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6 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

Nina é tudo o que se espera das mitológicas bailarinas. Casta, tem um quarto cheio de bichinhos de pelúcia, tratada a pão de ló pela mamãe.

Quando é escolhida para substituir a primeira bailarina da companhia de dança numa montagem de O Lago dos Cisnes seu mundo soft desmorona. Na luta para encontrar o cisne negro em sua arte, afunda-se em seus terrores internos.

E o que seria do cinema de Hollywood sem o maniqueísmo? Sem a fé na unilateralidade do ser humano?

O filme é prazeroso principalmente em sua fechada construção em torno da protagonista. Pouquíssimos personagens, cenários, pirotecnias, sobra bastante espaço para se apreciar as interpretações.

Não é de se estranhar Natalie Portman já ter conquistado alguns dos principais prêmios de sua categoria e ser favorita ao Oscar de 2011. Sobra muito pouco se olharmos com distanciamento da emoção que sua personagem transmite.

Como se as asas negras de Darren Aronofsky tivessem sido podadas de um vôo maior em nome de pretensiosa qualidade artística. Aquele pavoroso e artificial verniz de “film d’art” que o cinema americano imprime em obras com possibilidades de competir ao grande prêmio da Academia.

Assim, todas as chances da história se tornar livre em sua fantasia vão por terra sempre. Tanto que o que seria surpreendente torna-se risível, absolutamente sem sentido no meio daquele mundo cão realista de câmera trêmula.

Um pouco mais de deboche, sem medo do peso kitsch, faria bem. Soaria menos pegadinha para platéias simplórias acreditarem estar diante de uma obra-prima transcorrida no elitista universo do balé.

Cisne Negro – Black Swan

- EUA 2010 De Darren Aronofsky Com Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey, Winona Ryder 108’ Drama/ Terror psicológico


*** Em Cartaz ***

Cotação:

22 de outubro de 2009

A Menina e o Porquinho (1973)

Ousadia da Hanna-Barbera, tradicional estúdio de curtas, ciscar no terreno Disney. Por décadas a casa do Mickey era sinônimo de longas em animação.

Tecnicamente este desenho tem todos os defeitos dos produtos H-B que bem conhecemos da TV, econômicos, muitas vezes os personagens só movem a boca. Isso se torna mero detalhe diante da história encantadora, com imortal lição de coleguismo.

Talvez o nome em português possa frustrar, já que a menina em questão participa só no começo, quando não permite que o porquinho Wilbur seja sacrificado. Ele não foi vendido como os demais por ter nascido menor que os demais.

Adulto e gordinho, o amigo rosa vai morar em outra fazenda, e lá, para não virar toicinho contará com a auxílio de Charlotte. A aranha solidária usará sua teia para falar aos humanos que belo suíno eles têm.

Essa atitude altruísta envolverá todos os outros animais direta ou indiretamente numa teia da bondade. Portanto, com esse trocadilho com a rede (web) da ajuda, o título original, idêntico ao do livro que o inspirou, dá mais sentido à trama.

Com algumas canções menos enfadonhas do que minha memória guardava, ainda dá pra assisti-lo tranquilamente. Graças ao ritmo lento, deve agradar apenas as crianças bem novinhas, embora se eu tivesse um filho, pela valiosa lição, forçaria um pouco a barra.

Nunca tinha assistido inteiro, mesmo tendo sido exibido incontáveis vezes nas tardes da Globo dos anos 80. Estudava de manhã, então, ainda mais com aquelas músicas, acabava dormindo na metade, esparramado no sofá.

Em certo ponto, A Menina e o Porquinho sempre causava choradeira entre a galerinha lá de casa. Depois de adulto não me pareceu tão sentimentalóide.

Curiosamente ele usa atores famosos, prática que só se tornaria comum dos estúdios Disney nos trabalhos recentes. As vozes de Debbie Reynolds (como a aranha Charlotte) e Agnes Moorehead (a gansa atrapalhada) são identificáveis, e um motivo a mais para curtir.

As duas eram amicíssimas a ponto de alimentar as línguas ferinas da época sobre um suposto affaire entre as duas. Moorehead, atriz shakesperiana conhecida como a Endora do seriado A Feiticeira, faleceria no ano seguinte, sendo este seu último trabalho para o cinema.


A Menina e o Porquinho - Charlotte's Web

- EUA 1973 De Charles A. Nichols Iwao Takamoto Com as vozes de Debbie Reynolds, Agnes Moorehead, Paul Lynde, Danny Bonaduce, William B. White, Henry Gibson 94’ Animação/Drama


DVD- Quando saiu o filme em live action protagonizado pela Dakota Fanning voltei a vê-lo nas boas lojas do ramo. Atenção porque há outro “A Menina e o Porquinho” bem baratinho, produzido por aqueles picaretas que vão na cola de sucessos e lançam títulos semelhantes. O clássico é da Paramount. Widescreen anamórfico, ótimo para quem não tem uma TV no formato já que as faixas negras costumam afugentar a petizada. Possui a dublagem em português que nos acostumamos na TV, além de dar a oportunidade de pela primeira vez ouvir a original, com as célebres atrizes com legendas em português. O único extra é o trailer original.

Cotação:

21 de outubro de 2009

A Sombra do Vampiro

O principal mérito é ser curto. Gigante desperdício de idéia genial, não chega a aborrecer, embora fique muito longe do que poderia ter sido.

O argumento versa sobre os bastidores do clássico expressionista Nosferatu, e a possibilidade de Murnau ter contratado um vampiro de verdade para encarnar o Conde Orlock. Daí que o vampiro quebra o acordo e sai atacando membros de equipe.

Talvez pela inexperiência do diretor, isso tudo não dá em nada, não se definindo como comédia, drama, suspense ou uma mescla de tudo isso. É insosso, embora a princípio fascine a recriação do ambiente cinematográfico nos primórdios.

Mas logo depois não dá para levar a sério nem isso, tendo como comparação as péssimas recriações do filme alemão de 1920. Completamente forçadas para justificarem ao argumento.

Há pelo menos uma sequência, quando o produtor interpretado por Udo Kier descobre a verdade sobre o vampiro, que se percebe a total falta de direção de atores. O texto diz uma coisa, eles interpretam outra.

Como tudo não anda nem desanda, Willem Dafoe como o tal príncipe da noite acaba destoando ridiculamente de todo o resto. As outras interpretações são caricatas, quase ofensivas na tentativa de reproduzir a forma como os atores atuavam na Alemanha dos anos 20.


A Sombra do Vampiro - Shadow of the Vampire

- EUA 2000 De E. Elias Merhige Com John Malkovich, Willem Dafoe, Udo Kier, Cary Elwes, Catherine McCormack, Milos Hlavac 92’ Drama


DVD- E pra azar total, filme independente (produzido com alarde por Nicolas Cage) saiu aqui por distribuidora pequena. E a Europa lança qualquer filme com o básico que tem á mão, poucos e importando do que se trate.

Tacou uns menus animados chatíssimos que não podem ser pulados. Pra piorar, o longa está em tela cheia (4x3), com qualidade de imagem sofrível, mas pelo menos preservaram o áudio 5.1.

De bônus incluiu trailer, making of curto e entrevistas idem. E absolutamente nada sobre o filme Nosferatu, o diretor Murnau, ou o verdadeiro Max Schreck, o que poderia ter valido a pena no DVD.


Cotação:

13 de setembro de 2009

Eu Quero Viver

Barbara Graham foi a garota saidinha que se meteu com os caras errados. De alegria dos randevouz saltou ás páginas policiais em manchetes escandalosas no início da década de 50 acusada de assassinar uma velhinha às pauladas.

Presa, jurou inocência até o fim, quando foi condenada à câmara de gás. Mesmo com todas as matérias sensacionalistas que assolaram os EUA, inclusive nos primórdios da TV, sua história comoveu todo o país transformando-a num símbolo anti a pena capital.

O drama real transformado em roteiro de Hollywood virou veículo perfeito para Susan Hayworth brilhar. Nem a um passo de morrer ela deixa de ser arrogante e amoral, embora consiga sensibilidade nos momentos onde clama pela vida e reencontra seu filho bebê na cadeia.

Não teve pra ninguém na cerimônia do Oscar daquele ano. Hayward (após outras quatro indicações) desbancou a eterna queridinha Elizabeth Taylor que concorria como Meg de Gata Em Teto de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof).

Robert Wise, especialista em filmes fantásticos como A Maldição do Sangue de Pantera (The Curse of Cat People, 1944), dirigiu esquivando-se do dramalhão rasgado que o material poderia proporcionar. Principalmente pela trilha sonora espetacular de jazz e o roteiro que apresenta apenas o que já havia sido propagado na mídia.

O possível assassinato surge em meio à chuva de acusações no tribunal. Somos surpreendidos assim como o réu.

Apresentado e encerrado por frases do jornalista Edward S. 'Ed' Montgomery (ganhador do Politzer), que acompanhou o caso (e segundo o roteiro se envolveu emocionalmente), o roteiro se assemelha a uma vislumbrada em recortes de notícias. É sucinto nas fases, e não perde muito tempo em longas cenas de tribunal.

Quase um King Kong. Sabe-se o que foi reservado à heroína no final, e mesmo assim são minutos de extrema tensão e suspense claustrofóbico.


Eu Quero Viver - I Want to Live!

- EUA 1958 De Robert Wise Com Susan Hayward, Simon Oakland, Virginia Vincent, Theodore Bikel, Wesley Lau, Philip Coolidge, Lou Krugman, Alice Backes 120’ Drama


DVD- Uma tristeza estes DVDs de obras da RKO, MGM ou United Artists distribuídos no Brasil. Temos o filme apenas e já vamos com sorte, que pelo menos foi comercializado, em meio a centenas ainda inéditos. Não entendi até agora que diabos é Classicline, porque alguns discos com esta marca não parecem pertencer à grande estúdio algum, mas nesse caso a capinha é cheia do leão da Metro. E são caros pra chuchu!

Cotação:

6 de maio de 2009

Feliz Natal

Um filme brasileiro recente que não se passa em morro carioca, sertão ou nos brinde com as agruras amorosas da classe média já é louvável por si só! E confesso que comecei a assistir com as quatro patas no chão. A fotografia granulada e câmera trêmula me cheiravam a pretensão artística de atorzinho da Globo tentando ser gente no cinema. Preconceito! Ambos acordam completamente com o ambiente doméstico ao qual a história transcorre. Há que se lembrar que junto à tecnologia, a arte (essa coisa tão humana...) de interpretar sofre transformações, e a estréia de Selton Mello como diretor aponta caminhos novos tão drásticos a atores quanto a chegada do áudio ou o zoom. Interpretações tão cristalinas só possíveis no teatro, mas sem os exageros do palco. Ou melhor, a câmera digital nos transporta dolorosamente para dentro da ação quase como bisbilhoteiros, vasculhando cada emoção por mais sutil que seja em “tempo real”. E o cineasta se cercou de um elenco tarimbado, embora não óbvio, para que a experiência seja a mais correta possível. Darlene Glória, por exemplo, está estupenda como a mãe alcoólatra que já desistiu a muito tempo de segurar as pontas da família em frangalhos. Mello acertou na primeira tacada não só pelo que se assiste, mas pelo filme continuar a existir em nossa mente quando ele acaba. Tijolo por tijolo os personagens vão se revelando, tão ricos e tão miseráveis em sua existência que mesmo sem sobrar o que ser amarrado no final é nítido que pertencem a este mundo.

Feliz Natal – Feliz Natal

- Brasil 2008 De Selton Mello Com Darlene Glória, Paulo Guarnieri, Lúcio Mauro, Leonardo Medeiros, Graziela Moretto, Fabricio Reis, 100’ Drama


Cotação:

28 de novembro de 2008

Piaf – Um Hino Ao Amor

140 minutos? Glup! O mito retratado é forte o bastante para nos dar coragem. Com mais acertos do que defeitos, é bem feitinho, filmado como se fosse uma produção norte-americana, claramente pensando nas platéias mundiais acostumadas ao arroz e feijão made in Hollywood. O roteiro abrange a vida toda da cantora, e como não há metragem suficiente para isso, a edição caprichou nos fragmentos. Graças a ela, a maioria das cenas emocionantes acaba perdendo o impacto, além de gerar certa confusão sobre a saraivada de personagens novos que aparecem a todo instante. Como se fica indo e vindo no tempo, isso ainda acaba sendo um Deus nos acuda para quem não é especialista em Piaf. A propósito, a história dá mais atenção à mulher comum que há cantora, o que não deve ser ruim aos franceses que devem conhecer sua carreira de cor e salteado, mas pra gente... Não há uma só cena sobre sua carreira cinematográfica, ou o impacto em sua vida que deve ter causado a gravação do primeiro disco. Marion Cotillard como protagonista foi laureada com o Oscar o que parece ser justo ao vermos Piaf envelhecendo de forma tão precoce, na tenra idade está muito caricata, quase a ponto de irritar. Uma coisa com que foi injustamente atacado é não se referir às famosas tendências lésbicas do “pequeno pardal”, o que é uma tremenda bobagem já que está sim tudo na tela. Fora a conhecida amizade com Marlene Dietrich (que no filme se resume a um aperto de mão) pra bom entendedor sabe como é, né?

Piaf – Um Hino Ao Amor – La Môme

- França 2007 De Olivier Dahan Com Marion Cotillard, Sylvie Testud, Pascal Greggory, Emmanuelle Seigner, Jean-Paul Rouve, Gérard Depardieu, Clotilde Courau, Jean-Pierre Martins, Manon Chevallier 140’ Drama


DVD- Gostaria que a Europa me explicasse porque um DVD com capa luxuosa em papel especial, usando luva de papelão e estojo que se abre tipo livro, não traz praticamente extra algum embora seja duplo! É pra poder cobrar mais caro? No primeiro disco vem só o filme, e no segundo um making of de meia hora e especial de menos de 10 minutos sobre a caracterização da personagem, versão MP4 e só! Nem trailer, nem mais nada!

Cotação:

27 de novembro de 2008

Lanternas Vermelhas

Acedam as lanternas na segunda casa! O filme de arte por excelência, que comprova que pra ser inteligente não precisa ser chato ou pedante. Com fotografia de deixar qualquer queixo de bom gosto caído, é engraçado e divertido como os mais vulgares dos melodramas femininos. Aliás, se vivêssemos em outras épocas, com certeza alguma Ivani Ribeiro da vida já teria chupinhado seu argumento para uma telenovela. Gong Li é uma jovem universitária que após o pai morrer casa-se com um rico senhor. Como estamos na China de 1920, o homem tem outras três esposas, todas vivendo dentro do mesmo palácio em casas diferentes. Quando ele decide com quem quer passar a noite, ordena que acedam as lanternas na porta da sortuda. Como símbolo de ascensão social, não há o que elas não façam pela honraria. E a mais boazinha ali deve ter vendido a alma ao diabo para preservar a “cara de Buda e rabo de escorpião”. Naquele antro de perfídias sem fim, compartilhamos a angustia da protagonista ao pisar em ovos sem saber em quem confiar. A terceira esposa, cantora lírica, talvez seja a de visão menos estreita por enxergar que na vida tudo é teatro, dependendo de como é a sua atuação você viverá melhor ou pior. Dividido em quatro atos, acompanhando as estações do ano, a fotografia (espetacular) assume as tonalidades condizentes com as emoções desenroladas.

Lanternas Vermelhas – Da hong deng long gao gao gua (Raise the Red Lantern)

- China 1991 De Zhang Yimou Com Li Gong, Caifei He, Cuifen Cao, Jingwu Ma, Qi Zhao, Lin Kong, Jin Shuyuan, Weimin Ding, Cao Zhengyin, Zhihgang Cui 125’ Drama


DVD- Para quem não o assistiu no cinema quando foi lançado, é a oportunidade de finalmente poder contemplar a fotografia na íntegra, com seu escopo original adaptado à medida 4x3. Mas a copiagem foi feita pela Spectra Nova a partir de negativos 35 mm sem passar por nenhuma restauração! A imagem está desbotada e cheia de rabiscos parecendo que estamos diante de Planet Terror. Até as “queimaduras de cigarro” no canto da tela a cada 11 minutos para o projecionista saber a hora de trocar de rolo aparecem. Os extras são apenas textos curtos.

Cotação:

19 de novembro de 2008

De Volta ao Vale das Bonecas

Fazia tempo que não via algo tão inusitado. Entre a genialidade e a total burrice esquizofrênica, Russ Meyer colocou num liquidificador tudo o que conhecia de cultura popular (incluindo aí muita sacanagem) e apertou a tecla pulsar. Conhecido como um dos principais nomes do cinema sexplotation, que equivale às nossas pornochanchadas, foi encarado pela Fox como a luz no fim do túnel á crise financeira que se encontrava. Nos loucos anos 60, o mundo vivia a mais radical revolução cultural e sexual, o que deixava sem sentido toda pompa das grandes produções hollywoodianas. Graças a isso, o maldito Meyer finalmente trabalharia dentro da capital mundial do cinema a preço de banana, num dos raríssimos casos onde um então diretor independente teve absoluta liberdade para criar sem interferência dos executivos. E ele não se fez de rogado. Como a autora do livro O Vale das Bonecas não liberou os direitos para a seqüência de O Vale das Bonecas de 67, optaram por uma espécie de sátira ao submundo do show business interpretada de forma realista na medida do possível. Trio de roqueiras parte para a Califórnia em busca da fama, sexo descompromissado e drogas! Pelo menos duas playmates no elenco garantem a farta exibição de peitos, embora aqui mais contida do que o cineasta tinha fama. Mas resumir assim parece pouco! Tem um ritmo de edição rapidíssimo, coisa que a MTV só faria décadas depois, além de alguns videoclipes da banda fictícia The Carrie Nations entrecortando a história. Sem perder o fio da meada, os vários personagens se envolvem em situações melodramáticas exageradas e hilariamente baratas de fazer o roteirista da pior novela mexicana já feita corar de vergonha. Como o céu é o limite ao deboche psicodélico, nos surpreende até os momentos finais, violento e criativo que duvidosamente será esquecido por quem o assistir.

De Volta ao Vale das Bonecas – Beyond the Valley of the Dolls

- EUA 1970 De Russ Meyer Com Dolly Read, Cynthia Myers, Marcia McBroom, John Lazar, Michael Blodgett, Edy Williams, Erica Gavin, Phyllis Davis, Princess Livingston, Pam Grier 109’ Comédia/Drama/Musical/Suspense


DVD - Tão inacreditável quanto o diretor ser praticamente desconhecido no Brasil é esta super edição dupla, repleta de extras da Fox! Há uns 5 documentários longos com entrevistas de historiadores, críticos e elenco, extensas galerias, spots, trailers, testes... Só os trailers, spots e as duas faixas de comentários no primeiro disco (“pra variar”) estão sem legendas em português.

Cotação:

8 de novembro de 2008

O Imperador e o Rouxinol

A graça principal no stop motion (técnica clássica que consiste em animar quadro a quadro objetos), é que absolutamente tudo que vemos na tela é artesanal. Quem tem por base obras recentes como O Estranho Mundo de Jack ou A Noiva Cadáver, dirigidos ou produzidos por Tim Burton num nível técnico que pode fazer algum desavisado acreditar estar diante de computação gráfica, irá se decepcionar com O Imperador e o Rouxinol. Essa produção tcheca, com quase 60 anos, é experimental, sendo que os personagens não possuem expressões faciais com movimento. De forma inteligente, tem em sua abertura atores de verdade para depois chegar à animação. Um garotinho muito rico e aborrecido por não poder brincar à vontade na rua, ao pegar no sono febril sonha com o imperador chinês do conto de Hans Christian Andersen. Dessa forma, justifica-se que objetos, cenários e personagens remetam a elementos vistos antes no quarto do menino. E o mérito de Jirí Trnka é conseguir nos entreter por mais de uma hora de um jeito tão poético e singular acima de qualquer limitação técnica. Consegue nos remeter diretamente à infância, quando brincávamos entre toalhinhas de crochê com action figuras e caixinhas de papelão fingindo serem prédios gigantes. Mágico e sensível como só a arte bruta, depois destes anos ganhou um interessante paralelo entre o pequeno imperador que troca o rouxinol de carne e osso pelo mecânico de canto repetitivo com o trabalho de Trnka e o que tem sido feito e apresentado para as crianças de agora.

O Imperador e o Rouxinol – Cisaruv slavík (The Emperor's Nightingale)

- Tchecoslováquia 1949 De Jirí Trnka e Milos Makovec Com Jaromir Sobotoa, Helena Patockova, Detsky pevecky sbor Jana Kuhna, Boris Karloff (narração) 72’ Animação/Drama


DVD - Distribuído pela Continental, esta pérola da animação mundial de difícil apelo comercial, preserva a narração americana com Boris Karloff e não incluiu versão dublada em português, o que afugenta possíveis espectadores infantis. A imagem está bem ruim, escura, mas a boa notícia é que possui a metragem original de 72 minutos, e não a americana de 55. Como bônus, 4 curtas muito bons da equipe de Trnka e longo material em texto sobre a animação stop motion.

Cotação:

6 de novembro de 2008

Vaidosa

Bette Davis é a garota da alta sociedade com todos os homens aos seus pés, mas que precisa casar com ricaço por interesse. O marido (Claude Rains espetacular!) passará anos a fio com seus olhinhos de cachorro sem dono convivendo com os galanteadores à volta de sua esposa. Quase libertina em prol da bajulação masculina, deixará marido e filhinha por uma vida cheia de prazeres. Até que com muitos anos nas costas, pegará uma terrível doença que a deixará muito velha, espantando qualquer pretendente da sua frente. Davis se esforçará pra provar que uma mulher só é bela quando amada. O filme muito divertido como os dramalhões mais felizes feitos na era de ouro de Hollywood derrapa logo de cara quando aparece um grupo de conquistadores de fraque tecendo elogios à beleza de Fanny Tells e quem desce a escadaria é Bette Davis. Talentosíssima, mas longe de ser famosa por seus atributos físicos. Outro incomodo é que estávamos na primeira metade da década de 40, com as mulheres pegando no batente graças á segunda Guerra Mundial, assim sendo, a história é contada para elas com mais leveza e humor do que o tema merecia. Há exemplo de Scarlet Ohara, a personagem central é mostrada da tenra idade à maturidade absoluta, prepare-se para um show de interpretação de Bette Davis até sob pesadíssima maquiagem. Sem medo de ficar muito feia em cena, arrasa em frases espirituosas enquanto desfila por cenários rococós em figurinos espalhafatosos. Assim fica difícil não acabar gostando de Mr. Skeffington.

Vaidosa – Mr. Skeffington

- EUA 1944 De Vincent Sherman Com Bette Davis, Claude Rains, Walter Abel, Marjorie Riordan, John Alexander, Jerome Cowan, Dorothy Peterson, 145’ Drama


DVD - A Warner trata qualquer lançamento como um produto especial, mesmo produções menores. Pelo menos nos clássicos é a melhor entre as grandes distribuidoras. Vaidosa também tem a capa e menus reproduzindo o material promocional da época, trailer original e um documentário curto com estudiosos falando sobre Davis. Ruim é que eles jamais legendam faixas de comentários, no caso do diretor Vincent Sherman. O detalhe é que não há citação de tal extra nem na embalagem nem opção de selecioná-lo no menu a não ser que o troquemos pelo em inglês. A dublagem presente, que pode interessar a senhoras fãs de Davis, parece ser recente, já que a voz da atriz não é feita pela grande Ida Gomes que aprendemos a amar nas reprises da TV.

Cotação:

31 de outubro de 2008

Romance da Empregada

Há algo sempre estranho nos filmes produzidos pela família Barreto. Talvez porque encarem a coisa como profissão, o que não é pecado algum se não buscassem invariavelmente os caminhos mais óbvios do que é popular no Brasil em busca de bilheteria. No caso, as novelas da TV Globo. Romance da Empregada não só deixa isso bem claro, com um monte (um monte mesmo!) de atores fingindo (fingindo mesmo!) que são pobres, como é contado sob a ótica da classe média sobre a classe trabalhadora. Todos fazem o que for pra se dar bem, são burros, porcos, mal educados de boca imunda. Isso é subestimar demais a platéia e as figuras retratadas. Se a intenção era dar humor ou simpatia, dá bode, constrange! O roteiro do conhecido diretor teatral Naum Alves de Souza pode até ter nuances interessantes ao mostrar o dia a dia de uma doméstica, mas os diálogos são mais pobres que os personagens. Ouvem-se frases que não têm sentido algum além de estarem ali pra ter algum texto sendo dito na tela. Se a produção é bem caprichada em locações, cenários, figurinos e elenco famoso, não parece ter havido a mesma exigência para os atores, dezenas de rostos cariocas conhecidos em pontas, se empenhassem na interpretação. Todo o filme é gritado, empostado como se estivessem num palco, em contrate fatal com direção de arte realista. Volta e meia há palavrões ditos de boca cheia, como se fossem a coisa mais inédita do mundo. Tanta falta de sutileza nos faz admirar a sorte de Bruno (e Fábio) em ter mamãe e papai bancando tanta arte. Mas nem tudo é ruim, Betty Faria à deriva como protagonista segura as pontas na medida do possível, assim como o sensacional Brandão Filho como o velhinho safado. Ele parece ser o único a compreender o que acontecia ali.

Romance da Empregada

- Brasil 1987 De Bruno Barreto Com Betty Faria, Brandão Filho, Daniel Filho, Tamara Taxman, Stela Freitas, Cláudia Jimenez, Eri Johnson, Vick Militello, Marcos Palmeira, Zezé Polessa, Cristina Pereira, Telma Reston 90’ Drama/Comédia


DVD - Os escassos filmes brasileiros em DVD costumam se dar melhor quando lançados por distribuidoras locais. A Paramount distribui vários com preços muito elevados, nem sempre com qualidade de imagem. Este está com a imagem mezzo widescreen, mezzo fullscreen e o áudio muitas vezes ruim. A trilha sonora também fica sempre num tom acima do volume dos diálogos. Como bônus, muito texto, o que é bom em se tratando de produto nacional, num país conhecidamente desmemoriado e o trailer da época, narrado de forma hilária por Paulo César Pereio.

Cotação:

10 de outubro de 2008

O Martírio de Joana D’arc

A feroz crítica Pauline Kael considerava a interpretação de Maria Falconetti talvez a melhor já capturada por uma câmera. O fato de ser o único trabalho da atriz no cinema amplifica esse caráter de película singular, obra máxima que nos compele ao tom reverente, sacro, guardando forças como um dos melhores de todos os tempos. A falta de som, responsável por envelhecer drasticamente tantos outros, torna-se um elemento a mais para deixá-lo poeticamente realista. Kael relembra em seu texto as palavras de Cocteu, para quem parecia o registro de uma época a qual o cinema não existia. Baseado nas minutas do inquérito, consegue ser fidelíssimo muito mais às emoções do que à história. Só nos minutos finais é que teremos extravagantes cenas de multidão, com ângulos fantasticamente modernos. Difícil de imaginar, como com o peso dos equipamentos daquele tempo conseguiam dar giros de 180º. Não se sabe se ficamos embasbacados com tudo o que vemos ou se choramos copiosamente pela tragédia que “segue” os desígnios de Deus. Sobram duvidas sobre a pobre Joana, que mal sabia a idade ao certo, ter continuado até seus últimos momentos ancorada na fé cristão-católica, seria sua ignorância um alívio à realidade? Pior, como uma religião que nunca hesitou em usar seu poder pelas vias do sangue sobrevive até os dias atuais, continuamente sacrificando vidas em prol de sua permanência no topo. Dreyer aliás, não abre mão do principal elemento ao qual a igreja de Paulo se firmou: O medo. Cada sacerdote é terrivelmente fotografado de baixo pra cima, dando-lhes contornos de vampiros góticos. Joana, complacente, é mostrada ao contrário. Seus grandes olhos cristalinos refletem sobre tudo a dor de toda a humanidade.

O Martírio de Joana D’arc – La Passion de Jeanne d'Arc

- França 1928 De Carl Theodor Dreyer Com Maria Falconetti, Eugene Silvain, André Berley, Maurice Schutz, Antonin Artaud, Michel Simon, Jean d'Yd, Louis Ravet 82’ Drama


DVD- A qualidade da imagem no disco distribuído pela Magnus Opus nos faz pensar se mesmo em 1928 as platéias viram tudo tão nítido. O filme teve várias mutilações com o passar do tempo, negativos queimados, etc. Esta versão foi a partir dos negativos muito bem conservados encontrados em um hospício na década de 80. Há bastante texto como extra e longa entrevista com a filha de Falconetti. Ela relembra por exemplo que quebrada, no início da Segunda Guerra, fugiu para a suíça, tentou entrar nos EUA e acabou na bancarrota total num cassino do Brasil. Morreu logo depois na Argentina.

Cotação:

8 de outubro de 2008

Saló - 120 dias de Sodoma

O filme mais insultuoso e subversivo já feito em todos os tempos tem desconcertante artificialismo cênico. Espetáculo repulsivo quase insuportável de ser revisto, choca antes pela crueza das idéias que defende do que pelas imagens mostradas. Vai radicalmente na contramão do cinema que se acredita ser antes de tudo entretenimento, uma forma de escape. Pasolini, em seu último trabalho, sentia então, resquícios do fascismo na Itália, mas é inegável que ali está todo e qualquer país de qualquer época pseudo civilizada. Enquanto o povo nada literalmente na merda, os poderes vigentes, Estado e igreja, caiem na farra auto-afirmando sua duvidosa superioridade. A história (inspirada em Marquês de Sade) transcorre na década de 40 quando, com o fim de Mussolini, grupo de autoridades mantém grupo de adolescentes presos para a realização de todos os seus desejos, por mais porcos, cruéis e degradantes que possam ser. Se há rapazes armados mantendo a ordem sem a mínima reação humana, não faltam pequenos delatores entre as jovens “vítimas” (de origens humildes semelhantes) preparadas a apontar o próximo. Dividido em três partes, o Ciclo da Paixão, da Merda e do Sangue, faz pensar o último não ter fim, trazendo tal desgraça para o lado de cá da tela, embora as três putas velhas que narram histórias escabrosas tentem nos fazer acreditar que não passa de um conto de fadas tenebroso. Sem exageros, dá vontade de vomitar e inigualável mal estar social. Poderoso na construção de seu universo sistemático, não foi à toa ter sido proibido em muitos países e continuar inédito em DVD.

Saló - 120 dias de Sodoma - Salò o le 120 giornate di Sodoma

- Itália/França 1975 De Pier Paolo Pasolini Com Paolo Bonacelli, Giorgio Cataldi, Umberto Paolo Quintavalle, Aldo Valletti, Caterina Boratto, Elsa De Giorgi, Hélène Surgère, Sonia Saviange 116’ Drama


Cotação:

3 de outubro de 2008

Lágrimas Amargas

Dramalhão tão cafona quanto irresistível sobre atriz de Hollywood decadente. Pela época dá pra apostar que foi produzido (com poucos recursos) no embalo de Crepúsculo dos Deuses, mas claro, sem um terço da acidez de Billy Wilder. Grande dama de Hollywood, Bette Davis parece estar deslocada contracenando com atores muito abaixo de seu talento, fotografada com granulação excessiva e inúmeras cenas em locação. Pelo menos no primeiro item tentaram disfarçar com a maioria de suas falas interpretadas diretamente para a câmera. Por muito tempo acreditou-se erroneamente que estava em situação difícil quando aceitou o papel tal e qual Gloria Swanson no de Wilder. Teoria facilmente descartada, já que dois anos antes tinha concorrido ao Oscar com A Malvada, feito repetido nesta fita quando chegou à histórica 10ª indicação. Falando na academia, Davis aparece com seu próprio troféu, ganho por Jezebel, na seqüência em que dirige bêbada pelas ruas preferidas dos ricos e famosos de Hollywood. Este momento de desespero, após cortar relações com seus familiares sanguessugas, ser ameaçada de despejo e praticamente perder a guarda da filha e mesmo assim agarrar seu Oscar e ir encher a cara merece estar em qualquer antologia do que de mais kitsch o cinema mostrou. O próprio filme tem várias outras que rivalizam com isto, como a grande diva vendendo calcinhas, ou péssima durante teste para um papel pequeno. E sobrevive a tudo! Seu talento, que lhe coloca no patamar de uma das maiores atrizes de todos os tempos, está evidente na emocionante festa dos ricaços, onde se vê em seus grandes olhos o quanto está deslocada em meio àquele luxo que não lhe diz mais respeito.

Lágrimas Amargas - The Star

- EUA 1952 De Stuart Heisler Com Bette Davis, Sterling Hayden, Natalie Wood, Warner Anderson, Minor Watson, June Travis, Barbara Lawrence, Fay Baker 102’ Drama


DVD- Não dá pra entender a lógica para “The Star” ter ganhado o título “Lágrimas Amargas” no Brasil, mas enfim... Ironicamente é distribuído agora pela Warner, “casa” original de Davis, mas já de relações cortadas quando o filme foi produzido de forma independente. O material bônus é o trailer espalhafatoso original e um documentário de 6 minutos com historiadores desmentindo que a personagem refletia a situação real da atriz. Aparece uma biógrafa apontando semelhanças bem maiores com a vida de Joan Crawford naquele momento, não por acaso, a arquiinimiga de Bette Davis.

Cotação:

27 de setembro de 2008

Querelle

Livremente baseado em romance de Jean Genet, Fassbinder, talvez o último verdadeiramente grande diretor alemão, dava ao mundo seu canto de cisne sem concessões comerciais. Tanto que o filme é febrilmente erótico sem mostrar se quer um único corpo nu. Fotografado em alaranjado lúgubre, com claustrofóbicos cenários teatrais, não se desenvolve neste mundo que em que vivemos, mas no sempre misterioso terreno do desejo, embora faça uso de claras regras sociais. Querelle (Brad Davis) é o marinheiro que ao aportar se lambuza dos pés à cabeça do poder proporcionado pela atração que desperta em homens e mulheres. Trapaceará no jogo de dados para ser possuído pelo marido da dona do bordel jurando ser aquela sua primeira vez. Jeanne Moreau, a única mulher em cena, interpreta a triste puta velha que cantarola a mesma canção enquanto recolhe para si os amantes recusados pelo esposo. “O homem mata tudo aquilo que ama” diz a canção. Há uma trama policial que na verdade só serve para mostrar a desenvoltura do marinheiro em usar os atributos físicos a seu bel prazer. Querelle só não consume nada com o paternalista capitão (Franco Nero) e o doentiamente apaixonado irmão. O mais perto que chegará do incesto é ao experimentar o primeiro beijo na boca de outro homem, quando um fugitivo (Hanno Pöschl em papel duplo) se disfarça tornado-se idêntico a ele. Brilhante trabalho de atmosfera, envolve principalmente na ótima construção de personagens, e na narrativa ousada. De forte temática homossexual, é, sobretudo, um filme sobre machos.

Querelle - Querelle

- Alemanha/França 1982 De Rainer Werner Fassbinder Com Brad Davis, Franco Nero, Jeanne Moreau, Laurent Malet, Günther Kaufmann, Hanno Pöschl, Burkhard Driest 120’ Drama


DVD- A Versátil bate no peito deixando claro no texto da contra capa de que está sob licença da Gamount. Essa óbvia alusão ao paraíso das contraversões de copyrights que parece ser o Brasil pode ser desculpa justa aos preços estratosféricos de seus maravilhosos produtos. Pena que o valor alto não nos dá direito a um conteúdo mais caprichado. Menus horrorosos, extras relaxados se resumindo a texto e galeria curta, e o pior de tudo, legendas que não passaram pela mínina revisão. Há palavras com três esses, fora erros gramaticais grosseiros. Mesmo sendo uma película considerada forte, as legendas ainda apazigua o linguajar dos marinheiros, marca registrada de Jean Genet.

Cotação:

16 de setembro de 2008

Laranja Mecânica

Não só se manteve bendito/maldito por todos estes anos, como uma excelente demonstração de como um livro deve ser adaptado ao cinema. Kubrick pegou o romance de Anthony Burgess e limou aqui e ali, aumentou acolá, conseguindo extrema fidelidade sem ser chato. Até as gírias, que obrigam o leitor a ficar o tempo todo recorrendo ao glossário das últimas páginas, estão em sua maioria presentes, embora com sutis explicações visuais. Alex, o pequeno delinqüente mais inteligente do que qualquer outro personagem, parece muito mais carismático e de duvidosa identificação com a platéia. Sorrateiramente as vítimas têm destaque quase nulo após suas barbáries. Não é um filme, aliás, sobre vítimas, mas sobre o perigoso jogo de dominação e dominado, que nos lembra que absolutamente todos nós fazemos parte do chamado sistema. A engrenagem que roda infinitamente criando lobinhos para depois os converter a doces cordeirinhos e vice versa. Hermético, de incontáveis paralelos, foi polêmico desde quando lançado, permanecendo proibido na Inglaterra pelo próprio cineasta após algumas ameaças de delinqüentes juvenis. E a vida nunca imitou tanto a arte quanto com Laranja Mecânica. O futuro próximo já virou passado e presente... Dando ritmo ainda mais épico, a chocante trilha sonora de Walter Carlos abraçada a Beethoven, Rossini e Terry Tucker.

Laranja Mecânica – A Clockwork Orange

- Inglaterra 1971 De Stanley Kubrick Com Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, Adrienne Corri, Aubrey Morris, Sheila Raynor 136’ Ficção Científica


DVD - A edição dupla e restaurada dá a sensação de estarmos vendo um filme inédito, tamanha quantidade de novas nuances notadas. É triste que os extras do primeiro disco (faixa de comentários de um historiador, de Malcolm McDowell e o trailer original) estejam sem legendas em português. Tal desleixo desmerece o titulo de edição especial, já que custa mais do que a versão simples vendida antes. O segundo disco tem apenas três documentários bons. Um com o impacto cultural da obra, outro menos feliz sobre os bastidores e um terceiro de uma hora e meia sobre a carreira de McDowell.

Cotação:

4 de setembro de 2008

Spartacus

Kubrick e Kirk Douglas deixaram sua marca indelével neste espetáculo literalmente colossal. Dá pra sentir a mão genial do diretor em inúmeras tomadas milimetricamente calculadas, assim como a mão de chumbo do ator-produtor, num personagem principal maniqueísta e bidimensional. Se um busca realismo gráfico, o outro a aprovação da platéia média, que há pouco tinha aplaudido Ben-Hur e vários épicos, além de se firmar como estrela de primeira grandeza. O trabalho de um aponta para uma obra prima, o do outro apela às soluções populares. De qualquer forma, os primeiros 40 minutos, durante a escola de gladiadores, são tão empolgantes que compensam qualquer outro momento enfadonho. A existência da disputa política, mais arrastada do que devia, é outra óbvia concessão para a exploração das estrelas presentes no elenco. E claro, Sir Lawrence Olivier, o imperador bissexual e maquiavélico, rouba a cena! Seu personagem é quase palpável de tão complexo. Spartacus, o escravo que se rebela contra o regime opressor e utopicamente cria seu próprio exército de ex-escravos, ao contrário dos filmes similares, não toca em cristianismo, sua história se passa bem antes do nascimento de Jesus. Embora toda a benevolência do herói lembre a trajetória do Salvador, faz mais paralelo com a situação assustadora de castração ao qual intelectuais do período conviviam em plena era Carter.

Spartacus – Spartacus

- EUA 1960 De Stanley Kubrick Com Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin 198’ Drama/Ação


DVD - A cópia da Universal (que tem minutos a mais) não está tão restaurada quanto deveria, muitas vezes chega a aparecer saraivada de rabiscos pretos. Incluíram um pequeno livreto sobre a obra, o que é sempre bacana para se saber mais, mas não vem com nenhum documentário ou material exclusivo. A maioria dos extras é proeminente de outras vezes em que foi comercializado. Até as duas faixas de comentários são sobras. A do restaurador entrega o jogo ao tratar o telespectador como consumidor de LD. Tudo está legendado em português, inclusive os dois comentários, e as ótimas cenas deletadas.

Cotação:

2 de setembro de 2008

Imitação da Vida

Melodrama barato de sabor irresistivelmente kitsh. Lá pela metade nos dá a sensação de que estamos vendo uma novela com a Regina Duarte às voltas com a filha problemática. É só sensação mesmo, porque é um produto Holywoodianíssimo! Lana Turner transpira um glamour que mesmo quando o filme foi feito já era raro entre as divas. Antes filmado com Claudette Colbert, esta segunda versão da história, uma das campeãs em lágrimas dentro das salas de cinema, gira em torno de duas mães, Turner uma aspirante a atriz que já passou da idade e Juanita Moore, negra, pobre, sofredora e religiosa. Cada qual possui uma filha, que confrontarão ao extremo as posturas exageradas das mães, tanto subserviência quanto ambição desenfreada. Só quase no fim a da atriz, quando estiver bem rica e poderosa, lhe encostará à parede cobrando afeto e sua presença, já a de Juanita, coitada, desde pequenininha deixará bem claro morrer de vergonha da mãe negra. É um dramalhão tão lascado, mas ao mesmo tempo tão exageradamente artificial que se torna engraçado. Susan Kohner, muito parecida com Natalie Wood, a primeira opção para o papel, não só nega a pobre mãe como foge para cair na vida, divertindo velhos senhores em um cabaré de quinta categoria. Turner de pobrezinha escrupulosa no inicio convence muito pouco, e de certa forma nos faz torcer para que o sucesso chegue logo à sua carreira. Já vá esperando choro que lhe será arrancado a fórceps no final!

Imitação da Vida – Imitation of Life

- EUA 1959 De Douglas Sirk Com Lana Turner, John Gavin, Juanita Moore, Karin Dicker, Sandra Dee, Susan Kohner 125’ Drama


Cotação:

7 de agosto de 2008

Cega Obsessão

Estudo hardcore sobre a cegueira da paixão incondicional, a evidente servidão do algoz diante das recusas do ser preterido. Tem ecos de vários outros de mocinhas aprisionadas, quase um subgênero dos romances, ou histórias de amor para adultos, sem finais tão óbvios. Como em Nunca Fui Santa, Ata me! e O Colecionador, desconfia-se pouco de que as tentativas da garota em fugir vão acabar em suplicas de afeto eterno. Pelo contrário, há sempre reviravoltas aqui e ali, e muitas vezes o final feliz tem sabor discutível. No caso deste exemplar nipônico, espera-se um radicalismo maior e não nos decepciona. Doentio em sua estética discorre ainda sobre a figura materna (onipresente) na vida de um homem adulto, muito mais do que discussões sobre caminhos relevantes da arte. Tema, aliás, que acabou diluído entre tantos emaranhados psicológicos. O enredo é basicamente sobre modelo de pouco sucesso que se submete a fazer trabalhos (fotos e esculturas) de nudez, despertando a atenção de artista plástico cego. Junto a sua possessiva mãe, seqüestra a beldade a fim de que pose só para ele. Apenas com três atores e um grande e bizarro cenário com mórbidos pedaços de corpos de argila, consegue nos fazer pensar ininterruptamente em meio à claustrofobia incessante. É um grande filme, artesanal, muito mais preocupado em apontar sentimentos do que declarar verdades sombrias.

Cega Obsessão – Môjû

- Japão 1969 De Yasuzo Masumura Com Eiji Funakoshi, Mako Midori, Noriko Sengoku 84’ Drama/Suspense


DVD - Impossível não reparar de cara o erro grosseiro no nome da distribuidora Magnus Opus, mas graças ao interesse dela temos inúmeros filmes que nem em uma próxima encarnação seriam lançados no Brasil. O longa tem imagem de escopo original, legendas boas e o esforço dos esforços em extras. Em uma produção rara como Obsessão Cega, até o material em texto se torna precioso. Há também o dramático trailer de cinema, biografias e um videozinho em texto ridículo de outros lançamentos. O ponto ruim é seu preço elevado, sendo que o disco vem acondicionado numa embalagem plástica de péssima qualidade, semelhante à usada pelos camelôs. Nem dá pra fechar direito.

Cotação:

22 de julho de 2008

Má Educação

Depois de ter seu primeiro Oscar em cima da lareira, aplaudido pela imprensa a cada filme como o mais maduro, e por conseqüência virado o favorito da massa pretensamente culta que finalmente vê cinema europeu (leve?), Almodóvar nos veio com este susto. Logo depois do insosso Fale Com Ela, fez seu trabalho mais radical e pessoal desde muito tempo, com tantas reviravoltas que só sabemos se foi um bom filme depois de refletir um pouco. Principalmente porque a história (deliciosamente folhetinesca) se passa em quatro momentos, ou planos, atualidade, passado e imaginação. Constrói lindos personagens para depois jogá-los na lama. Nos dá a certeza de que a realidade sempre é mais sórdida do que qualquer ficção. A igreja católica assume novamente seu papel de derrota, mas também de elemento transformador em quase todos seus trabalhos. Há pelo menos uma cena idêntica em A Lei do Desejo de 1987, quando o travesti vai acertar contas com o padre. Também mostra muitas visitas, com a história começando quando cineasta espanhol underground (nos 80) reencontrando um antigo colega do internato. Bem diferente do menininho com quem trocou as primeiras carícias íntimas, lhe entrega um roteiro chamado La Visita. E foi justo este título que Má Educação teve enquanto foi rodado. Entre as críticas recebidas, está a de ter sido autocomplacente, afinal, o único personagem que parece ter escrúpulos ali é o diretor. Almodóvar negou veemente ser uma película autobiográfica.

Má Educação – La Mala Educación

- Espanha 2004 De Pedro Almodóvar Com Fele Martínez, Gael García Bernal, Daniel Giménez Cacho, Lluís Homar, Javier Camára, Petra Martínez, Nacho Perez, Raul Garcia Forneiro, Alberto Ferreiro,Ignacio Perez 101’ Drama


DVD - No Brasil, ou seja, DVDs zona 4 foi comercializado pela Fox. Segundo o site 2001vídeo, áudio em 2 canais, formato de tela letterbox e tendo como extra apenas o trailer. Na Europa, portanto zona 2 ficou a cargo da Warner Bros., que vendeu um produto bem diferente. Áudio somente em 5 canais, tela anamórfica, vários trailers, spots de TV, dezenas de pôsteres, galeria ampla de imagens, inclusive os croquis de Jean-Paul Gaultier, cenas de bastidores e o mais curioso, duas cenas deletadas que complementam o filme dentro do filme. Sabemos o que acontece depois que o travesti de Gael fica nas mãos dos pérfidos padres. Ainda vem com uma faixa de DVD Rom. A desvantagem é que não há legendas em português, embora com esforcinho dá pra entender bem o espanhol original.

Cotação: