, afetadamente freak demais para seduzir qualquer mulher que seja.

Drácula – Dracula

- Inglaterra 2006 De Bill Eagles com Marc Warren, Dan Stevens, Sophia Myles, Tom Burke, Stephanie Leonidas, Benedick Blythe 89’ Horror


DVD - É da Fox, e como os lançados para Locação não há extras. Mas a boa qualidade da copiagem, e filme mantido em widescreen, pode não ser mais do que obrigação, mas é sempre bem vindo.

Cotação:

8 de maio de 2008

Mistérios e Paixões

O próprio Cronenberg assume que muito do romance beat Naked Lunch é infilmável. Ainda assim conseguiu resultado para pouquíssimos espectadores já que ficar horas dentro da cabeça de um viciado em veneno para baratas não é das sensações mais agradáveis. Acrescentou algumas passagens da história do próprio autor William S. Burroughs, então vivo àquela altura, como forma de compensar as partes omitidas do livro. Quem leu sabe que como filme sua feitura é um pequeno milagre de relativa fidelidade narrativa, tendo como base textos desconexos. Mesmo a trama se desenvolvendo em 1952, é contada como uma velha película noir, trocando a fotografia preto e branco por tons verdes e vermelhos. Tal escolha, em conjunto com a direção de arte e figurinos, foi muito feliz porque não nos permite identificar a época em que foi produzido. Basicamente o argumento é simples, o diabo é seu desenrolar. Escritor tenta sobreviver trabalhando como exterminador de insetos. Seguindo idéia da esposa torna-se viciado ao injetar o veneno em si. Isso o põe a serviço de organização misteriosa que lhe manda até um lugar chamado Interzone. Lá será espécie de detetive, tendo a “homossexualidade como seu melhor disfarce”, conforme recomenda um dos agentes, sua máquina de escrever. Essa criatura é outro acerto, bem realizado, convence sendo meio inseto, meio máquina e que ainda fala bastante, não pelos cotovelos, mas através de seus anus gigante. Nunca se entende realmente qual é a missão dele, e não espere que a confusão melhore até seu desfecho. Muitas vezes obsoleto quanto escrever à máquina ou escritores drogados. Tão desconcertante quanto os caminhos da mente criativa.

Mistérios e Paixões – Naked Lunch

- Canadá/EUA 1991 De David Cronenberg com Peter Weller, Judy Davis, Ian Holm, Julian Sands, Roy Scheider, Monique Mercure, Joseph Scoren 115’ Drama/Mistério


DVD - Um dos mais subestimados de Croenberg tem edição boazinha. Utilizaram a imagem do pôster original, ao invés do que havia feito a distribuidora do VHS, que tentou enganar o público fazendo supor ser uma história de amor. Até esse título em português ridículo tentaram consertar escrevendo em baixo “Uma Adaptação de Almoço Nu, de Burroughs”, afinal, quem quer que tenha interesse por ele já deve conhecer o livro. Ainda menus retrôs com baratinhas passeando cá e lá, e alguns extras como texto, spot de TV e trailer (narrados por Burroughs!!!) e um curto making off da com depoimentos de 1991.

Cotação:

3 de maio de 2008

David e Betsabá

Esses épicos bíblicos têm algo de suburbano, de engraçado em sua grandiloqüência. Quase como aquele vizinho que resolve construir uma piscina no quintal só pra ostentar seus caraminguados. A Fox não tinha um Cecil B. Demille à mão e pouco se importou, porque apostava que uma história clássica tirada do Novo Testamento serviria para emocionar as multidões. Aliás, na verdade tirada de um romance famoso na década de 40, e esse sim era baseado nas escrituras. Isso talvez explique a ausência de grandes tomadas com multidões, se restringindo ao bas-fond do romance extraconjugal, o que junto às interpretações empostadas tornam os primeiros minutos quase insuportáveis. Susan Hayward está adorável com sua Betsabá (ou Bate-Seba), uma das precursoras do fetiche “exibicionista/voyer”. Danadinha, percebe que o Rei Davi vai toda noite caminhar em seu terraço e aproveita a ocasião pra tomar banho. Mesmo sendo casada! Claro que desde que o mundo é mundo o que não falta é a boa fofoca, e numa época em que adultério era castigado com apedrejamento público se armará o borogodó. Ou como chama o Meu Livro de Histórias Bíblicas: Apuros na Casa de Davi. Há quem aposte que a ira de Jeová impedirá esse adocicado romance de chegar ao happy end?

David e Betsabá – David and Bathsheba

- EUA 1951 De Henry King com Gregory Peck, Susan Hayward, Raymond Massey, Kieron Moore, Jayne Meadows, John Sutton 116’ Drama/Romance


DVD - Duvido que na época de seu lançamento a imagem estivesse tão fantástica como nesse disco. Cristalina, com contrastes e brilho ressaltando a fotografia colorida em tons de sépia. Uma dublagem em português radiofônico (daquelas com os “erres” e “esses” corretinhos) é bonitinha, porém contrasta com tanta perfeição, já o áudio original está limpo. O único bônus é o trailer sensacionalista da época.

Cotação:

19 de abril de 2008

Guerra dos Mundos (1953)

Competente primeira versão da obra de H. G. Wells para o cinema, e um retumbante sucesso. Aparentemente bem envelhecido, é de 1953, mas parece ser do inicio da década passada! Bancado por um grande estúdio (Paramount), possui inúmeros recursos que seriam amplamente imitados nas sucessivas cópias, imitações e ficções científicas B 50’s, como imagens de arquivo, que aqui ganham destaque por serem de cine jornais da segunda guerra e, portanto preto e branco e o resto da película em brilhante Tecnicolor. Essa pobreza franciscana acaba dando pontos a mais que a recente refilmagem assinada por Steven Spielberg. As naves alienígenas são uns caraminguados, em duas ou três cenas até nos permite ver os fiozinhos que a sustentam no ar. Mesmo quando o extraterrestre é visto, soltando um gritinho e saindo correngo tipo “bem lôca”, é condizente quando eles acabam sendo vítimas de vírus e bactérias. Aqueles da nova versão, hiper hi-tec, vieram dominar o planeta cheios de pompa e nem estudaram a existência de microorganismos? Interpretações mil à história, originalmente dramatizada no rádio por Orson Wells, pode representar o medo da ameaça comunista que vinha da Europa, e isto fica evidente com os raios avermelhados, ou o bucólico lugar onde as naves pousam pela primeira vez, cheio de gente pacata de espírito “american way” elevado. Mas também o mal que a TV, recém inaugurada em Londres, poderia trazer aos hábitos do novo mundo. A base militar marciana não deve ser na Inglaterra à toa, nem os olhos da sonda em RGB...

Guerra dos Mundos – The War of the Worlds

- EUA 1953 De Byron Haskin Com Gene Barry, Ann Robinson, Les Tremayne, Robert Cornthwaite, Lewis Martin, Houseley Stevenson Jr., Cedric Hardwicke 85’ Ficção Científica


DVD - Primeira das duas edições comercializadas pela Paramount no Brasil. Esta ao ser anunciado o remake, tem na capa até estampado “a primeira invasão!” só tem o trailer de cinema como extra. A imagem possui full frame, que seria as dimensões originais, e embora cristalina na maior parte do tempo, aparecem alguns riscos do negativo.

Cotação: