23 de outubro de 2009

O Inquilino

Roman Polanski atua e filma sobre algo que conhece bem: o desconforto de ser estrangeiro num ambiente hostil. É desfecho da chamada trilogia do apartamento, precedido por Repulsa ao Sexo (65) e O Bebê de Rosemary (68).

Jovem polonês que mora na França só alugará o apartamento se a antiga inquilina não sobreviver. A garota, que só é vista toda enfaixada no hospital, inexplicavelmente pulou da janela.

Os outros moradores, claro, são uns velhos estranhíssimos, que impõe inúmeras regras e têm hábitos suspeitos pelas trevas da madrugada. Residindo lá, o pacato e submisso protagonista passará do deslocamento à loucura total.

Tentando se manter alheio às intrigas e grosserias, se afastará da realidade enquanto cria um pouco seguro universo particular. Aos poucos passará a crer que ele e a suicida são a mesma pessoa, ou que isso é imposto pelos vizinhos.

A derrapada (de leve) está em tentar explicar demais, dá certeza de que tudo acontece dentro da cabeça e não que ele foi morar num coven. Ao mesmo tempo, há incontáveis coisinhas que tinham peso mas são deixadas pelo meio do caminho.

Com estrutura de noir (o trabalho anterior de Polanski foi Chinatown, 74), é muito bem sucedido em interpretações, clima claustrofóbico apoiado por direção de arte irrepreensível, mas o maior trunfo é a exploração do medo pessoal. Muito pouco visto no cinema, até porque não é fácil expor o distúrbio psicótico onde o portador é a vítima, não o criminoso.


O Inquilino - Le locataire

- França 1976 De Roman Polanski Com Roman Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Jo Van Fleet, Jacques Monod, Lila Kedrova, Shelley Winters , Josiane Balasko 126’ Horror



Cotação:

22 de outubro de 2009

A Menina e o Porquinho (1973)

Ousadia da Hanna-Barbera, tradicional estúdio de curtas, ciscar no terreno Disney. Por décadas a casa do Mickey era sinônimo de longas em animação.

Tecnicamente este desenho tem todos os defeitos dos produtos H-B que bem conhecemos da TV, econômicos, muitas vezes os personagens só movem a boca. Isso se torna mero detalhe diante da história encantadora, com imortal lição de coleguismo.

Talvez o nome em português possa frustrar, já que a menina em questão participa só no começo, quando não permite que o porquinho Wilbur seja sacrificado. Ele não foi vendido como os demais por ter nascido menor que os demais.

Adulto e gordinho, o amigo rosa vai morar em outra fazenda, e lá, para não virar toicinho contará com a auxílio de Charlotte. A aranha solidária usará sua teia para falar aos humanos que belo suíno eles têm.

Essa atitude altruísta envolverá todos os outros animais direta ou indiretamente numa teia da bondade. Portanto, com esse trocadilho com a rede (web) da ajuda, o título original, idêntico ao do livro que o inspirou, dá mais sentido à trama.

Com algumas canções menos enfadonhas do que minha memória guardava, ainda dá pra assisti-lo tranquilamente. Graças ao ritmo lento, deve agradar apenas as crianças bem novinhas, embora se eu tivesse um filho, pela valiosa lição, forçaria um pouco a barra.

Nunca tinha assistido inteiro, mesmo tendo sido exibido incontáveis vezes nas tardes da Globo dos anos 80. Estudava de manhã, então, ainda mais com aquelas músicas, acabava dormindo na metade, esparramado no sofá.

Em certo ponto, A Menina e o Porquinho sempre causava choradeira entre a galerinha lá de casa. Depois de adulto não me pareceu tão sentimentalóide.

Curiosamente ele usa atores famosos, prática que só se tornaria comum dos estúdios Disney nos trabalhos recentes. As vozes de Debbie Reynolds (como a aranha Charlotte) e Agnes Moorehead (a gansa atrapalhada) são identificáveis, e um motivo a mais para curtir.

As duas eram amicíssimas a ponto de alimentar as línguas ferinas da época sobre um suposto affaire entre as duas. Moorehead, atriz shakesperiana conhecida como a Endora do seriado A Feiticeira, faleceria no ano seguinte, sendo este seu último trabalho para o cinema.


A Menina e o Porquinho - Charlotte's Web

- EUA 1973 De Charles A. Nichols Iwao Takamoto Com as vozes de Debbie Reynolds, Agnes Moorehead, Paul Lynde, Danny Bonaduce, William B. White, Henry Gibson 94’ Animação/Drama


DVD- Quando saiu o filme em live action protagonizado pela Dakota Fanning voltei a vê-lo nas boas lojas do ramo. Atenção porque há outro “A Menina e o Porquinho” bem baratinho, produzido por aqueles picaretas que vão na cola de sucessos e lançam títulos semelhantes. O clássico é da Paramount. Widescreen anamórfico, ótimo para quem não tem uma TV no formato já que as faixas negras costumam afugentar a petizada. Possui a dublagem em português que nos acostumamos na TV, além de dar a oportunidade de pela primeira vez ouvir a original, com as célebres atrizes com legendas em português. O único extra é o trailer original.

Cotação:

21 de outubro de 2009

Carrie, A Estranha (1976)

Brian de Palma brilhante demonstrando domínio na arte de filmar e manipulação da platéia. É o que ele mais tem de seu amado Hitchcock, muito mais do que referências visíveis.

Primeira adaptação de livro do Stephen King, abandona sua estrutura original, narrado em flashbacks com os depoimentos da sobrevivente Sue Snell e recortes de jornal. Linearmente a protagonista é envolvida na teia até a tragédia que todos estamos carecas de saber qual é.

Em mãos menos habilidosas escorregaria para a obviedade principalmente porque explora temas bem em moda no cinema 70’s: catástrofe e adolescentes problemáticos com “problemas” inexplicáveis ao senso comum. Carrie é uma garota que não consegue se enquadrar socialmente, como todo jovem se sente um pouco em qualquer época.

Criada por uma mãe fanática religiosa (Piper Laurie doentiamente espetacular!), paga o mico de ficar apavorada ao menstruar pela primeira vez no vestiário escolar. Impossível não ter vergonha por ela, e muita raiva da estupidez que lhe rodeia.

Hoje Carrie White seria facilmente identificada como sofredora de bullying. Pode claramente fazer referência a fatos recentes da vida americana, como o adolescente de Colombine que, desprezado pelos colegas, abriu fogo contra todos.

O que só a gente e ela sabemos, é que possui poderes telecinéticos, habilidade que lhe faz mover objetos com a mente. E está aí a graça de mesmo conhecendo o que vai acontecer (o próprio trailer mostra), seja a primeira ou a 20ª vez que se assiste, acompanhar o desprezo sádico daquelas meninas boçalmente nojentas de cabelo a lá Farrah Fawcett.

A subversão está em que em momento algum Carrie pareça uma coitada psicótica. Vai atrás pra tentar entender seus dotes mentais, peita a loucura materna e desconfia das boas intenções do mocinho com cabelo igual ao do Ovelha quando este lhe convida a ir ao baile da Bates High School.

O filme discute intensamente o que nos pertence, fruto do que adquirimos conscientemente durante a vida, herdamos geneticamente e o que os outros tentam nos impingir rotulando. Por duas vezes Carrie é emporcalhada fisicamente ao tentar ser ela mesma.

O diabo são os outros!


Carrie, A Estranha - Carrie

- EUA 1976 De Brian De Palma Com Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, William Katt, Betty Buckley, Nancy Allen, John Travolta, P.J. Soles 98’ Suspense


DVD- Comercializado em três versões no Brasil. Há uma edição que só vem o trailer de bônus, uma edição “presente de grego” onde Stigmata o acompanhado e esta edição especial.

Para quem o viu como eu, a primeira e inesquecível vez na TV (TV Bandeirantes), depois o adquiri em VHS, parece estarmos assistindo a um novo filme! A imagem cristalina (com TODAS as sardas da Sissy Spacek aparentes) em widescreen, áudio 5.1 deixando a trilha sonora de Pino Donaggio ainda mais arrepiante...

Pena que o DVD saiu em 2000, primórdios da era digital, e nenhum extra venha com legendas. Há um longo documentário com todo o elenco (exceto Travolta) relembrando as filmagens, outro com making of, galeria de imagens, o espalhafatoso trailer original e muito texto em português sobre Stephen King.


Cotação:

A Sombra do Vampiro

O principal mérito é ser curto. Gigante desperdício de idéia genial, não chega a aborrecer, embora fique muito longe do que poderia ter sido.

O argumento versa sobre os bastidores do clássico expressionista Nosferatu, e a possibilidade de Murnau ter contratado um vampiro de verdade para encarnar o Conde Orlock. Daí que o vampiro quebra o acordo e sai atacando membros de equipe.

Talvez pela inexperiência do diretor, isso tudo não dá em nada, não se definindo como comédia, drama, suspense ou uma mescla de tudo isso. É insosso, embora a princípio fascine a recriação do ambiente cinematográfico nos primórdios.

Mas logo depois não dá para levar a sério nem isso, tendo como comparação as péssimas recriações do filme alemão de 1920. Completamente forçadas para justificarem ao argumento.

Há pelo menos uma sequência, quando o produtor interpretado por Udo Kier descobre a verdade sobre o vampiro, que se percebe a total falta de direção de atores. O texto diz uma coisa, eles interpretam outra.

Como tudo não anda nem desanda, Willem Dafoe como o tal príncipe da noite acaba destoando ridiculamente de todo o resto. As outras interpretações são caricatas, quase ofensivas na tentativa de reproduzir a forma como os atores atuavam na Alemanha dos anos 20.


A Sombra do Vampiro - Shadow of the Vampire

- EUA 2000 De E. Elias Merhige Com John Malkovich, Willem Dafoe, Udo Kier, Cary Elwes, Catherine McCormack, Milos Hlavac 92’ Drama


DVD- E pra azar total, filme independente (produzido com alarde por Nicolas Cage) saiu aqui por distribuidora pequena. E a Europa lança qualquer filme com o básico que tem á mão, poucos e importando do que se trate.

Tacou uns menus animados chatíssimos que não podem ser pulados. Pra piorar, o longa está em tela cheia (4x3), com qualidade de imagem sofrível, mas pelo menos preservaram o áudio 5.1.

De bônus incluiu trailer, making of curto e entrevistas idem. E absolutamente nada sobre o filme Nosferatu, o diretor Murnau, ou o verdadeiro Max Schreck, o que poderia ter valido a pena no DVD.


Cotação:

13 de setembro de 2009

Eu Quero Viver

Barbara Graham foi a garota saidinha que se meteu com os caras errados. De alegria dos randevouz saltou ás páginas policiais em manchetes escandalosas no início da década de 50 acusada de assassinar uma velhinha às pauladas.

Presa, jurou inocência até o fim, quando foi condenada à câmara de gás. Mesmo com todas as matérias sensacionalistas que assolaram os EUA, inclusive nos primórdios da TV, sua história comoveu todo o país transformando-a num símbolo anti a pena capital.

O drama real transformado em roteiro de Hollywood virou veículo perfeito para Susan Hayworth brilhar. Nem a um passo de morrer ela deixa de ser arrogante e amoral, embora consiga sensibilidade nos momentos onde clama pela vida e reencontra seu filho bebê na cadeia.

Não teve pra ninguém na cerimônia do Oscar daquele ano. Hayward (após outras quatro indicações) desbancou a eterna queridinha Elizabeth Taylor que concorria como Meg de Gata Em Teto de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof).

Robert Wise, especialista em filmes fantásticos como A Maldição do Sangue de Pantera (The Curse of Cat People, 1944), dirigiu esquivando-se do dramalhão rasgado que o material poderia proporcionar. Principalmente pela trilha sonora espetacular de jazz e o roteiro que apresenta apenas o que já havia sido propagado na mídia.

O possível assassinato surge em meio à chuva de acusações no tribunal. Somos surpreendidos assim como o réu.

Apresentado e encerrado por frases do jornalista Edward S. 'Ed' Montgomery (ganhador do Politzer), que acompanhou o caso (e segundo o roteiro se envolveu emocionalmente), o roteiro se assemelha a uma vislumbrada em recortes de notícias. É sucinto nas fases, e não perde muito tempo em longas cenas de tribunal.

Quase um King Kong. Sabe-se o que foi reservado à heroína no final, e mesmo assim são minutos de extrema tensão e suspense claustrofóbico.


Eu Quero Viver - I Want to Live!

- EUA 1958 De Robert Wise Com Susan Hayward, Simon Oakland, Virginia Vincent, Theodore Bikel, Wesley Lau, Philip Coolidge, Lou Krugman, Alice Backes 120’ Drama


DVD- Uma tristeza estes DVDs de obras da RKO, MGM ou United Artists distribuídos no Brasil. Temos o filme apenas e já vamos com sorte, que pelo menos foi comercializado, em meio a centenas ainda inéditos. Não entendi até agora que diabos é Classicline, porque alguns discos com esta marca não parecem pertencer à grande estúdio algum, mas nesse caso a capinha é cheia do leão da Metro. E são caros pra chuchu!

Cotação:

16 de agosto de 2009

Arraste-me para o Inferno

Havia uma verdade e uma mentira no trailer desta nova incursão ao Horror do gênio por detrás da trilogia Evil Dead. A mentira é que o filme faz menos uso dos efeitos digitais do que aparentava, o que é uma sorte, por já se saber que computadores e o gênero não combinam em nada. A verdade é que acima de qualquer outra avaliação um retorno ao cinema calafrio clássico, com gatos, maldições, bruxas, demônios, casarões e aqueles exageros típicos que exigem a cumplicidade do espectador.

Entretenimento com sabor de passeio em trem fantasma de parque itinerante. Se for pra ficar apontando falhas e incoerências, seria melhor não ter entrado naquele carrinho enferrujado.

Não tão longe do terror como muitos acreditam, já que produziu boa parte das adaptações americanas de filmes japoneses que assolaram o mundo nos últimos tempos, o velho Raimi se faz presente muito mais nas incontáveis referências aos Evil Dead do que na cinematografia em si. Não há rebuscamentos de ângulos surpreendentes ou sacadas visuais de tirar o fôlego.

A propósito, quem viu as famigeradas desventuras de Ash inúmeras vezes deve aproveitar muito mais Arraste-me Para O Inferno. Está lá o humor pastelão, fruto da paixão confessa de Sam Raimi pelos Três Patetas, o olho do demônio que salta direto á goela da mocinha, o possuído vestindo algo semelhante aos casacos chineses para que os cabos possam o fazer flutuar sem serem vistos, xícaras e objetos inanimados que gargalham e a trilha sonora dialogando com o trabalho de Joseph LoDuca e Danny Elfman, os dois compositores com quem mais fez parceria.

Com argumento moralista e sem arroubos de originalidade, é curiosa a aposta em temores religiosos nestes tempos high-tec ao invés da carnificina desenfreada. Tão longe de ser obra-prima quanto de decepcionar, como nas velhas fitas de horror toma proveito dos temores do momento em terras yankees: malditos estrangeiros que podem nos levar ao inferno!


Arraste-me para o Inferno - Drag Me To Hell

- EUA 2009 De Sam Raimi Com Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver, Dileep Rao, David Paymer, Bojana Novakovic, Reggie Lee 99’Horror


*** Em Cartaz ***

Cotação:

8 de maio de 2009

O Monstro do Circo

Tão espetacular que a limitação técnica da falta de som torna-se mero detalhe. Lon Chaney é um perigoso bandido, que para fugir da polícia, refugia-se num circo. Como possui seis dedos em cada mão (o que o identificaria facilmente), disfarça-se de atirador de facas sem braços. Na tenra idade, Joan Crawford é a belíssima filha do dono do circo e partner de picadeiro do malfeitor. Por coincidência, a garota tem aversão a que homens lhe toquem, portanto, vira alvo fácil do falso deficiente enquanto escapa dos galanteios do Homem Forte. E espere um verdadeiro desfile de personagens e ações bizarras, como automutilação e muitas reviravoltas na trama. Até um vigoroso final, ainda de prender o fôlego 82 anos depois! Chaney faz jus à alcunha de homem das mil faces num desempenho emocional e físico difícil de ser superado. Consegue, por exemplo, acender e fumar cigarro só com os pés com espantosa desenvoltura, assim como tocar violão. Parece que fez isso a vida toda. O diretor Tod Browning é muito famoso por ter feito Drácula, aquele de 31 com Bela Lugosi, e o maldito Monstros (Freaks, 1932), mas não há dúvidas de que neste O Monstro do Circo chegava ao auge de seu talento. Alegórico e divertido, traça um vigoroso estudo sobre a natureza humana, numa época em que a psicologia não estava tão avançado.

O Monstro do Circo – The Unknown

- EUA 1927 De Tod Browning Com Lon Chaney, Joan Crawford, Nick De Ruiz, John George, Frank Lanning 63’ Horror


Cotação:

6 de maio de 2009

Feliz Natal

Um filme brasileiro recente que não se passa em morro carioca, sertão ou nos brinde com as agruras amorosas da classe média já é louvável por si só! E confesso que comecei a assistir com as quatro patas no chão. A fotografia granulada e câmera trêmula me cheiravam a pretensão artística de atorzinho da Globo tentando ser gente no cinema. Preconceito! Ambos acordam completamente com o ambiente doméstico ao qual a história transcorre. Há que se lembrar que junto à tecnologia, a arte (essa coisa tão humana...) de interpretar sofre transformações, e a estréia de Selton Mello como diretor aponta caminhos novos tão drásticos a atores quanto a chegada do áudio ou o zoom. Interpretações tão cristalinas só possíveis no teatro, mas sem os exageros do palco. Ou melhor, a câmera digital nos transporta dolorosamente para dentro da ação quase como bisbilhoteiros, vasculhando cada emoção por mais sutil que seja em “tempo real”. E o cineasta se cercou de um elenco tarimbado, embora não óbvio, para que a experiência seja a mais correta possível. Darlene Glória, por exemplo, está estupenda como a mãe alcoólatra que já desistiu a muito tempo de segurar as pontas da família em frangalhos. Mello acertou na primeira tacada não só pelo que se assiste, mas pelo filme continuar a existir em nossa mente quando ele acaba. Tijolo por tijolo os personagens vão se revelando, tão ricos e tão miseráveis em sua existência que mesmo sem sobrar o que ser amarrado no final é nítido que pertencem a este mundo.

Feliz Natal – Feliz Natal

- Brasil 2008 De Selton Mello Com Darlene Glória, Paulo Guarnieri, Lúcio Mauro, Leonardo Medeiros, Graziela Moretto, Fabricio Reis, 100’ Drama


Cotação:

23 de fevereiro de 2009

Carne Fresca

Pela pretensão de colocar foco numa figura tão controvérsia quanto Bob Mizer é louvável por si só. Ele tomou de assalto as bancas norte-americanas entre os anos 40 e 50 com a Athletic Model Guild (AMG), revista de belos rapazes quase nus, entrando pra história pela coragem e por criar um estilo homoerótico. Foi perseguido pela polícia e preso por, entre outras coisas, favorecer a prostituição, hoje é tido como um dos maiores fotógrafos do século passado. Como se sabe muito pouco sobre o assunto, há várias curiosidades saborosas, por exemplo, de que era a mãe do retratista quem costurava os famosos tapa-sexo, e de que forma recrutava seus “modelos”. Acaba por confirmar o imaginário popular, com aquelas pessoas desembarcavam em Hollywood com a ambição de se tornarem estrelas de cinema, cedendo ao convite de tirar a roupa pra não morrerem de fome. Carne Fresca decidiu-se por seguir a linha drama intercalado pelos depoimentos de alguns sobreviventes, agora, todos velhos senhores logicamente. E um dos problemas vem daí, resultando em algo muito contido e ágil, dando a sensação de que desperdiçaram os entrevistados ou a curioso biografado. Não chega a emocionar em momento algum, embora a reconstituição de época e o clima seja puro 50’s. Difícil de acreditar que Joe Dallesandro, também muso de Andy Warhol, tinha 19 anos naquele tempo sendo que diz estar com 50, mas enfim... É perceptível como “falha” também, que todo o trabalho de Mizer tem uma forte estética american way pós-guerra, e o filme é uma co-produção de baixo orçamento canadense, francesa e inglesa, de fotografia bem iluminada. O artista merecia algo made in Hollywood tipo L.A. Confidential. Por falta de glamour decadente não deixará de ser feito.

Carne Fresca – Beefcake

- Canadá/Inglaterra/França 1998 De Thom Fitzgerald Com Daniel MacIvor, Joshua Peace, Jack Griffin Mazeika, Joe Dallesandro, Carroll Godsman, Thomas Cawood, Daniel McLaren, 97’ Drama/ Documentário


Cotação:

30 de janeiro de 2009

O Planeta Proibido

A mais incensada sci-fi 50’s exige boa dose de paciência. Isso porque, esbarra na precariedade de tantas outras da época. Sem recursos financeiros ou artísticos, enchiam o roteiro de diálogos ao invés das coisas acontecerem ou serem mostradas. E aqui é um infinito blábláblá sobre tecnologia de mentirinha que só com muita boa vontade para acompanhar até o fim. Nos últimos minutos torna-se sensacional, com efeitos especiais ainda impressionantes e a grande sacada na conclusão da história envolvendo o Monstro ID. Aliás, argumento inspirado em A Tempestade de Shakespeare, o que torna a produção mais invulgar ainda. Muito bem humorado, o filme mostra a chegada de uma tripulação terráquea ao planeta Altair I, após investigar inusitado silencio onde antes era habitado. Agora vivem apenas duas pessoas, um cientista com mania de grandeza e sua filha, uma gatinha de roupas provocantes que deixará qualquer um dos astronautas a beijar na boca e sabe Deus o que mais. E claro, um robô humanóide com as falas mais divertidas. Outra coisa curiosa, e que chega a incomodar a princípio, é Leslie Nielsen jovem sendo o capitão. Não dá pra não esperar algumas caretas dele. Mas dá conta do recado na luta contra o mal obscuro comum a todos.

O Planeta Proibido – Forbidden Planet

- EUA 1956 De Fred M. Wilcox Com Walter Pidgeon, Leslie Nielsen, Anne Francis, Warren Stevens, Richard Anderson, George Wallace, Robert Dix 98’ Ficção Científica


Cotação:

16 de janeiro de 2009

Noite Alucinante 3

E assim, cai o pano da forma épica que o desfecho de uma trilogia inovadora como foi Evil Dead merece. Ash como no final do anterior, entre no portal por acidente indo parar na Idade Média. Lá irá se transformar no herói que o Necronomicon apregoava existir, mas também o causador de grandes transtornos ao despertar a fúria do Exército das Sombras. Não tendo no título original “Evil Dead”, nem o número 3, leva muito mais a sério a cronologia do que o episódio anterior, embora não seja nada fiel na cena que serve de ponte entre eles. Num flashback, algumas sequências foram refeitas, com Bridget Fonda sendo Linda, a namorada possuída. Diversão garantida para quem não levar tudo tão a sério ou não esperar o mesmo horror de antes. Aliás, sua violência está mais gráfica, assumindo de vez sua inspiração em desenhos tipo Perna Longa ou nos velhos episódios de Os Três Patetas. A ambiciosa produção faz com que mesmo com mais grana as dificuldades sejam semelhantes ao de 1982, feito por Sam Raimi com um punhado de dólares em 16 mm. Não que a mente do diretor seja pouco fértil ao ponto de deixar de executar alguma de suas idéias malucas por falta de dinheiro ou recursos tecnológicos da época. O tal exercito das sombras, por exemplo, é parte fantoche, parte atores fantasiados e parte stop-motion e mesmo assim é um raro momento mágico entre as fitas de aventura. Sabor puro de Sessão da Tarde!

Noite Alucinante 3 – Army of Darkness

- EUA 1992 De Sam Raimi Com Bruce Campbell, Embeth Davidtz, Marcus Gilbert, Ian Abercrombie, Richard Grove, Timothy Patrick Quill, Michael Earl Reid, Bruce Thomas, Bridget Fonda 96’ Comédia/Horror


Cotação:

13 de janeiro de 2009

Senta No Meu Que Eu Entro Na Tua

Dois episódios: Alô Buça e O Unicórnio. No primeiro, as desventuras de uma mulher casada e leviana às voltas com sua vagina que resolveu falar tudo o que sente. Pouco a pouco ela vai mandando na vida da “dona” sendo muito indiscreta. Chega a recusar que um parceiro coloque a boca em si por causa do mau hálito. A outra historinha é sobre um marido traído (Germano Vezzani que chegou a fazer ponta em telenovela da Globo) que ao invés de chifre vê nascer um insaciável pênis em sua cabeça! Em ambos os casos, é evidente que se trata de uma crítica a quem tem a vida em torno do sexo, praticamente deixa que um órgão comande sua roda social. Tão engraçado e chulo que beira a genialidade! Dá pra rir só de imaginar a atriz que dublou a vagina, ou como aqueles closes na hora que ela fala devem ter ficado vistos numa tela grande de cinema. O momento chave é a dona cantando uma música de dor de cotovelo e a genitália indo de “Isso me dá um tique tique nervoso...”!!! Mas o grande barato das pornochanchadas dessa fase explícita é usar sua displicência pra colocar a sacanagem no seu devido lugar: Como a coisa mais óbvia e comum que existe desde que o mundo é mundo! A cena final é de se suspeitar ter sido fonte de inspiração a John Waters. O filme Clube dos Pervertidos se encerra exatamente da mesma forma.

Senta No Meu Que Eu Entro Na Tua

- Brasil 1985 De Ody Fraga Com Germano Vezzani, Jaime Cardoso , Sílvia Dumont, Walter Gabarron,Sandra Midori, Débora Muniz, Kelly Muriel, 88’ Comédia/Sexo Explicito


Cotação:

8 de janeiro de 2009

O Mensageiro do Diabo

O fato de ser a única direção do ator Charles Laughton só amplifica seu fascínio de obra prima. É como se Da Vinci só tivesse pintado a Mona Lisa... Se equilibrando entre conto de fadas e uma tenebrosa história de serial killer irredutível, é bonito o suficiente para ir além de mero filme para causar medo. Notadamente influenciado pelo expressionismo alemão e na literatura gótica, consegue ser desconcertante em muitos momentos. Tanto visualmente (com momentos até ridículos de tão doces) quanto psicologicamente, nos mostrando que criancinhas inseguras somos nós, apegadas a velhas máscaras sacras para poder confiar no próximo! A diva Lilian Gish, aquela altura já era uma senhorinha que teria relutado pra sair da aposentadoria, abre o espetáculo entre estrelinhas. Recita alguns trechos bíblicos para só aí sermos apresentados ao lobo em pele de cordeiro. Não é sempre que vemos um ator encontrando o papel de sua vida como Robert Mitchum aqui. Quando aparece (vestido como respeitável religioso) num show de strip-tease, e no ápice salta de entre suas pernas um lustroso canivete, sabe-se de qual espécie de fera estamos diante. Disfarçado de pastor, aplica golpes em viúvas desamparadas, até que na cadeia escuta de um condenado à morte sobre a fabulosa fortuna que deixou escondida entre sua família. E o resto da metragem será gasto com o pilantra primeiro conquistando a pobre viuvinha (Shelley Winters, quem mais?) e depois atrás das criancinhas fofas, detentoras do segredo milionário. Nada menos do que um dos mais perversos jogos de gato e rato que o cinema já mostrou.

O Mensageiro do Diabo - The Night of the Hunter

- EUA 1955 De Charles Laughton Com Robert Mitchum, Shelley Winters, Lillian Gish, James Gleason, Evelyn Varden, Peter Graves, Don Beddoe, Billy Chapin 93’ Suspense


Cotação: