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4 de setembro de 2011

Enrolados

Difícil assistir filmes com a chancela Disney sem uma certa má vontade. Na primeira cantoriazinha a gente já torcer o nariz sem nem prestar atenção ao que se trata a música.

Enrolados aponta para um esforço monumental do estúdio em se adaptar aos novos tempos. Precisa manter a linha que todos crescemos aprendendo a reconhecer como da casa do Mickey, mas também fazer dinheiro na bilheteria, interessando a um público cada vez menos interessado em cinema, além dos minutos que passará sentado assistindo.

Começa por adaptar uma princesa clássica como de costume (Rapunzel), mas não usar seu nome no título como de costume. Usaram um trocadilho com uma gíria que dá mais a impressão de romance do que a aventura que nos será apresentada.

Há ainda aquelas perversões à história original. Lembro pouquíssimo de Rapunzel, mas lembro (principalmente pela versão do Sitio do Pica Pau Amarelo) que o príncipe caia numa armadilha ao tentar subir pelas tranças, despencando de cara num roseiral.

Aqui, evidente, nada de cegueira com sangue espirrando pelos olhos. A guria nem trança usa como escada, vive com ele solto, tal e qual uma dessas evangélicas radicais que vemos por aí.

Mas nem por isso é uma história tolinha, como vimos em coisas de fundo puramente mercantilista como Pocahontas. Não há um fiapo de história cheio de músicas com começo, nada de meio e final feliz.

É bem desenvolvido, interessante tanto para adultos quanto para crianças. Bom sinal para o primeiro longa tendo John Lasseter num cargo executivo, alma da Pixar, parece ter conseguido injetar algum fôlego nos poupando de outro comercial animado gigante.

Até as canções são divertidas, ajudando no (desculpe o trocadilho) desenrolar da história sem parar tudo para a ouvirmos. Particularmente achei graça perceber uma evidente (para adultos) analogia com sexo.

Mais precisamente a perda da virgindade. Quando desobedece a suposta mãe, que havia lhe botado muita caraminhola na cabeça sobre o mundo lá fora e os homens malvados, ela oscila entre maravilhada e muita culpa, vergonha e remorso por ir contra as palavras da velha.

Outro momento é quando ouve da mulher que assim que ela entregar a bolsa com a coroa para ele o perderá. Acabará o romance assim que o galã colocar as mãos no que lhe interessa.

Falando na vilã, entrou direto para a tradicional galeria das melhores! Com um ar de Cher com Gloria Swanson, suas aparições são empolgantes e nos remetem (principalmente seu fim) às produções da Hammer.

Desconfortável mesmo é a relevância de se jogar balões ao ar. Pode ser algo exótico nos Estados Unidos (buscaram referências em tradição asiática), mas no Brasil é uma praga que nos assola durante as festas juninas.

Outra coisa estranha é a Disney incluir uma animação computadorizada no seu rol de longas. Pela primeira vez assume se tratar do 50º, colocando no mesmo balaio Família do Futuro, aquele do cãozinho branco com Pinóquio e Cinderela.

Enrolados - Tangled

- EUA 2010 De Nathan Greno e Byron Howard Com as vozes de Mandy Moore, Zachary Levi, Donna Murphy 100’ Ação/Animação


Blu-Ray- Fantasticamente cristalino, mesmo com a ausência de poros visíveis na pele dos personagens, nos oferece riqueza espantosa de texturas nos cenários e figurinos. É provável que em outros formatos perca boa parte da graça.

Bônus não são muitos, mas interessantes como cenas inéditas ainda em storyboards, músicas estendidas e um documentário apresentado por Mandy Moore, Zachary Levi localizando o filme dentro da história das animações Disney.

Interessante a existência da montagem (que tinha se tornado um viral no You Tube) com a contagem de todas as 50 animações deles, de Branca de Neve a Enrolados.


Cotação:

21 de outubro de 2009

Carrie, A Estranha (1976)

Brian de Palma brilhante demonstrando domínio na arte de filmar e manipulação da platéia. É o que ele mais tem de seu amado Hitchcock, muito mais do que referências visíveis.

Primeira adaptação de livro do Stephen King, abandona sua estrutura original, narrado em flashbacks com os depoimentos da sobrevivente Sue Snell e recortes de jornal. Linearmente a protagonista é envolvida na teia até a tragédia que todos estamos carecas de saber qual é.

Em mãos menos habilidosas escorregaria para a obviedade principalmente porque explora temas bem em moda no cinema 70’s: catástrofe e adolescentes problemáticos com “problemas” inexplicáveis ao senso comum. Carrie é uma garota que não consegue se enquadrar socialmente, como todo jovem se sente um pouco em qualquer época.

Criada por uma mãe fanática religiosa (Piper Laurie doentiamente espetacular!), paga o mico de ficar apavorada ao menstruar pela primeira vez no vestiário escolar. Impossível não ter vergonha por ela, e muita raiva da estupidez que lhe rodeia.

Hoje Carrie White seria facilmente identificada como sofredora de bullying. Pode claramente fazer referência a fatos recentes da vida americana, como o adolescente de Colombine que, desprezado pelos colegas, abriu fogo contra todos.

O que só a gente e ela sabemos, é que possui poderes telecinéticos, habilidade que lhe faz mover objetos com a mente. E está aí a graça de mesmo conhecendo o que vai acontecer (o próprio trailer mostra), seja a primeira ou a 20ª vez que se assiste, acompanhar o desprezo sádico daquelas meninas boçalmente nojentas de cabelo a lá Farrah Fawcett.

A subversão está em que em momento algum Carrie pareça uma coitada psicótica. Vai atrás pra tentar entender seus dotes mentais, peita a loucura materna e desconfia das boas intenções do mocinho com cabelo igual ao do Ovelha quando este lhe convida a ir ao baile da Bates High School.

O filme discute intensamente o que nos pertence, fruto do que adquirimos conscientemente durante a vida, herdamos geneticamente e o que os outros tentam nos impingir rotulando. Por duas vezes Carrie é emporcalhada fisicamente ao tentar ser ela mesma.

O diabo são os outros!


Carrie, A Estranha - Carrie

- EUA 1976 De Brian De Palma Com Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, William Katt, Betty Buckley, Nancy Allen, John Travolta, P.J. Soles 98’ Suspense


DVD- Comercializado em três versões no Brasil. Há uma edição que só vem o trailer de bônus, uma edição “presente de grego” onde Stigmata o acompanhado e esta edição especial.

Para quem o viu como eu, a primeira e inesquecível vez na TV (TV Bandeirantes), depois o adquiri em VHS, parece estarmos assistindo a um novo filme! A imagem cristalina (com TODAS as sardas da Sissy Spacek aparentes) em widescreen, áudio 5.1 deixando a trilha sonora de Pino Donaggio ainda mais arrepiante...

Pena que o DVD saiu em 2000, primórdios da era digital, e nenhum extra venha com legendas. Há um longo documentário com todo o elenco (exceto Travolta) relembrando as filmagens, outro com making of, galeria de imagens, o espalhafatoso trailer original e muito texto em português sobre Stephen King.


Cotação:

13 de setembro de 2009

Eu Quero Viver

Barbara Graham foi a garota saidinha que se meteu com os caras errados. De alegria dos randevouz saltou ás páginas policiais em manchetes escandalosas no início da década de 50 acusada de assassinar uma velhinha às pauladas.

Presa, jurou inocência até o fim, quando foi condenada à câmara de gás. Mesmo com todas as matérias sensacionalistas que assolaram os EUA, inclusive nos primórdios da TV, sua história comoveu todo o país transformando-a num símbolo anti a pena capital.

O drama real transformado em roteiro de Hollywood virou veículo perfeito para Susan Hayworth brilhar. Nem a um passo de morrer ela deixa de ser arrogante e amoral, embora consiga sensibilidade nos momentos onde clama pela vida e reencontra seu filho bebê na cadeia.

Não teve pra ninguém na cerimônia do Oscar daquele ano. Hayward (após outras quatro indicações) desbancou a eterna queridinha Elizabeth Taylor que concorria como Meg de Gata Em Teto de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof).

Robert Wise, especialista em filmes fantásticos como A Maldição do Sangue de Pantera (The Curse of Cat People, 1944), dirigiu esquivando-se do dramalhão rasgado que o material poderia proporcionar. Principalmente pela trilha sonora espetacular de jazz e o roteiro que apresenta apenas o que já havia sido propagado na mídia.

O possível assassinato surge em meio à chuva de acusações no tribunal. Somos surpreendidos assim como o réu.

Apresentado e encerrado por frases do jornalista Edward S. 'Ed' Montgomery (ganhador do Politzer), que acompanhou o caso (e segundo o roteiro se envolveu emocionalmente), o roteiro se assemelha a uma vislumbrada em recortes de notícias. É sucinto nas fases, e não perde muito tempo em longas cenas de tribunal.

Quase um King Kong. Sabe-se o que foi reservado à heroína no final, e mesmo assim são minutos de extrema tensão e suspense claustrofóbico.


Eu Quero Viver - I Want to Live!

- EUA 1958 De Robert Wise Com Susan Hayward, Simon Oakland, Virginia Vincent, Theodore Bikel, Wesley Lau, Philip Coolidge, Lou Krugman, Alice Backes 120’ Drama


DVD- Uma tristeza estes DVDs de obras da RKO, MGM ou United Artists distribuídos no Brasil. Temos o filme apenas e já vamos com sorte, que pelo menos foi comercializado, em meio a centenas ainda inéditos. Não entendi até agora que diabos é Classicline, porque alguns discos com esta marca não parecem pertencer à grande estúdio algum, mas nesse caso a capinha é cheia do leão da Metro. E são caros pra chuchu!

Cotação:

6 de maio de 2009

Feliz Natal

Um filme brasileiro recente que não se passa em morro carioca, sertão ou nos brinde com as agruras amorosas da classe média já é louvável por si só! E confesso que comecei a assistir com as quatro patas no chão. A fotografia granulada e câmera trêmula me cheiravam a pretensão artística de atorzinho da Globo tentando ser gente no cinema. Preconceito! Ambos acordam completamente com o ambiente doméstico ao qual a história transcorre. Há que se lembrar que junto à tecnologia, a arte (essa coisa tão humana...) de interpretar sofre transformações, e a estréia de Selton Mello como diretor aponta caminhos novos tão drásticos a atores quanto a chegada do áudio ou o zoom. Interpretações tão cristalinas só possíveis no teatro, mas sem os exageros do palco. Ou melhor, a câmera digital nos transporta dolorosamente para dentro da ação quase como bisbilhoteiros, vasculhando cada emoção por mais sutil que seja em “tempo real”. E o cineasta se cercou de um elenco tarimbado, embora não óbvio, para que a experiência seja a mais correta possível. Darlene Glória, por exemplo, está estupenda como a mãe alcoólatra que já desistiu a muito tempo de segurar as pontas da família em frangalhos. Mello acertou na primeira tacada não só pelo que se assiste, mas pelo filme continuar a existir em nossa mente quando ele acaba. Tijolo por tijolo os personagens vão se revelando, tão ricos e tão miseráveis em sua existência que mesmo sem sobrar o que ser amarrado no final é nítido que pertencem a este mundo.

Feliz Natal – Feliz Natal

- Brasil 2008 De Selton Mello Com Darlene Glória, Paulo Guarnieri, Lúcio Mauro, Leonardo Medeiros, Graziela Moretto, Fabricio Reis, 100’ Drama


Cotação:

21 de dezembro de 2008

Crepúsculo

Pra começo de conversa, a mocinha parece muito anêmica para ser interesse de um vampiro. Se bem que estes novos vampiros adolescentes são de butique: Nada de sexo, nada de sangue humano, medo da luz solar, nem caninos pontiagudos. Uns chatos mesmo! O filme não esconde sua ambição de levar às telas todos os livros que o inspiraram, o deixando ainda mais com cara de piloto de seriado de TV, cheio de pontas a serem atadas posteriormente. Se fosse um produto televisivo não seria nada mal, na tela grande, as mais de duas horas de chove não molha púbere chega a dar certa impaciência. Isso talvez porque sou velho pro material e aqueles marmanjões de 17 anos fugindo da naturalidade da vida fazem pouco sentido, além de cheirar a demagogia norte-americana. Mas a molecada deve amar! A sala lotada de menininhas que faziam “hihihihihi” a cada investida do casalzinho inter-racial é um sinal a não ser desprezado. A mocinha (Um misto de Jennifer Garner com Ingrid Guimarães mas muito mais pálida) vai morar com o pai numa pequena cidade depois que a mãe casa pela segunda vez. O motivo exato talvez seja descoberto nos evidentes próximos filmes. Lá, se encanta com o garoto da escola mais estranho (mas feio! Muito feio mesmo!), se apaixonam, e depois ficam naquela de que deve ser vampira também ou não. O que também não faz muito sentido já que vampiros são seres maravilhosos e amiguinhos que vivem numa belíssima casa de vidro no meio da floresta, sem nada que os desabone. Aliás, sabe o que acontece quando saem ao sol? Brilham! Como se tivessem tomado banho de purpurina. Cruzes!

Crepúsculo - Twilight

- EUA 2008 De Catherine Hardwicke Com Kristen Stewart, Robert Pattinson, Billy Burke, Billy Burke, Nikki Reed, Jackson Rathbone, Kellan Lutz, Peter Facinelli, Cam Gigandet 122’Romance


*** Em Cartaz ***

Cotação:

11 de dezembro de 2008

Polyester

Tem algo muito fedorento na classe média. Parece ser a principal função de John Waters nesta vida apontar de onde vem o mau cheiro na ostentação da família perfeita. Ele nunca foi tão explícito na empreitada quanto em Polyester, quando a platéia recebia na porta dos cinemas uma cartelinha com números que deveriam ser raspados conforme a protagonista ia cheirando os objetos em cena: estava inventado o Odorama! É o elo não perdido entre toda a trasheira da filmografia de Waters na década de 70 com seu lado mais civilizado exibido a partir dos 80. Pode não ser dos seus trabalhos mais brilhantes, mas ainda muito bom! Divine é Francine, uma dona de casa comum de Baltimore com inúmeros problemas domésticos. Saca a lista: O marido é dono de um cinema pornô e é amante da secretária (que se orgulha de usar roupa 100% polyester), o filho é um junkie conhecido como o pisoteador do supermercado (!!!), a filha a biscatinha de cabelo a lá Farrah Fawcett que dança para os garotos da escola em troca de uns caraminguás, e a mãe, a velha mais perversa imaginável! Pra piorar, o circulo social de Francine se resume à ex-empregada doméstica que ficou milionária, e que por sinal, será a única a ficar do seu lado quando a pobrezinha cair nas teias do vício do álcool. De lambuja ainda temos Tab Hunter, ex-galã teen dos anos 50, fazendo par romântico com Divine, parceria que iriam repetir algum tempo depois no hilário A Louca Corrida do Ouro.

Polyester

- EUA 1981 De John Waters Com Divine, Tab Hunter, Edith Massey, David Samson, Mary Garlington, Ken King, Mink Stole, Stiv Bators 86’Comédia


Cotação:

3 de dezembro de 2008

As Noivas do Vampiro

Peter Cushing com cara de tesão ao martelar ao estaca e jorrar sangue já vale a pena! É o Van Helsing mais insano e obsessivo mostrado no cinema, e sem dúvida o melhor de todos. Mas esta segunda incursão da Hammer no mundo vampiresco é muito mais que isso! Produzido na era de ouro do estúdio, foi dirigido por ninguém menos do que Terence Fischer, criador de nove entre dez coisas que se tornariam clichê no gênero. Não se deixe enganar pelo título original “The Brides of Dracula”, na época, uma condição da distribuidora norte-americana Universal para vendê-lo na cola de O Vampiro da Noite de 1958. Drácula só é citado, o resto da história original é sobre professorinha de francês que cai numa armadilha ao se hospedar no castelo de uma velha baronesa. Ao conhecer o filho da nobre, fica horrorizada ao vê-lo acorrentado pelo pé porque não lhe parece louco conforme a mãe afirma. No meio da noite, cheia de boas intenções, o solta ignorando o caos que causará aos camponeses da região. Há momentos de genialidade cinematográfica plena, como a governanta louca dando apoio para que uma morta irrompa da terra como se estivesse se referindo a um parto, mas também há inacreditáveis furos no roteiro e erros grotescos de ambientação histórica. Reza a lenda que o roteiro teria sido reescrito várias vezes, o que explicaria as muitas soluções mal explicadas. Dá-se um desconto porque além da Hammer estar aqui em seus primeiros passos, o resultado é competente e divertido. Absoluto na atmosfera macabra, com jovens suicidas, carruagens misteriosas em disparada na escuridão, batidas sinistras em portas, vampiras em camisolas esvoaçantes jurando amor eterno... Calafrios garantidos!

As Noivas do Vampiro – The Brides of Dracula

- Inglaterra 1960 De Terence Fisher Com Peter Cushing, Yvonne Monlaur, Martita Hunt, Freda Jackson, David Peel, Miles Malleson, Marie Devereux 85’ Horror


DVD- É a grande notícia aos fãs de filmes de horror clássicos depois que a Works DVD (Darke Side/London Films) subiu no telhado. A NBO está distribuindo na surdina alguns títulos da fase de outro da Hammer, jamais lançados antes em DVD no Brasil e a preços populares! Tela widescreen, áudio em 2 canais (em francês e inglês), só peca pela falta de extras e a capa muito feia. Numa loja, em meio a tantos discos, é possível que se cruze com ele sem dar bola para o seu conteúdo precioso.

Cotação:

28 de novembro de 2008

Piaf – Um Hino Ao Amor

140 minutos? Glup! O mito retratado é forte o bastante para nos dar coragem. Com mais acertos do que defeitos, é bem feitinho, filmado como se fosse uma produção norte-americana, claramente pensando nas platéias mundiais acostumadas ao arroz e feijão made in Hollywood. O roteiro abrange a vida toda da cantora, e como não há metragem suficiente para isso, a edição caprichou nos fragmentos. Graças a ela, a maioria das cenas emocionantes acaba perdendo o impacto, além de gerar certa confusão sobre a saraivada de personagens novos que aparecem a todo instante. Como se fica indo e vindo no tempo, isso ainda acaba sendo um Deus nos acuda para quem não é especialista em Piaf. A propósito, a história dá mais atenção à mulher comum que há cantora, o que não deve ser ruim aos franceses que devem conhecer sua carreira de cor e salteado, mas pra gente... Não há uma só cena sobre sua carreira cinematográfica, ou o impacto em sua vida que deve ter causado a gravação do primeiro disco. Marion Cotillard como protagonista foi laureada com o Oscar o que parece ser justo ao vermos Piaf envelhecendo de forma tão precoce, na tenra idade está muito caricata, quase a ponto de irritar. Uma coisa com que foi injustamente atacado é não se referir às famosas tendências lésbicas do “pequeno pardal”, o que é uma tremenda bobagem já que está sim tudo na tela. Fora a conhecida amizade com Marlene Dietrich (que no filme se resume a um aperto de mão) pra bom entendedor sabe como é, né?

Piaf – Um Hino Ao Amor – La Môme

- França 2007 De Olivier Dahan Com Marion Cotillard, Sylvie Testud, Pascal Greggory, Emmanuelle Seigner, Jean-Paul Rouve, Gérard Depardieu, Clotilde Courau, Jean-Pierre Martins, Manon Chevallier 140’ Drama


DVD- Gostaria que a Europa me explicasse porque um DVD com capa luxuosa em papel especial, usando luva de papelão e estojo que se abre tipo livro, não traz praticamente extra algum embora seja duplo! É pra poder cobrar mais caro? No primeiro disco vem só o filme, e no segundo um making of de meia hora e especial de menos de 10 minutos sobre a caracterização da personagem, versão MP4 e só! Nem trailer, nem mais nada!

Cotação:

26 de novembro de 2008

Interlúdio

Hitchcock tão seguro que parece sapatear como bem entende sobre o que de melhor sabe fazer na vida. Qualquer lógica é subvertida para que o mote principal (de que nada, absolutamente nada, pode abalar o amor) seja preservado até os enervantes minutos finais. Ingrid Bergman faz a desamparada alemã naturalizada norte-americana que se apaixona perdidamente por agente do governo (Cary Grant), embora seu pai esteja preso sob a acusação de nazismo. Ela aceita passar para o lado do Tio Sam ao embarcar rumo ao Rio de Janeiro em missão secreta. O que parecia ser um conto de fadas tropical não demorará a desembocar em terrível pesadelo com Nazistas organizadíssimos (chefiados por Claude Rains, em outra interpretação memorável) em busca de minérios brasileiros. Os pombinhos entrarão numa arapuca política/sexual que tão importante quanto saírem com vida será tentar manter os sentimentos ilesos. Bergman, soberba transitando num cenário carioca kitsch de mentirinha, age constantemente entre a razão e a emoção num jogo do mais profundo e complexo suspense. Com total domínio técnico, o diretor não abre mão do que chamou de “Mac Guffin”, o que traduzindo, seria mais ou menos como os meios narrativos justificando os fins, pouco importando a veracidade. O resultado é tão bem engendrado, dirigido com maestria inigualável, que não há do que reclamar. Poucos filmes do mestre têm uma sucessão de grandes seqüências quanto Interlúdio. Imprescindível.

Interlúdio – Notorious

- EUA 1946 De Alfred Hitchcock Com Cary Grant, Ingrid Bergman, Claude Rains, Louis Calhern, Leopoldine Konstantin, Wally Brown 101’ Suspense


DVD- A qualidade padrão da Continental tanto em áudio, imagem e extras. Biografias básicas e irrisória galeria de imagens como bônus.

Cotação:

13 de novembro de 2008

Amarcord

Como bem se sabe, Amarcord significa “eu me lembro” no dialeto de Rimini, a cidadinha italiana onde Federico Fellini nasceu e foi criado. E é com forma semelhante à que nosso cérebro trabalha as lembranças que a história é contada, sem linearidade ou clareza maior. Na década de trinta, a partir da chegada da primavera, acompanhamos o cotidiano dos habitantes de uma pequena cidade sem que seu nome seja evidente. Provavelmente o diretor esteja representado no adolescente Titta, ou no velho que percorre os cenários de bicicleta falando diretamente para a câmera, ou ainda em nenhum dos dois. É genial que mesmo com dezenas de personagens cada qual tenha suas próprias tramas, profundidade, função sem que algum perca o interesse ou o ritmo de todo o filme. Ás vezes é só uma palavra aparentemente à toa que explica características do habitante. Com o parceiro Nino Rota orquestrando uma de suas melhores trilhas sonoras, Fellini confirma a máxima de que para ser universal basta falar de sua vila, porque nostálgicos, acabamos também lembrando das pessoas igualmente bizarras que nos cercaram enquanto crescemos. Acertou tanto que levou o Oscar de melhor produção estrangeira daquele ano. Sentimental na medida certa, não há julgamento em hipótese alguma, sendo que a certa altura, ao explicar a origem do “nome” da cabeleireira Gradisca (desfrute), deixa claro que nem tudo o que é contado realmente aconteceu, por mais deliciosa que possa ser a narrativa.

Amarcord

- Itália 1973 De Federico Fellini Com Pupella Maggio, Armando Brancia, Magali Noël, Ciccio Ingrassia, Nando Orfei, Luigi Rossi, Bruno Zanin, Josiane Tanzilli, Maria Antonietta Beluzzi, Giuseppe Ianigro, 123’ Comédia


DVD - Este disco italiano (Região 2) da Warner é a prova de que filmes internacionais devem ser distribuídos por empresas locais, do país original, não majors hollywoodianas. Logicamente uma empresa menor se empenharia mais ao invés de colocar no mercado só “mais um produto”. Para um DVD do Fellini vendido na Itália parece miserável a existência apenas do trailer como bônus e ainda por cima é o de seu lançamento nos EUA. Há dublagem em italiano e francês e legendas em um monte de línguas nunca vistos nos do Brasil. Assistindo em italiano, legendado em espanhol já dá pra entender 95% do que se passa. No nosso país a mesma Warner o distribuiu em VHS e a sempre estranha Continental em DVD numa edição que simplesmente sumiu das lojas faz tempo.

Cotação:

6 de novembro de 2008

Vaidosa

Bette Davis é a garota da alta sociedade com todos os homens aos seus pés, mas que precisa casar com ricaço por interesse. O marido (Claude Rains espetacular!) passará anos a fio com seus olhinhos de cachorro sem dono convivendo com os galanteadores à volta de sua esposa. Quase libertina em prol da bajulação masculina, deixará marido e filhinha por uma vida cheia de prazeres. Até que com muitos anos nas costas, pegará uma terrível doença que a deixará muito velha, espantando qualquer pretendente da sua frente. Davis se esforçará pra provar que uma mulher só é bela quando amada. O filme muito divertido como os dramalhões mais felizes feitos na era de ouro de Hollywood derrapa logo de cara quando aparece um grupo de conquistadores de fraque tecendo elogios à beleza de Fanny Tells e quem desce a escadaria é Bette Davis. Talentosíssima, mas longe de ser famosa por seus atributos físicos. Outro incomodo é que estávamos na primeira metade da década de 40, com as mulheres pegando no batente graças á segunda Guerra Mundial, assim sendo, a história é contada para elas com mais leveza e humor do que o tema merecia. Há exemplo de Scarlet Ohara, a personagem central é mostrada da tenra idade à maturidade absoluta, prepare-se para um show de interpretação de Bette Davis até sob pesadíssima maquiagem. Sem medo de ficar muito feia em cena, arrasa em frases espirituosas enquanto desfila por cenários rococós em figurinos espalhafatosos. Assim fica difícil não acabar gostando de Mr. Skeffington.

Vaidosa – Mr. Skeffington

- EUA 1944 De Vincent Sherman Com Bette Davis, Claude Rains, Walter Abel, Marjorie Riordan, John Alexander, Jerome Cowan, Dorothy Peterson, 145’ Drama


DVD - A Warner trata qualquer lançamento como um produto especial, mesmo produções menores. Pelo menos nos clássicos é a melhor entre as grandes distribuidoras. Vaidosa também tem a capa e menus reproduzindo o material promocional da época, trailer original e um documentário curto com estudiosos falando sobre Davis. Ruim é que eles jamais legendam faixas de comentários, no caso do diretor Vincent Sherman. O detalhe é que não há citação de tal extra nem na embalagem nem opção de selecioná-lo no menu a não ser que o troquemos pelo em inglês. A dublagem presente, que pode interessar a senhoras fãs de Davis, parece ser recente, já que a voz da atriz não é feita pela grande Ida Gomes que aprendemos a amar nas reprises da TV.

Cotação:

30 de outubro de 2008

A Cidade dos Amaldiçoados (1995)

Refilmagem inútil número 4.876. Isso porque, o original de 1960 continua ótimo, empolgante de suspense discreto e eficaz. Feito em 1995 pelo irregular John Carpenter, a pista mais óbvia de sua existência desnecessária são os figurinos de Kirstie Alley. O personagem não presente no original se veste com uma capa de chuva mesmo num visível calor. A médica cética não passa da vontade de tirar casquinha em cima do sucesso do seriado Arquivo X, grande sucesso do inicio dos anos 90, sendo que é absolutamente mal aproveitada. Daria pra cortá-la na edição que não faria diferença alguma. O que era sugerido, tornou-se uma sucessão de sustos fáceis, daqueles em que a música faz um “bam!” e não têm conexão alguma com a história. Tudo é tão mastigado e claro que até evidenciaram a origem das criancinhas, que aliás, muito mal selecionadas. Mesmo a aparência delas, todas loirinhas (referência à guerra fria) foi mudado para um platinado ridículo, ignorando que a outra produção era preto e branco. O argumento é idêntico, mas a forma com que ele foi conduzido é que são elas! Uma neblina (!!!) invade pequena cidade fazendo seus habitantes adormecerem. Alguns meses depois todas as mulheres (umas 9!) ficam grávidas, etc., etc. E não é que entre os pequenos agora há um bonzinho? Nem do final com gancho para uma seqüência (que jamais aconteceu) foi esquecido. Pra piorar a zica, é o último trabalho de Christopher Reeve antes do acidente que o deixaria tetraplégico.

A Cidade dos Amaldiçoados - Village of the Damned

- EUA 1995 De John Carpenter Com Christopher Reeve, Kirstie Alley, Linda Kozlowski, Michael Paré, Mark Hamill, Meredith Salenger, Pippa Pearthree, Cody Dorkin 99’ Horror/Ficção Científica


DVD - Bem antigo, quando a Universal tentou padronizar os ícones de navegação em seus discos. Pelo menos tem o trailer como extra, além de algum texto em inglês.

Cotação:

10 de outubro de 2008

Que Fiz Eu Para Merecer Isto?

Só mesmo Almodóvar para querer nos fazer rir de tanta desgraça alheia e ainda triunfar! Carmen Maura é a coitada suburbana, ironicamente chamada de Glória, que engorda de forma miserável a renda doméstica à custa de faxina. Para levar a vida ainda furta um troco ou outro da carteira do marido, um taxista machão com o incrível dom de imitar caligrafias alheias. Talvez porque sua realidade seja tão dura, com os únicos escapes em calmantes e fungadas em produtos de limpeza tóxicos, que torcemos por ela como se fosse aquela vizinha ferrada na vida. Do mesmo jeito nos decepcionamos aos muitos erros que vai cometendo pelo caminho. É inacreditável quando deixa Miguel, o filho mais novo, nas mãos do dentista pedófilo e vai correndo comprar um baby lise... Mas tudo dá errado pra ela! Sua única tentativa de sexo extraconjugal é justamente com um policial impotente, ao contrário da vizinha, a prostituta simpática de Verónica Fourqué, tão bem sucedida que ambiciona carreira internacional. É o melhor do diretor (que aparece dublando La Bien Pagá) em sua primeira fase, tanto técnica quando artística, já bem à vontade com as mazelas da cultura pop madrilena. No meio do caminho, como em inúmeros de seus roteiros, há um crime, que parece não dar em nada além de ocupar tempo de projeção, assim como os falsários interessados em escrever as memórias de Hitler. Seu brilhantismo ofusca qualquer deslize.

Que Fiz Eu Para Merecer Isto? – ¿Qué he hecho yo para merecer esto!!

- Espanha 1984 De Pedro Almodóvar Com Carmen Maura, Luis Hostalot, Ryo Hiruma, Ángel de Andrés López, Chus Lampreave, Gonzalo Suárez, Verónica Forqué, Juan Martínez, Kiti Manver, Sonia Anabela Holimann, Cecilia Roth 101’ Comédia


Cotação:

3 de outubro de 2008

Lágrimas Amargas

Dramalhão tão cafona quanto irresistível sobre atriz de Hollywood decadente. Pela época dá pra apostar que foi produzido (com poucos recursos) no embalo de Crepúsculo dos Deuses, mas claro, sem um terço da acidez de Billy Wilder. Grande dama de Hollywood, Bette Davis parece estar deslocada contracenando com atores muito abaixo de seu talento, fotografada com granulação excessiva e inúmeras cenas em locação. Pelo menos no primeiro item tentaram disfarçar com a maioria de suas falas interpretadas diretamente para a câmera. Por muito tempo acreditou-se erroneamente que estava em situação difícil quando aceitou o papel tal e qual Gloria Swanson no de Wilder. Teoria facilmente descartada, já que dois anos antes tinha concorrido ao Oscar com A Malvada, feito repetido nesta fita quando chegou à histórica 10ª indicação. Falando na academia, Davis aparece com seu próprio troféu, ganho por Jezebel, na seqüência em que dirige bêbada pelas ruas preferidas dos ricos e famosos de Hollywood. Este momento de desespero, após cortar relações com seus familiares sanguessugas, ser ameaçada de despejo e praticamente perder a guarda da filha e mesmo assim agarrar seu Oscar e ir encher a cara merece estar em qualquer antologia do que de mais kitsch o cinema mostrou. O próprio filme tem várias outras que rivalizam com isto, como a grande diva vendendo calcinhas, ou péssima durante teste para um papel pequeno. E sobrevive a tudo! Seu talento, que lhe coloca no patamar de uma das maiores atrizes de todos os tempos, está evidente na emocionante festa dos ricaços, onde se vê em seus grandes olhos o quanto está deslocada em meio àquele luxo que não lhe diz mais respeito.

Lágrimas Amargas - The Star

- EUA 1952 De Stuart Heisler Com Bette Davis, Sterling Hayden, Natalie Wood, Warner Anderson, Minor Watson, June Travis, Barbara Lawrence, Fay Baker 102’ Drama


DVD- Não dá pra entender a lógica para “The Star” ter ganhado o título “Lágrimas Amargas” no Brasil, mas enfim... Ironicamente é distribuído agora pela Warner, “casa” original de Davis, mas já de relações cortadas quando o filme foi produzido de forma independente. O material bônus é o trailer espalhafatoso original e um documentário de 6 minutos com historiadores desmentindo que a personagem refletia a situação real da atriz. Aparece uma biógrafa apontando semelhanças bem maiores com a vida de Joan Crawford naquele momento, não por acaso, a arquiinimiga de Bette Davis.

Cotação:

27 de setembro de 2008

Estrela Nua

Raro filme brasileiro que não busca o naturalismo. Os diretores José Antônio Garcia e Ícaro Martins, em última parceria, vinham da comédia Onda Nova e apontavam agora para um caminho mais maduro. O argumento brilhantemente original tem respingos de inúmeros outros filmes. São visíveis referências que vão de Buñuel, Billy Wilder a Otto Preminger, passando sobre tudo pela trilogia do apartamento de Polanski. Atriz famosa (Cristina Aché) sufocada pela superexposição de sua imagem morre (talvez suicídio?) antes de completar a dublagem de último trabalho Nelson Rodriguiniano, deixando aberta a vaga para uma novata. Essa outra é Carla Camurati, mãe solteira que ao entrar no universo cinematográfico acabará misturando sua personalidade à da morta. Se a idéia é ótima, sua execução beira o amadorismo técnico. É provável que seja proposital que uma história sobre bastidores de cinema/dublagem tenha a dublagem muito tosca, mas não deve haver outra desculpa à edição de qualquer jeito, fotografia acidental, cenários miseráveis... Numa cena, o restaurante tem paredes brancas, sem janela nem nada. Há ainda inúmeros personagens rasos, sem maiores funções à trama, ocupados por, quem sabe, amigos pessoais dos diretores. Como trilha sonora, além de faixas originais compostas por Arrigo Barnabé, ouve-se praticamente um disco inteiro dos Mutantes. O roteiro que jamais se assume comédia, drama, suspense ganhou inacreditável desfecho bobo, como se precisasse justificar seu surrealismo. Mesmo assim, estes tantos percalços não diminuem o valor artístico da obra, chegando até a dar certo sabor de happening, de imediatismo. Como diz o personagem da Vera Zimmerman: “Cinema nacional é foda!”.

Estrela Nua

- Brasil 1984 De José Antônio Garcia e Ícaro Martins Com Cristina Aché, Carla Camurati, Selma Egrei, Jardel Mello, Cida Moreira, Ricardo Petráglia, Vera Zimmerman 90’ Drama


DVD- Palmas para a Cinemagia, que corajosamente lançou Onda Nova e Estrela Nua com imagem em fullscreen, mas boa. Resta saber se O Olho Mágico do Amor, dos mesmos diretores também saiu por eles. Como material bônus galeria de fotos promocionais e biografias em texto. Na contracapa tem uma lista dos inúmeros prêmios que o filme recebeu. Embora Camurati seja a protagonista levou em Gramado o Kikito de coadjuvante!

Cotação:

16 de setembro de 2008

Laranja Mecânica

Não só se manteve bendito/maldito por todos estes anos, como uma excelente demonstração de como um livro deve ser adaptado ao cinema. Kubrick pegou o romance de Anthony Burgess e limou aqui e ali, aumentou acolá, conseguindo extrema fidelidade sem ser chato. Até as gírias, que obrigam o leitor a ficar o tempo todo recorrendo ao glossário das últimas páginas, estão em sua maioria presentes, embora com sutis explicações visuais. Alex, o pequeno delinqüente mais inteligente do que qualquer outro personagem, parece muito mais carismático e de duvidosa identificação com a platéia. Sorrateiramente as vítimas têm destaque quase nulo após suas barbáries. Não é um filme, aliás, sobre vítimas, mas sobre o perigoso jogo de dominação e dominado, que nos lembra que absolutamente todos nós fazemos parte do chamado sistema. A engrenagem que roda infinitamente criando lobinhos para depois os converter a doces cordeirinhos e vice versa. Hermético, de incontáveis paralelos, foi polêmico desde quando lançado, permanecendo proibido na Inglaterra pelo próprio cineasta após algumas ameaças de delinqüentes juvenis. E a vida nunca imitou tanto a arte quanto com Laranja Mecânica. O futuro próximo já virou passado e presente... Dando ritmo ainda mais épico, a chocante trilha sonora de Walter Carlos abraçada a Beethoven, Rossini e Terry Tucker.

Laranja Mecânica – A Clockwork Orange

- Inglaterra 1971 De Stanley Kubrick Com Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, Adrienne Corri, Aubrey Morris, Sheila Raynor 136’ Ficção Científica


DVD - A edição dupla e restaurada dá a sensação de estarmos vendo um filme inédito, tamanha quantidade de novas nuances notadas. É triste que os extras do primeiro disco (faixa de comentários de um historiador, de Malcolm McDowell e o trailer original) estejam sem legendas em português. Tal desleixo desmerece o titulo de edição especial, já que custa mais do que a versão simples vendida antes. O segundo disco tem apenas três documentários bons. Um com o impacto cultural da obra, outro menos feliz sobre os bastidores e um terceiro de uma hora e meia sobre a carreira de McDowell.

Cotação:

12 de setembro de 2008

Crime na Mansão Sombria

Logo de cara se nota que, enquanto o cinema americano fazia coisas do tipo ...E O Vento Levou, a Inglaterra ainda estava na idade da pedra em questões técnicas. O filme é de 1940, mas parece ser de 1800 e pouco. Não que a reconstituição de época seja espetacular, mas por precariedade de produção e a qualidade da cópia se desmanchando também não ajuda muito. Em compensação, artisticamente, a partir do roteiro, dá de 10 a zero em muito do que saiu de Hollywood naquela época. Longe do conservador código Hayes, os ingleses ousavam mais na violência, embora fora de quadro. Tod Slaughter, ator já era consagrado nos palcos londrinos como vilão, assumia na tela a persona malvada com bom humor, quase que uma caricatura de si mesmo. Pode soar exagerado, mas combina com o teor farsesco da trama. Na história, impostar mata herdeiro para assumir seu lugar, sem saber que na verdade ganhará apenas dívidas. Sente-se quase que obrigado a assassinar pra conseguir alguns dobrões. Com muitos personagens e subtramas interessantes, várias delas não se encaixam ou acabam mal explicadas. Talvez o motivo seja que, a metragem original dele foi drasticamente encurtada ao ser exibido nos EUA, com leis de moral e conduta muito mais rígidas. Infelizmente, as versões que rodam o mundo com os trabalhos de Slaughter são as de lá.

Crime na Mansão Sombria – Crimes at the Dark House

- Inglaterra 1940 De George King Com Tod Slaughter, Sylvia Marriott, Hilary Eaves, Geoffrey Wardwell, Hay Petrie, Margaret Yarde, David Horne 68’ Horror


DVD - A London Films (WorksDVD) o distribuiu dentro de uma caixa chamada Ataúde Macabro e avulso contendo outro filme de Tod Slaughter. A imagem está novamente péssima, cheia de rabiscos, com o áudio inconstante, mas logicamente, é uma aquisição válida devido à oportunidade rara de se assistir o ator, primeiro mestre do horror inglês.

Cotação:

2 de setembro de 2008

Imitação da Vida

Melodrama barato de sabor irresistivelmente kitsh. Lá pela metade nos dá a sensação de que estamos vendo uma novela com a Regina Duarte às voltas com a filha problemática. É só sensação mesmo, porque é um produto Holywoodianíssimo! Lana Turner transpira um glamour que mesmo quando o filme foi feito já era raro entre as divas. Antes filmado com Claudette Colbert, esta segunda versão da história, uma das campeãs em lágrimas dentro das salas de cinema, gira em torno de duas mães, Turner uma aspirante a atriz que já passou da idade e Juanita Moore, negra, pobre, sofredora e religiosa. Cada qual possui uma filha, que confrontarão ao extremo as posturas exageradas das mães, tanto subserviência quanto ambição desenfreada. Só quase no fim a da atriz, quando estiver bem rica e poderosa, lhe encostará à parede cobrando afeto e sua presença, já a de Juanita, coitada, desde pequenininha deixará bem claro morrer de vergonha da mãe negra. É um dramalhão tão lascado, mas ao mesmo tempo tão exageradamente artificial que se torna engraçado. Susan Kohner, muito parecida com Natalie Wood, a primeira opção para o papel, não só nega a pobre mãe como foge para cair na vida, divertindo velhos senhores em um cabaré de quinta categoria. Turner de pobrezinha escrupulosa no inicio convence muito pouco, e de certa forma nos faz torcer para que o sucesso chegue logo à sua carreira. Já vá esperando choro que lhe será arrancado a fórceps no final!

Imitação da Vida – Imitation of Life

- EUA 1959 De Douglas Sirk Com Lana Turner, John Gavin, Juanita Moore, Karin Dicker, Sandra Dee, Susan Kohner 125’ Drama


Cotação:

27 de agosto de 2008

Problemas Femininos

Divine encara uma (anti) heroína do porte de Scarlett Ohara. Acompanha-se a trajetória de Dawn Davenport de adolescente rebelde no início dos 60 à vida adulta, marginal com tendências a modelo e atriz. Ao descobrir que seus pais não lhe compraram sapatinhos de cha-cha-cha na manhã de natal, dá uma surra neles e foge de casa. Na rua acaba violentada ao pegar carona com um sujeito mal encarado, a própria Divine em momento homem. Mãe solteira, a pobre moça faz de tudo para sobreviver: Garçonete, stripper, prostituta e assaltante na companhia das amigas Chicklette e Concetta. Ainda tendo que aturar uma filha problemática, sua trajetória “da ambição ao crime” desembocará num salão de beleza onde conhecerá seu futuro marido (o único hetero no local) e sua beleza reconhecida como top model. Para John Waters, Problemas Femininos significa, sobretudo, um avanço técnico, com argumento melhor desenvolvido, câmera com mais foco, figurinos e cenários próprios, etc. Artisticamente confirma a consistência de sua filmografia, mesmo nesta época de vacas magras, suas idéias absolutamente críticas à classe média, se sobressaem a qualquer falta de recursos financeiros. Esta grande festa entre amigos muitas vezes peca pelo excesso de diálogos interpretados de forma amadora, mas não corre o risco de perder interesse já que as situações absurdas e jocosas se sucedem até o último segundo.

Problemas Femininos – Female Trouble

- EUA 1974 De John Waters Com Divine, Mink Stole, Mary Vivian Pearce, David Lochary, Cookie Mueller, Susan Walsh, George Hulse, Ed Peranio, Elisha Cook Jr. 92’ Comédia


DVD - Inédito no Brasil, lamentavelmente distribuído pela Continental em uma edição paupérrima. Tão podre que a capa mais parece Xerox colorido, com erros grosseiros no argumento da contracapa e nas legendas. Outra coisa de sabor duvidoso é estampar “Trash Collection”... O que é mais lixo, John Waters ou Christopher Nolan? Ter dinheiro suficiente para as massas aplaudirem porcarias conforme o departamento de marketing de um estúdio quer?

Cotação:

22 de agosto de 2008

Pacto Sinistro

Obra prima de Alfred Hitchcock, embora pouco lembrada como um dos melhores já produzidos em Hollywood. Era o início da feliz fase que entraria na década de 50, embora tecnicamente, aparente ser mais antigo. Por mais frescor que exigisse de seus roteiros (por acaso a estréia em adaptações dos livros de Patricia Highsmith), Hitchcock preservava muitos cacoetes já fora de moda. Retro projeções ao invés de externas, câmera acelerada em cenas de perseguição, etc. Óbvio que este pode ser um de seus diferenciais, fez tudo do jeito que sempre quis, com aprovação da platéia e de forma pouco vista, pelos estúdios. Em uma viagem de trem, jogador célebre de tênis cruza com Bruno (Robert Walken), um pretenso fã. Conversa vai, conversa vem, o desconhecido conta-lhe sua idéia de crime perfeito. Cada qual assassinaria um desafeto do outro, e como não há relação alguma entre ambos, jamais seriam descobertos. O esportista tem a ex-esposa libertina a lhe empacar e Bruno, seu pai magnata e intransigente. Claro que não há como levar a sério tais devaneios, embora o desconhecido creia no pacto selado, cumpre sua parte, e passa a exigir o mesmo do outro. O circo está armado e o que não faltam são momentos do mais puro talento artístico! Adaptado por Raymond Chandler (entre outros), polemicamente como muitas das parcerias do mestre, é um dos textos mais bem amarrados que já filmou. Conduz a platéia a uma espécie de funil macabro, enquanto ricamente dá espaço às mais variadas interpretações, inclusive sexuais. Walken, que faleceria logo depois graças ao alcoolismo, entrou para a diminuta galeria de atores que conseguiram ter seu talento destacado em um filme de Hitchcock.

Pacto Sinistro - Strangers On A Train

- EUA 1951 De Alfred Hitchcock Com Farley Granger, Robert Walken, Ruth Roman, Patricia Hitchcock, Laura Elliot, Marion Lorn, Norma Vaden 101’ Suspense


DVD - Outro clássico lançado com a dignidade que merece pela Warner, distribuidora número um para este tipo de filme. Embalado em luva de papelão, só a faixa de áudio com comentários e o trailer não estão com legendas em português. No segundo disco, a versão integral de Pacto Sinistro conforme foi exibido numa pré estréia, com alguns minutos a mais e sem a cena final no trem. São quatro documentários: Um com historiadores contando detalhes de bastidores, outro com Patricia (filha de Hitchcock e participante do elenco) com as filhas relembrando fatos familiares, um terceiro com a atriz que faz a vitima míope e o mais curioso com M. Night Shiamalan analisando o roteiro.

Cotação: