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16 de agosto de 2009

Arraste-me para o Inferno

Havia uma verdade e uma mentira no trailer desta nova incursão ao Horror do gênio por detrás da trilogia Evil Dead. A mentira é que o filme faz menos uso dos efeitos digitais do que aparentava, o que é uma sorte, por já se saber que computadores e o gênero não combinam em nada. A verdade é que acima de qualquer outra avaliação um retorno ao cinema calafrio clássico, com gatos, maldições, bruxas, demônios, casarões e aqueles exageros típicos que exigem a cumplicidade do espectador.

Entretenimento com sabor de passeio em trem fantasma de parque itinerante. Se for pra ficar apontando falhas e incoerências, seria melhor não ter entrado naquele carrinho enferrujado.

Não tão longe do terror como muitos acreditam, já que produziu boa parte das adaptações americanas de filmes japoneses que assolaram o mundo nos últimos tempos, o velho Raimi se faz presente muito mais nas incontáveis referências aos Evil Dead do que na cinematografia em si. Não há rebuscamentos de ângulos surpreendentes ou sacadas visuais de tirar o fôlego.

A propósito, quem viu as famigeradas desventuras de Ash inúmeras vezes deve aproveitar muito mais Arraste-me Para O Inferno. Está lá o humor pastelão, fruto da paixão confessa de Sam Raimi pelos Três Patetas, o olho do demônio que salta direto á goela da mocinha, o possuído vestindo algo semelhante aos casacos chineses para que os cabos possam o fazer flutuar sem serem vistos, xícaras e objetos inanimados que gargalham e a trilha sonora dialogando com o trabalho de Joseph LoDuca e Danny Elfman, os dois compositores com quem mais fez parceria.

Com argumento moralista e sem arroubos de originalidade, é curiosa a aposta em temores religiosos nestes tempos high-tec ao invés da carnificina desenfreada. Tão longe de ser obra-prima quanto de decepcionar, como nas velhas fitas de horror toma proveito dos temores do momento em terras yankees: malditos estrangeiros que podem nos levar ao inferno!


Arraste-me para o Inferno - Drag Me To Hell

- EUA 2009 De Sam Raimi Com Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver, Dileep Rao, David Paymer, Bojana Novakovic, Reggie Lee 99’Horror


*** Em Cartaz ***

Cotação:

17 de outubro de 2008

Horror Hotel

O grande Christopher Lee é o carrancudo professor Allan Driscoll que impressiona alunos contando a história de Elizabeth Selwyn,
queimada pela Santa Inquisição 300 anos antes. A acusada teria se revelado culpada ao amaldiçoar entre as chamas o vilarejo Whitewood. Impressionadíssima com o que ouve, uma das garotas segue as recomendações do mestre para conhecer o local e assim aprofundar os estudos sobre religiões pagãs. Mórbido e curto, esbanjando demonismo, fantasmas e assombrações em geral, é inusitado pela violência explícita (pouco comum para a época) e a espantosa semelhança entre a estrutura do roteiro com Psicose de Alfred Hitchcock. Surpreende saber que ambos são do mesmo ano, o que faz descartar inspiração, plágio, etc. O próprio cenário, o hotel, uma das mocinhas é parecida com Janeth Leigh, e uma outra coisa importante, mas que não se deve dita. Quem viu algum deles deve imaginar o que seja! Não é uma produção espetacular, embora vá bem além das expectativas com sombras dando um clima desolador em alguns rituais de magia negra de aspecto clássico. No geral, é muito mais comprometido por vários pontos mal explicados do que pela falta de recursos financeiros. A tal bruxa reencarnada (ou só materializada?) torna-se a Senhora Newless, dona do hotel. Obviamente o nome é o mesmo apenas invertido, num recurso mais comum aos filmes de vampiro do que de bruxas.


Horror Hotel – Horror Hotel (The City of the Dead)

- Inglaterra 1960 De John Llewellyn Moxey Com Christopher Lee, Dennis Lotis, Patricia Jessel, Tom Naylor, Betta St. John, Venetia Stevenson, Valentine Dyall 78’ Horror


DVD - Tão obscuro quanto o filme é este DVD, que não contém nem o logo da distribuidora ao ser inicializado. Na contracapa há a indicação de que é da Fantasy Music, o que não significa realmente muita coisa. A imagem tem boa qualidade perto dos outros B comercializados de qualquer jeito no Brasil.

Cotação:

12 de agosto de 2008

Encarnação do Demônio

O dia em que veríamos um novo José Mojica Marins nos cinemas parecia não chegar nunca! Mas chegou, com baixo orçamento como se esperava e uma inacreditável distribuição da Fox. Se tudo correr bem, ou seja, tiver bilheteria satisfatória, talvez a filmografia nacional escape da atual arapuca favela - elenco da Globo - drama. Há tela pra todo tipo de platéia. Embora a entrada custando quase duas notas de 10 Reais, sabe-se que esta platéia só pode vir da classe média. Diante do caos crônico, assistir uma nova desventura do coveiro mais famoso do mundo ganha status de momento histórico em nossas vidas! Mojica continua sendo único, criador de uma mitologia 100% nacional, diretor à base de boas idéias executadas a duras penas, sob o olhar de viés de um publico cada vez mais acostumado ao óbvio e ululante. Infelizmente o roteiro escrito por Dennison Ramalho, tendo como base argumento do cineasta, faz concessões a essa vertente de entretenimento fácil. Se no filme anterior (Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, 1967) havia uma trama bem certinha onde personagens bem delineados giravam em torno do protagonista que buscava a mulher superior, agora temos o Zé do Caixão exibindo sua crueldade a torto e a direito, e só! São tantas garotas em tão pouco tempo que a motivação principal da esposa que gerará seu filho vira pó. Encarnação do Demônio parece confirmar os roteiros mal estruturados como o defeito mor do cinema daqui, não se sabe se por pressa ou falta de recursos, parecem receber pouco tratamento. A edição (só na base do picadinho!) também não nos dá tempo suficiente para que haja empatia com qualquer das vítimas a ponto dos crimes nos importarem. Entre muitas boas sacadas, os fantasmas dos filmes anteriores reaparecem em preto e branco conforme foram fotografados no passado. O grande Jece Valadão faz um policial caolho fabuloso e de tabela nos faz indagar porque filmes brasileiros desprezam tantos atores típicos da mídia. Sua morte, com o trabalho incompleto, forçou a várias (ótimas) trucagens para não eliminar o ator. Mesmo inserindo um substituto, em momento algum o resultado lembra o absurdo de Bela Lugosi em Plan 9 from other Space. Ainda no elenco (de uma forma geral bem coeso e esforçado), há dois ícones das nossas telas que merecem atenção: Cristina Aché e Helena Ignez. José Celso Martinez Corrêa, diretor de teatro, tem presença over desnecessária, em um inferno de resultado idem. Lá, convence pouco que pessoas têm seus olhos e boca costurados (de verdade!) por um capeta que usa luvas cirúrgicas, assim como a presença da morte representada de maneira bem óbvia por garota muito magra de capuz negro. Como fim de trilogia, não é a chave de ouro que merecia, como cinema, embora com seus defeitos, ainda é bem superior à maioria das tranqueiras que os norte-americanos desovam em nossas telas todas as semanas.

Encarnação do Demônio - Encarnação do Demônio

- Brasil 2008 De José Mojica Marins Com José Mojica Marins, Giulio Lopes, Milhem Cortaz, José Celso Martinez Corrêa, Jece Valadão, Helena Ignez, Rui Resende, Eduardo Chagas, Cristina Aché, Thais Simi, Cléo De Páris 98’ Horror


*** Em cartaz ***

Cotação:

21 de abril de 2008

Cowboy Bebop: O Filme

Emaranhado de referências a Hollywood clássica, parece ter sido criado por uma mente perturbada de algum seguidor do Timothy Larry! Se não fosse lá pela meia hora final toda a história ficar absurdamente bizarra e confusa, seria uma obra prima não só da animação, mas do cinema como um todo. A apresentação dos personagens é de uma eficácia desconcertante. Há um assalto medíocre a uma destas bibocas que ficam abertas até tarde e vendem de macarrão instantâneo a pilhas alcalinas. Os ângulos são os mesmos de câmeras de segurança só que com resolução boa, até Spike adentrar no local mais blasé do que se espera de quem vá resolver o crime. Depois de alguma porrada, e com uma velha senhora de refém sob a mira de um revolver, ele deixa claro: “Se quiser atirar fique há vontade. A vida dela não me diz respeito! Sou um caçador de recompensas, não um herói!”. Pronto, o mundo também ficará aos cuidados deste anti-herói fumante que não se importa com o mundo. E precisaremos de ajuda graças às ameaças de um terrorista chamado Vincent (inspirado adivinha em quem?) envolvido com metafísica e nanotecnologia contando com o amparo de experientes hackers! Embalado por uma espetacular trilha sonora assinada por Yoko Kano, tão eclética e autêntica que se chega a duvidar que uma mesma pessoa a tenha criado!

Cowboy Bebop: O Filme – Kaubôi bibappu:Tengoku no tobira (Cowboy Bebop: The Movie)

- Japão, 2001 De Shinichirô Watanabe 116’ Ficção Científica/Animação


DVD - Depois do parto que foi seu lançamento nos cinemas, em momento Tim Maia (“Será que vem?”), a Columbia resolveu distribuí-lo diretamente em DVD. A versão dublada em português teria sido feita também de forma conturbada, mas as vozes antes ouvidas na exibição do canal Locomotion estão lá. Há alguns extras bem caretas e curtos, que não fazem jus ao espetáculo cinematográfico do filme.

Cotação:

3 de fevereiro de 2008

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver

Você! Se não ler este post até o fim, que seus olho se transformem em duas bola de fogo! Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver trata-se de uma das melhores representações da cultura antropofágica latina americana. Fitas vagabundas 30’s de matiné, quadrinhos de terror, macumba, catolicismo exacerbado, parques de diversão mambembes, gatinhas em baby doll, e até o hábito de fumar cachimbo enquanto escuta tico-tico no fubá, tudo faz com que esta seja uma das películas mais espetaculares já feitas. Parece haver dois Zé do Caixão, o gênio autodidata do cinema, e aquele gordinho de cartola que pragueja com concordância gramatical sofrível em qualquer programa de auditório durante nossa vida inteira... Felizmente o primeiro não existe, é um personagem de sucesso, não um cineasta, morto aos olhos populares pelo segundo que é triste fruto do sempre miserável cinema feito no Brasil. A confusão entre artista e personagem rendeu a José Mojica Marins (este sim um gênio!) certo descrédito artístico, além do estigma de fazer filmes de puro entretenimento em plena ditadura brava. 40 anos depois, quem diria, muitos dos filmes cabeça do chamado Cinema Novo não representam (quase) mais nada além de pedantismo subdesenvolvido tentando ser europeu. E o Zé? Consagrado internacionalmente como um dos grandes mestres do Horror. A revanche de Coffin Joe. Claro que não seria necessário gringo nenhum dizer o que presta ou não, mas tal momento teve sua utilidade. Após Tim Burton ter feito Ed Wood na década de 90, época em que Mojica despontou lá fora, imediatamente ganhou a alcunha de Ed Wood Brasileiro, o que a principio só desmerece sua singular obra. O pior cineasta de todos os tempos não sabia o que fazia, não tinha o mínimo talento. As semelhanças ficam apenas na capacidade em superar limites financeiros. Há muitos outros que realmente merecem tal título...

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver - This Night I will Possess Your Corpse
- Brasil 1967 De José Mojica Marins Com José Mojica Marins, Roque Rodrigues, Nádia Tell, William Morgan, Tina Wholers, Mina Monte 107’ Terror


DVD - Estou a quase trinta anos morando no Brasil e jamais tinha visto um filme de Mojica!!! Em sua versão digital, tais trabalhos (de fazer qualquer um que ame o país do Pelé gritar ufanismos) continuam (assim como qualquer película brasileira) com distribuição capenga... Originalmente os achei a preços exorbitantes, depois nunca mais os vi, e agora reaparecem alguns volumes (II e III) num destes grandes magazines a preço de mandioca. Uma edição super de luxo, começando pela arte da embalagem, aos menus, com animação em stop motion e tudo!!! Há uma batelada de extras sensacionais em cada disco: dezenas de entrevistas, faixas de áudio (inclusive uma sensacional com Mojica), posters, trailers escandalosos, roteiros originais (escaneados), easter eggs, making offs, e o melhor, o curta “O Universo de José Mojica Marins”, feito por Ivan Cardoso em 78. Se achar, nem precisará de praga nem nada, leve pra casa!

Cotação: