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6 de maio de 2009

Feliz Natal

Um filme brasileiro recente que não se passa em morro carioca, sertão ou nos brinde com as agruras amorosas da classe média já é louvável por si só! E confesso que comecei a assistir com as quatro patas no chão. A fotografia granulada e câmera trêmula me cheiravam a pretensão artística de atorzinho da Globo tentando ser gente no cinema. Preconceito! Ambos acordam completamente com o ambiente doméstico ao qual a história transcorre. Há que se lembrar que junto à tecnologia, a arte (essa coisa tão humana...) de interpretar sofre transformações, e a estréia de Selton Mello como diretor aponta caminhos novos tão drásticos a atores quanto a chegada do áudio ou o zoom. Interpretações tão cristalinas só possíveis no teatro, mas sem os exageros do palco. Ou melhor, a câmera digital nos transporta dolorosamente para dentro da ação quase como bisbilhoteiros, vasculhando cada emoção por mais sutil que seja em “tempo real”. E o cineasta se cercou de um elenco tarimbado, embora não óbvio, para que a experiência seja a mais correta possível. Darlene Glória, por exemplo, está estupenda como a mãe alcoólatra que já desistiu a muito tempo de segurar as pontas da família em frangalhos. Mello acertou na primeira tacada não só pelo que se assiste, mas pelo filme continuar a existir em nossa mente quando ele acaba. Tijolo por tijolo os personagens vão se revelando, tão ricos e tão miseráveis em sua existência que mesmo sem sobrar o que ser amarrado no final é nítido que pertencem a este mundo.

Feliz Natal – Feliz Natal

- Brasil 2008 De Selton Mello Com Darlene Glória, Paulo Guarnieri, Lúcio Mauro, Leonardo Medeiros, Graziela Moretto, Fabricio Reis, 100’ Drama


Cotação:

23 de fevereiro de 2009

Carne Fresca

Pela pretensão de colocar foco numa figura tão controvérsia quanto Bob Mizer é louvável por si só. Ele tomou de assalto as bancas norte-americanas entre os anos 40 e 50 com a Athletic Model Guild (AMG), revista de belos rapazes quase nus, entrando pra história pela coragem e por criar um estilo homoerótico. Foi perseguido pela polícia e preso por, entre outras coisas, favorecer a prostituição, hoje é tido como um dos maiores fotógrafos do século passado. Como se sabe muito pouco sobre o assunto, há várias curiosidades saborosas, por exemplo, de que era a mãe do retratista quem costurava os famosos tapa-sexo, e de que forma recrutava seus “modelos”. Acaba por confirmar o imaginário popular, com aquelas pessoas desembarcavam em Hollywood com a ambição de se tornarem estrelas de cinema, cedendo ao convite de tirar a roupa pra não morrerem de fome. Carne Fresca decidiu-se por seguir a linha drama intercalado pelos depoimentos de alguns sobreviventes, agora, todos velhos senhores logicamente. E um dos problemas vem daí, resultando em algo muito contido e ágil, dando a sensação de que desperdiçaram os entrevistados ou a curioso biografado. Não chega a emocionar em momento algum, embora a reconstituição de época e o clima seja puro 50’s. Difícil de acreditar que Joe Dallesandro, também muso de Andy Warhol, tinha 19 anos naquele tempo sendo que diz estar com 50, mas enfim... É perceptível como “falha” também, que todo o trabalho de Mizer tem uma forte estética american way pós-guerra, e o filme é uma co-produção de baixo orçamento canadense, francesa e inglesa, de fotografia bem iluminada. O artista merecia algo made in Hollywood tipo L.A. Confidential. Por falta de glamour decadente não deixará de ser feito.

Carne Fresca – Beefcake

- Canadá/Inglaterra/França 1998 De Thom Fitzgerald Com Daniel MacIvor, Joshua Peace, Jack Griffin Mazeika, Joe Dallesandro, Carroll Godsman, Thomas Cawood, Daniel McLaren, 97’ Drama/ Documentário


Cotação:

18 de dezembro de 2008

Blood Feast

Belezinha 100% fundo de quintal que leva o honroso título de ser um dos primeiros gore pelo menos em cores. Tripas e qualquer outro órgão são escancarados em vermelho berrante semelhante aqueles albinhos de fotos que tia velha nos mostra pra dizer que já foi a tal. É essa a sensação cafona que rola assistindo Blood Feast, algo familiar, feito entre amigos de bairro para exibições no máximo entre eles. Só não está pau a pau com Plan 9 From Outer Space porque há uma historinha até que bem amarrada. Um serial killer exótico ataca mocinhas loiras para roubar órgãos. Por coincidência, uma grã fina espalhafatosa contrata o Buffet de misterioso professor egípcio, sem saber que o velho é na verdade o maior procurado pela polícia do país, e que planeja repetir milenar ritual de sacrifício. Ou pra saber até onde aquilo tudo vai ou os incontáveis momentos de riso involuntário, ficamos entretidos masoquistamente durante seus curtos 67 minutos. Não daria pra enumerar suas falhas técnicas, e quando digo “falhas técnicas” são “falhas técnicas” mesmo! Como o vilão ser muito jovem e terem pintado o cabelo dele de branco provavelmente usando talco, elenco bem mal escalado, interpretações semelhantes aquelas que se vê em teatrinho de igreja, incontáveis furos de roteiro... Enfim, um incontestável Cult!

Blood Feast

- EUA 1963 De Herschell Gordon Lewis Com William Kerwin, Mal Arnold, Connie Mason, Lyn Bolton, Scott H. Hall, Christy Foushee, Ashlyn Martin, Gene Courtier, Al Golden 67’Horror


Cotação:

20 de novembro de 2008

A Última Festa de Solteiro

Hollywood abriu as portas e as pernas ao humor sexual na década de 80 depois do canadense Pork’s ter faturado alto. Repetido à exaustão na TV (com o título A Última Despedida de Solteiro), tenta conquistar a classe média colocando como vilões a família da moça, rica e bem educada sendo que os festeiros são demasiadamente estúpidos para que se compartilhe a “alegria extasiante” de sua existência. Junto a Splash – Uma Sereia Em Minha Vida, do mesmo ano, marca a transição de Tom Hanks da TV para a tela grande e não há, gostando-se ou não dele, como deixar de admirar sua caminhada ao reconhecimento profissional. Aqui umas três ou quatro risadas são provocadas, mas de resto sobram sorrisos amarelo. Principalmente porque filmes de uma piada só, esticada por quase duas horas, exige paciência acima de qualquer bom humor. Como sacanagem, tal e qual seus similares (O Último Americano Virgem, Um Hotel Muito Louco...) agora se mostra bem fraco, ao contrário do que julgava nossa visão infantil daquele tempo. Há um nu frontal feminino, vários peitos femininos, e uma bunda masculina aberta (!!!)... Chulo, careta e muitas vezes preconceituoso, deve agradar ao ser assistido entre amigos (com QIs diversificados) enquanto se toma cervejinhas. Se bem que faria mais sentido entre inimigos...

A Última Festa de Solteiro – Bachelor Party

- EUA 1984 De Neal Israel Com Tom Hanks, Tawny Kitaen, Adrian Zmed, George Grizzard, Barbara Stuart, William Tepper, Wendie Jo Sperber 105’ Comédia


DVD - Produto bem polido da Fox, tiro certo pra quem o achar “da hora!”. O widescreen anamórfico do filme parece estar adulterado porque apresenta granulação acima do normal. Os bônus com qualidade de imagem similar ao VHS, são trailer (única coisa sem legendas), making of, documentário sobre despedidas de solteiro e entrevista da época com Hanks. Detalhe, disso tudo, o material mais longo deve ter 3 minutos!

Cotação:

19 de novembro de 2008

De Volta ao Vale das Bonecas

Fazia tempo que não via algo tão inusitado. Entre a genialidade e a total burrice esquizofrênica, Russ Meyer colocou num liquidificador tudo o que conhecia de cultura popular (incluindo aí muita sacanagem) e apertou a tecla pulsar. Conhecido como um dos principais nomes do cinema sexplotation, que equivale às nossas pornochanchadas, foi encarado pela Fox como a luz no fim do túnel á crise financeira que se encontrava. Nos loucos anos 60, o mundo vivia a mais radical revolução cultural e sexual, o que deixava sem sentido toda pompa das grandes produções hollywoodianas. Graças a isso, o maldito Meyer finalmente trabalharia dentro da capital mundial do cinema a preço de banana, num dos raríssimos casos onde um então diretor independente teve absoluta liberdade para criar sem interferência dos executivos. E ele não se fez de rogado. Como a autora do livro O Vale das Bonecas não liberou os direitos para a seqüência de O Vale das Bonecas de 67, optaram por uma espécie de sátira ao submundo do show business interpretada de forma realista na medida do possível. Trio de roqueiras parte para a Califórnia em busca da fama, sexo descompromissado e drogas! Pelo menos duas playmates no elenco garantem a farta exibição de peitos, embora aqui mais contida do que o cineasta tinha fama. Mas resumir assim parece pouco! Tem um ritmo de edição rapidíssimo, coisa que a MTV só faria décadas depois, além de alguns videoclipes da banda fictícia The Carrie Nations entrecortando a história. Sem perder o fio da meada, os vários personagens se envolvem em situações melodramáticas exageradas e hilariamente baratas de fazer o roteirista da pior novela mexicana já feita corar de vergonha. Como o céu é o limite ao deboche psicodélico, nos surpreende até os momentos finais, violento e criativo que duvidosamente será esquecido por quem o assistir.

De Volta ao Vale das Bonecas – Beyond the Valley of the Dolls

- EUA 1970 De Russ Meyer Com Dolly Read, Cynthia Myers, Marcia McBroom, John Lazar, Michael Blodgett, Edy Williams, Erica Gavin, Phyllis Davis, Princess Livingston, Pam Grier 109’ Comédia/Drama/Musical/Suspense


DVD - Tão inacreditável quanto o diretor ser praticamente desconhecido no Brasil é esta super edição dupla, repleta de extras da Fox! Há uns 5 documentários longos com entrevistas de historiadores, críticos e elenco, extensas galerias, spots, trailers, testes... Só os trailers, spots e as duas faixas de comentários no primeiro disco (“pra variar”) estão sem legendas em português.

Cotação:

11 de novembro de 2008

Vamp – A Noite dos Vampiros

A primeira surpresa é que o nome não se trata de picaretagem dos distribuidores brasileiros pra lucrar em cima da telenovela homônima. O filme de 1986 realmente se chama Vamp, e foi comercializado em VHS em 1991 junto ao sucesso dos vampiros da TV Globo. A outra surpresa é que embora tudo indique o contrário, é muito bacaninha valendo o baixo custo da aquisição! O humor e horror estão bem dosados, com alguns sustos eficazes. Fazendo uso do mote dos inferninhos dominados por sugadores de sangue (como Um Drink no Inferno de Robert Rodriguez, que continua inédito em DVD no Brasil), três adolescentes em busca de aceitação entre os populares da faculdade partem para a cidade grande para contratar stripers que topem animar a festa da galera. E é isso, com praticamente toda a ação se passando economicamente naquele espaço, ótima desculpa para algumas garotas de pouca roupa dar o ar da graça. Furos no roteiro, com saídas fáceis em certos momentos não deve ser algo a se reclamar pra quem não esperava nada. Lógico que a presença forte da pop star jamaicana Grace Jones como a rainha de todos os vampiros é um interesse a mais na produção. Ela entra muda e sai calada no sentido real da expressão, usando figurinos tão extravagantes quando engraçados ou constrangedores. No elenco ainda Dedee Pfeifer, a irmã mais sem graça da Michelle.

Vamp – A Noite dos Vampiros – Vamp

- EUA 1986 De Richard Wenk Com Grace Jones, Robert Rusler, Dedee Pfeiffer, Chris Makepeace, Brad Logan, Gedde Watanabe 93’ Horror


DVD - Como aqui não foi lançado em sua época, será graças ao DVD que este filme se consagrará entre os amantes de filmes B. Até porque, a editora NBO primeiro o distribuiu em bancas de revista e agora pode ser achado em grandes hipermercados custando uma ninharia. A imagem está ótima, com o escopo original preservado de forma anamórfica. Há apenas texto como extra ao contrário da edição americana (onde é Cult) que inclue faixa de comentários com os envolvidos no projeto.

Cotação:

5 de novembro de 2008

Planeta Terror

Faz tempo que Robert Rodrigues superou o rótulo de malucão criativo de plantão em Hollywood. Seus filmes recentes (para quem entrar na brincadeira!) continuam a ser tresloucados passatempos de uma mente transbordando de criatividade, mas também obras inteligentes, divertidas e bem acabadas. Quando pouco, valem como uma volta numa roda gigante, podem não adicionar absolutamente nada, mas o tempo gasto com elas nos fez esquecer em que mundo se vive. Não é o caso deste Planeta Terror, onde (se descontarmos Sin City, que partia de uma idéia não original) o diretor entrega sua melhor produção, não só como entretenimento de primeira linha, mas de substancia artística muito acima da média. Criado como segmento no projeto Grindhouse ( a parte de Tarantino continua inédita comercialmente no Brasil), e lançado separadamente nos outros países, o roteiro expõe um desfile de personagens tão bizarros quanto ricos sem perder a conectividade. Lamenta-se que a casca de porcaria pop consciente e fresca não é absorvida pela inteligência mediana que sempre leva tudo tão a sério, o que explica o assustador fracasso financeiro do projeto. Se tivesse conseguido nas bilheterias o que merece, dava pra torcer por continuações, ou qualquer subproduto que explorasse este universo. Parece que pelo menos o trailer fake que o abre, Machete, será transformado em filme mesmo. Muito fresco e inspirador, já nasce Cult. Aquele tipo raro que se assiste infinitas vezes na vida e ao ouvir a feliz trilha sonora (também de Rodriguez) vai se imaginando a que cena pertence. Se há um porém, os rabiscos da imagem para reproduzir uma velha película de zumbi não funcionam da mesma forma em DVD como na sala de cinema, porque duvidosamente algum filme sairia digitalmente com tantas falhas.

Planeta Terror – Planet Terror

- EUA 2007 De Robert Rodriguez Com Rose McGowan, Freddy Rodríguez, Josh Brolin, Marley Shelton, Jeff Fahey, Michael Biehn, Bruce Willis, Stacy Ferguson, Hung Nguyen 105’ Horror


DVD - Bons tempos aqueles da Columbia em que Robert Rodriguez cuidava de seus lançamentos digitais os entupindo de extras. A Europa o está comercializando com uma roupinha de gala, duplo coisa e tal, mas seu miolo é bem pobrinho. Não indica por exemplo se é a versão exibida nos cinemas ou a X-rated comercializada em DVD nos EUA. Aliás, não indica a duração na embalagem. A arte da luvinha de papelão reproduzindo o estilo de pôster antigo já utilizado pelo material promocional está bonita, mas seus extras são só algumas entrevistas curtas e picadas, making of sem edição , trailers e texto. Como outros da distribuidora, vem com versão mp4 pra se assistir em mídias portáteis como se isso fosse grande coisa. O único diferencial bacana é o teaser brasileiro, item que raramente DVDs trazem.

Cotação:

31 de outubro de 2008

Canibal Ferox

Essa grossura em forma de película se orgulha de ser o filme mais violento já feito. Proibido em 34 países, deveria ter sido em outros tantos só pela escrotice do diretor em sacrificar e maltratar animais pra conseguir tal mérito. Há uma tomada bem curta dos atores com o jipe em movimento onde se vê o pobre quati pendurado pela cordinha sendo arrastado do lado de fora. Da parte dos humanos, embora aja boa tensão, nem sempre os efeitos de violência explícita ficaram bem feitos. E em matéria de gore, o que não choca faz rir, não há meio termo! A história vai e volta das ruas de Nova York à selva Amazônica, o que além de dispersar o interesse pelo grupo de jovens perdidos na expõe o amadorismo técnico da produção. Pertencente à vertente (bem popular na Itália nos 70’s) dos filmes sobre canibalismo, é apenas uma grande curiosidade de gosto duvidoso, um grande teste de estômago para espectadores sem coisa melhor pra assistir. Como cinema deixa muito a desejar, sendo que a principal mensagem (quem é mais selvagem, os nativos da floresta ou nós, seres pseudo civilizados?) bem escancarada, dita inclusive pelos atores, ajuda a dar ainda mais sabor de obvio em tanta gratuidade. Em suma, uma grande selvageria artística no mau sentido.

Canibal Ferox – Cannibal Ferox

- Itália 1981 De Umberto Lenzi Com Giovanni Lombardo Radice, Lorraine De Selle, Danilo Mattei, Zora Kerova, Walter Lucchini, Fiamma Maglione, Robert Kerman, Venantino Venantini, 'El Indio' Rincon 93’ Horror


Cotação:

15 de outubro de 2008

Sin City – A Cidade do Pecado

Fosse uma história original, não uma adaptação de graphic novel, poderíamos apontar este noir moderno como um dos melhores filmes deste início de século. É uma pena que apenas sua técnica foi imitada em outras produções, não seu conceito artístico. Estilizado, usando a obra original praticamente como storyboard, à primeira vista é dramaticamente belíssimo,e tanta beleza merece (pelo menos) uma segunda assistida. Isso porque, pelo radicalismo é impossível não se notar o distanciamento dos atores do resto do cenário, dando impressão de que todos estão presos a uma mentira. Na revisão percebe-se que tal coisa parte apenas do ponto de vista do espectador. Assim como os contos criados por Frank Miller ficaram muito bem costurados, a escalação do elenco está irrepreensível. Ainda demonstra um notável amadurecimento narrativo de Robert Rodriguez, que pela primeira vez fez um filme pensando na platéia, não uma experiência tecnológica somente para satisfação própria. Se for necessário apontar alguma falha, dá pra chutar a metragem longa, ou a sensação causada pelo processo, que depois de uma hora parece que se passaram 3. Seguindo a lógica de triplicar, ao final pode-se aplaudir as seis horas de puro e vibrante entretenimento cinematográfico.

Sin City – A Cidade do Pecado – Sin City

- EUA 2005 De Robert Rodriguez e Frank Miller Com Bruce Williams, Mickey Rourke, Jessica Alba, Benicio Del Toro, Rosario Dawson, Alexis Bledel, Elijah Wood, Clive Owen 124’ Ação


DVD - Ao contrário de outros países, a Buena Vista só disponibilizou aqui um disco simples em lá maior. O vergonhoso único extra trata-se de pobre documentário que se tiver dez minutos é muito. Pena que na época da Columbia o próprio Rodriguez produzia os DVDs repletos de material bônus. Pelo menos tem menus animados, coisa que nem isso foi feito para a única cópia até agora de Pulp Fiction no Brasil.

Cotação:

10 de outubro de 2008

Que Fiz Eu Para Merecer Isto?

Só mesmo Almodóvar para querer nos fazer rir de tanta desgraça alheia e ainda triunfar! Carmen Maura é a coitada suburbana, ironicamente chamada de Glória, que engorda de forma miserável a renda doméstica à custa de faxina. Para levar a vida ainda furta um troco ou outro da carteira do marido, um taxista machão com o incrível dom de imitar caligrafias alheias. Talvez porque sua realidade seja tão dura, com os únicos escapes em calmantes e fungadas em produtos de limpeza tóxicos, que torcemos por ela como se fosse aquela vizinha ferrada na vida. Do mesmo jeito nos decepcionamos aos muitos erros que vai cometendo pelo caminho. É inacreditável quando deixa Miguel, o filho mais novo, nas mãos do dentista pedófilo e vai correndo comprar um baby lise... Mas tudo dá errado pra ela! Sua única tentativa de sexo extraconjugal é justamente com um policial impotente, ao contrário da vizinha, a prostituta simpática de Verónica Fourqué, tão bem sucedida que ambiciona carreira internacional. É o melhor do diretor (que aparece dublando La Bien Pagá) em sua primeira fase, tanto técnica quando artística, já bem à vontade com as mazelas da cultura pop madrilena. No meio do caminho, como em inúmeros de seus roteiros, há um crime, que parece não dar em nada além de ocupar tempo de projeção, assim como os falsários interessados em escrever as memórias de Hitler. Seu brilhantismo ofusca qualquer deslize.

Que Fiz Eu Para Merecer Isto? – ¿Qué he hecho yo para merecer esto!!

- Espanha 1984 De Pedro Almodóvar Com Carmen Maura, Luis Hostalot, Ryo Hiruma, Ángel de Andrés López, Chus Lampreave, Gonzalo Suárez, Verónica Forqué, Juan Martínez, Kiti Manver, Sonia Anabela Holimann, Cecilia Roth 101’ Comédia


Cotação:

A Pantera Nua

Rossana Ghessa é a suburbana que sai em revista de mulher pelada enquanto sonha em encontrar um bom partido. Vê sua grande chance ao servir de “cala-boca” para um milionário gay não ser deserdado pelo pai. De forma confusa, aparece um malandro (Roberto Pirillo, em alta depois de aparecer na novela A Escrava Isaura) se dizendo fazendeiro e leva a belezoca no bico. Bobagem! O argumento explorado nas coxas, pra usar um termo que lhe cabe bem, é só desculpa para Ghessa tirar a diminuta roupa em 9 a cada dez cenas, e por incrível que pareça, por vontade própria já que é a produtora desta vídeo cassetada retrô. Constrange ainda obra de tão baixo calão conseguir ser co-produzido com verba pública via Embrafilme. Este tipo de apoio é a principal diferença entre as comédias cariocas e as da Boca do Lixo, frutos da iniciativa privada, e daí vem mais outra estranheza. Os personagens, em meio a um roteiro muito pobre, de diálogos idem, ficam soltando farpas ao cinema paulista, no sempre ridículo bairrismo entre Rio de Janeiro e São Paulo. Amadoristicamente dirigido, fotografado, escrito e interpretado, serve só pra rir da moda da época, além de dar vergonha alheia.

A Pantera Nua

- Brasil 1979 De Luiz de Miranda Corrêa Com Rossana Ghessa, Roberto Pirillo, Neuza Amaral, Heloísa Helena, Agnes Fontoura, Marcos Wainberg, Wagner Montes, 102’ Comédia


DVD- Todo e qualquer filme brasileiro é sempre um upa se achar em DVD, mas também, qual a lógica da CineMagia ter lançado isso com tantos outros mais interessantes ainda inéditos? Mesmo pornochanchadas que pelo menos divertem, continuam lendárias. Ao contrário da imagem, o áudio, principal obstáculo técnico do cinema nacional por muito tempo, está péssimo na maioria do tempo, o que justificaria a existência de legendas. Na contracapa o nome da atriz e política carioca Neuza Amaral está grafado como Nelsa Amaral.

Cotação:

8 de outubro de 2008

Saló - 120 dias de Sodoma

O filme mais insultuoso e subversivo já feito em todos os tempos tem desconcertante artificialismo cênico. Espetáculo repulsivo quase insuportável de ser revisto, choca antes pela crueza das idéias que defende do que pelas imagens mostradas. Vai radicalmente na contramão do cinema que se acredita ser antes de tudo entretenimento, uma forma de escape. Pasolini, em seu último trabalho, sentia então, resquícios do fascismo na Itália, mas é inegável que ali está todo e qualquer país de qualquer época pseudo civilizada. Enquanto o povo nada literalmente na merda, os poderes vigentes, Estado e igreja, caiem na farra auto-afirmando sua duvidosa superioridade. A história (inspirada em Marquês de Sade) transcorre na década de 40 quando, com o fim de Mussolini, grupo de autoridades mantém grupo de adolescentes presos para a realização de todos os seus desejos, por mais porcos, cruéis e degradantes que possam ser. Se há rapazes armados mantendo a ordem sem a mínima reação humana, não faltam pequenos delatores entre as jovens “vítimas” (de origens humildes semelhantes) preparadas a apontar o próximo. Dividido em três partes, o Ciclo da Paixão, da Merda e do Sangue, faz pensar o último não ter fim, trazendo tal desgraça para o lado de cá da tela, embora as três putas velhas que narram histórias escabrosas tentem nos fazer acreditar que não passa de um conto de fadas tenebroso. Sem exageros, dá vontade de vomitar e inigualável mal estar social. Poderoso na construção de seu universo sistemático, não foi à toa ter sido proibido em muitos países e continuar inédito em DVD.

Saló - 120 dias de Sodoma - Salò o le 120 giornate di Sodoma

- Itália/França 1975 De Pier Paolo Pasolini Com Paolo Bonacelli, Giorgio Cataldi, Umberto Paolo Quintavalle, Aldo Valletti, Caterina Boratto, Elsa De Giorgi, Hélène Surgère, Sonia Saviange 116’ Drama


Cotação:

27 de setembro de 2008

Estrela Nua

Raro filme brasileiro que não busca o naturalismo. Os diretores José Antônio Garcia e Ícaro Martins, em última parceria, vinham da comédia Onda Nova e apontavam agora para um caminho mais maduro. O argumento brilhantemente original tem respingos de inúmeros outros filmes. São visíveis referências que vão de Buñuel, Billy Wilder a Otto Preminger, passando sobre tudo pela trilogia do apartamento de Polanski. Atriz famosa (Cristina Aché) sufocada pela superexposição de sua imagem morre (talvez suicídio?) antes de completar a dublagem de último trabalho Nelson Rodriguiniano, deixando aberta a vaga para uma novata. Essa outra é Carla Camurati, mãe solteira que ao entrar no universo cinematográfico acabará misturando sua personalidade à da morta. Se a idéia é ótima, sua execução beira o amadorismo técnico. É provável que seja proposital que uma história sobre bastidores de cinema/dublagem tenha a dublagem muito tosca, mas não deve haver outra desculpa à edição de qualquer jeito, fotografia acidental, cenários miseráveis... Numa cena, o restaurante tem paredes brancas, sem janela nem nada. Há ainda inúmeros personagens rasos, sem maiores funções à trama, ocupados por, quem sabe, amigos pessoais dos diretores. Como trilha sonora, além de faixas originais compostas por Arrigo Barnabé, ouve-se praticamente um disco inteiro dos Mutantes. O roteiro que jamais se assume comédia, drama, suspense ganhou inacreditável desfecho bobo, como se precisasse justificar seu surrealismo. Mesmo assim, estes tantos percalços não diminuem o valor artístico da obra, chegando até a dar certo sabor de happening, de imediatismo. Como diz o personagem da Vera Zimmerman: “Cinema nacional é foda!”.

Estrela Nua

- Brasil 1984 De José Antônio Garcia e Ícaro Martins Com Cristina Aché, Carla Camurati, Selma Egrei, Jardel Mello, Cida Moreira, Ricardo Petráglia, Vera Zimmerman 90’ Drama


DVD- Palmas para a Cinemagia, que corajosamente lançou Onda Nova e Estrela Nua com imagem em fullscreen, mas boa. Resta saber se O Olho Mágico do Amor, dos mesmos diretores também saiu por eles. Como material bônus galeria de fotos promocionais e biografias em texto. Na contracapa tem uma lista dos inúmeros prêmios que o filme recebeu. Embora Camurati seja a protagonista levou em Gramado o Kikito de coadjuvante!

Cotação:

27 de agosto de 2008

Problemas Femininos

Divine encara uma (anti) heroína do porte de Scarlett Ohara. Acompanha-se a trajetória de Dawn Davenport de adolescente rebelde no início dos 60 à vida adulta, marginal com tendências a modelo e atriz. Ao descobrir que seus pais não lhe compraram sapatinhos de cha-cha-cha na manhã de natal, dá uma surra neles e foge de casa. Na rua acaba violentada ao pegar carona com um sujeito mal encarado, a própria Divine em momento homem. Mãe solteira, a pobre moça faz de tudo para sobreviver: Garçonete, stripper, prostituta e assaltante na companhia das amigas Chicklette e Concetta. Ainda tendo que aturar uma filha problemática, sua trajetória “da ambição ao crime” desembocará num salão de beleza onde conhecerá seu futuro marido (o único hetero no local) e sua beleza reconhecida como top model. Para John Waters, Problemas Femininos significa, sobretudo, um avanço técnico, com argumento melhor desenvolvido, câmera com mais foco, figurinos e cenários próprios, etc. Artisticamente confirma a consistência de sua filmografia, mesmo nesta época de vacas magras, suas idéias absolutamente críticas à classe média, se sobressaem a qualquer falta de recursos financeiros. Esta grande festa entre amigos muitas vezes peca pelo excesso de diálogos interpretados de forma amadora, mas não corre o risco de perder interesse já que as situações absurdas e jocosas se sucedem até o último segundo.

Problemas Femininos – Female Trouble

- EUA 1974 De John Waters Com Divine, Mink Stole, Mary Vivian Pearce, David Lochary, Cookie Mueller, Susan Walsh, George Hulse, Ed Peranio, Elisha Cook Jr. 92’ Comédia


DVD - Inédito no Brasil, lamentavelmente distribuído pela Continental em uma edição paupérrima. Tão podre que a capa mais parece Xerox colorido, com erros grosseiros no argumento da contracapa e nas legendas. Outra coisa de sabor duvidoso é estampar “Trash Collection”... O que é mais lixo, John Waters ou Christopher Nolan? Ter dinheiro suficiente para as massas aplaudirem porcarias conforme o departamento de marketing de um estúdio quer?

Cotação:

12 de agosto de 2008

Encarnação do Demônio

O dia em que veríamos um novo José Mojica Marins nos cinemas parecia não chegar nunca! Mas chegou, com baixo orçamento como se esperava e uma inacreditável distribuição da Fox. Se tudo correr bem, ou seja, tiver bilheteria satisfatória, talvez a filmografia nacional escape da atual arapuca favela - elenco da Globo - drama. Há tela pra todo tipo de platéia. Embora a entrada custando quase duas notas de 10 Reais, sabe-se que esta platéia só pode vir da classe média. Diante do caos crônico, assistir uma nova desventura do coveiro mais famoso do mundo ganha status de momento histórico em nossas vidas! Mojica continua sendo único, criador de uma mitologia 100% nacional, diretor à base de boas idéias executadas a duras penas, sob o olhar de viés de um publico cada vez mais acostumado ao óbvio e ululante. Infelizmente o roteiro escrito por Dennison Ramalho, tendo como base argumento do cineasta, faz concessões a essa vertente de entretenimento fácil. Se no filme anterior (Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, 1967) havia uma trama bem certinha onde personagens bem delineados giravam em torno do protagonista que buscava a mulher superior, agora temos o Zé do Caixão exibindo sua crueldade a torto e a direito, e só! São tantas garotas em tão pouco tempo que a motivação principal da esposa que gerará seu filho vira pó. Encarnação do Demônio parece confirmar os roteiros mal estruturados como o defeito mor do cinema daqui, não se sabe se por pressa ou falta de recursos, parecem receber pouco tratamento. A edição (só na base do picadinho!) também não nos dá tempo suficiente para que haja empatia com qualquer das vítimas a ponto dos crimes nos importarem. Entre muitas boas sacadas, os fantasmas dos filmes anteriores reaparecem em preto e branco conforme foram fotografados no passado. O grande Jece Valadão faz um policial caolho fabuloso e de tabela nos faz indagar porque filmes brasileiros desprezam tantos atores típicos da mídia. Sua morte, com o trabalho incompleto, forçou a várias (ótimas) trucagens para não eliminar o ator. Mesmo inserindo um substituto, em momento algum o resultado lembra o absurdo de Bela Lugosi em Plan 9 from other Space. Ainda no elenco (de uma forma geral bem coeso e esforçado), há dois ícones das nossas telas que merecem atenção: Cristina Aché e Helena Ignez. José Celso Martinez Corrêa, diretor de teatro, tem presença over desnecessária, em um inferno de resultado idem. Lá, convence pouco que pessoas têm seus olhos e boca costurados (de verdade!) por um capeta que usa luvas cirúrgicas, assim como a presença da morte representada de maneira bem óbvia por garota muito magra de capuz negro. Como fim de trilogia, não é a chave de ouro que merecia, como cinema, embora com seus defeitos, ainda é bem superior à maioria das tranqueiras que os norte-americanos desovam em nossas telas todas as semanas.

Encarnação do Demônio - Encarnação do Demônio

- Brasil 2008 De José Mojica Marins Com José Mojica Marins, Giulio Lopes, Milhem Cortaz, José Celso Martinez Corrêa, Jece Valadão, Helena Ignez, Rui Resende, Eduardo Chagas, Cristina Aché, Thais Simi, Cléo De Páris 98’ Horror


*** Em cartaz ***

Cotação:

23 de julho de 2008

O Exterminador do Futuro

Quando um trash dá certo, vira isso! Um clássico do cinema descompromissado. Muito mais violento e assustador que a maioria dos filmes de terror ou suspense. James Cameron colocou todo seu mettier em produções de baixo orçamento (do tipo Piranhas 2 – Assassinas Voadoras) a serviço da ficção científica. Sua competência contorna qualquer limitação financeira ou de efeitos especiais do período que ainda se mantém bem interessante em plena era da computação gráfica. Tão manjado naquela época que muitos méritos acabaram sendo relegados. Como se filmes populares não pudessem ser bons. Na história tradicional de gato e rato, cyborg super poderoso e inexpressivo (não precisa dizer que se trata do governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger...) vem de 2009 para matar o messiânico John Connor, líder da resistência humana contra as máquinas, antes mesmo dele ser gerado. Em contrapartida, humanos mandam um homem (Michael Biehn de Planet Terror) e dá pra prever no que vai dar esse servicinho de guarda costas da jovial Linda Hamilton (então esposa de Cameron e estrela da série de TV A Bela e a Fera). Os personagens são ralos, embora isso não tenha muita importância em meio a tanto barulho. É diversão de qualidade para a pipoca.

O Exterminador do Futuro – The Terminator

- EUA 1984 De James Cameron Com Arnold Schwarzenegger, Michael Biehn, Linda Hamilton, Lance Henriksen, Shawn Schepps 107’ Ficção Científica/Ação


DVD - Um filme com quase trinta anos e com tantos efeitos especiais defasados corre o risco de virar um desastre com imagem digital, mas O Exterminador do Futuro é tão envolvente que muito pelo contrário. Parece que o estamos assistindo pela primeira vez. Como a maioria dos filmes de produtoras pequenas (a falida Carolco), é comercializado em DVD sabe-se lá de que jeito. Este teve o azar da distribuição da MGM, ou seja, agora saiu pela Fox de qualquer maneira. Não há extras, e sim easter eggs! Vários mini documentários (bem) escondidos nos menus de escolha de capítulos. Mas nãos e anime. Talvez por economia de espaço, os transformaram em seqüências de fotografias (!!!), com áudio sem legendas.

Cotação:

25 de junho de 2008

A Fúria do Poderoso Chefão

Malandro é gato que já nasce de bigode... Ou que segue esses filmes blaxploitation quase como um manual de sobrevivência na selva. Ali não há lugar para mocinhos contra bandidos. Há os menos bandidos contra os bandidos e ponto! Se há uma ceninha de sexo com a moçoila de peito desnudo nos braços do menos bandido, na sala rolando um disco de soul, pode apostar que ela será seqüestrada pelo malvado logo depois. Essas produções sui generis fizeram a alegria de gerações passadas, quando o negro se viu finalmente em papel de protagonista na tela grande. Quase sempre de qualidade técnica muito pobre (com raras exceções), alimentaram as programações dos chamados cinemas grindhouse do subúrbio norte americano. A Fúria do Poderoso chefão é exatamente isso, repleto de gírias, luta de rua, e mulheres quando muito sendo chamadas por piranha, vagabunda, etc. J.J. é um ladrãozinho pé de chinelo que ao sobreviver a assalto mal sucedido tem, sabe-se lá como, seu talento reconhecido pelo chefão máximo do crime em seu bairro. Daí, assim, na lábia, se fortalece a ponto de abrir verdadeira guerra contra um traficante (branco!) de heroína. Ele vende maconha, o branco arrogantíssimo vicia crianças com heroína e merece morrer! Tudo com fotografia acidental, cílios postiços, calças bocas de sino e o memorável Black Power. Quando um chama o outro de “Nigro!” pode esperar que lá vem porrada. É involuntariamente engraçado, embora necessite de boa vontade para se assistir até o fim tamanho os solavancos que vão acontecendo no roteiro sem maiores explicações. Preste atenção nas vezes em que a sombra da câmera aparece, e o estalo do “herói” quando decide contar com as empregadas domésticas para espionar os patrões branquelos.

Um A Fúria do Poderoso Chefão – The Black Godfather

- EUA 1974 De John Evans Com Rod Perry, Damu King, Don Chastain, Jimmy Witherspoon, Diane Sommerfield, Duncan McLeod, Tony Burton 94’ Ação/Blaxploitation


DVD - Dizem que essa líder já até dançou, o que não entendo porque nos créditos minúsculos da contracapa está escrito ser London – WorksDVD. E pra variar (erh...) nem um pio sobre os detentores dos direitos originais. A sinopse da embalagem ainda o aponta como um dos clássicos da Blaxploitation, lado a lado de Blackula e Shaft, o que obviamente não é verdade, e ainda o chama de “O Poderoso Dragão Negro”. O produto interno chega a ser constrangedor. A imagem está muito ruim, escura e desbotada, o que no caso até dá charme, inclusive na cena de sexo, quando fica mais granulada dando a impressão de que vai ser cortada. Os menus parecem ter sido feitos no Paint Brush, há erros grosseiros aos montes na legenda. Alguns de digitação, outros (Juiz com “esse”!) deslizes gramaticais mesmo. Arriscaram uma faixa de áudio em português, daquelas dublagens de fundo de quintal que simplesmente apagam o fundo musical, que, aliás, é uma das graças desse gênero. Resta uma dúvida que me consome há anos. Porque estas distribuidoras pequenas fazem sempre uma economia danada na hora de dividir os capítulos? No máximo 5 ou 6.

Cotação:

15 de abril de 2008

Carmilla – A Vampira de Karnstein

Os tempos eram outros, e a Hammer estava no vermelho. Não o vermelho do sangue que Drácula tanto degustou e que fez a fama do estúdio inglês, mas vermelho financeiro e era preciso modernizar seus monstros. Quem ainda iria ao cinema ver castelos góticos com tantos hippies gritando a chegada da nova-era? Uma condessa diabólica e sua família de vampiros que de tempos em tempos desperta parecia ser o motivo ideal para mostrar o antigo sexo frágil em busca dos seus desejos, de preferência, claro, usando esvoaçantes camisolas transparentes. Joseph Sheridan LeFanu lançou o romance Carmilla antes de Bram Stoker dar ao mundo Drácula e embora seja menos famoso que o sucessor traz o diferencial da protagonista feminina. De extremo erotismo lésbico, é um divisor de águas no estilo rococó da Hammer com violência mais explícita e farta exibição de seios femininos, sem perder a classe costumeira ao diretor Roy Baker. A produção de visível pobreza não compromete nem se reflete danosamente no desenrolar da história divertida fazendo bom uso da óbvia apologia ao cristianismo como todo filme de sugadores de sangue que se preze. O estúdio faria mais duas películas com Mircaela/Carmilla (Luxuria de Vampiros e As Filhas de Drácula), mas fora a personagem, não há relação entre eles, nem mesmo o elenco, portanto não tem lógica chamá-los de trilogia. Este alçou à categoria de estrela sua atriz principal, a polonesa Ingrid Pitt, considerada tão iconográfica para o horror quanto Christopher Lee ou Peter Cushing, só pra citar dois nomes da Terra da Rainha. Mas não é a única celebridade do elenco! Temos ainda a sexy Kate O’Mara, implorando tragicamente pra ser vampirizada depois de noites de amor com Pitt. Cult até o talo!

Carmilla – A Vampira de Karnstein – The Vampire Lovers

- Inglaterra 1970 De Roy Ward Baker Com Ingrid Pitt, George Cole, Kate O’Mara, Peter Cushing, Dawn Addams, Madeline Smith, John Forbes-Robertson 90’ Horror


DVD - Um dos primeiros a ser distribuído pela London Films (Works DVD) tem uma arte de capa bem bacaninha, mas parece não indicar a importância de seu conteúdo já que ainda o achamos ele até por cinco reais. Está com a imagem em tela cheia com problemas de brilho e contraste, bem diferente dos outros que lançaram da Hammer. Na contracapa diz que vem com o trailer do cinema, mas no menu principal está escrito que se trata de Drácula, Príncipe das Trevas. Ao se clicar, surpresa! É na verdade é o de Drácula no Mundo da Minissaia! Aliás, nunca comercializado em DVD.

Cotação:

12 de abril de 2008

O Fantasma

Corajosa mistura lusitana de drama e sexo explicito! E vem dessa coragem a delícia ou o martírio de tal produção. Seja por repulsa ou desejo, sacanagem escancarada em filme sério só serve pra atrapalhar a atenção na história. Mas a propósito, que história há pra ser assistida aqui? Lixeiro de Lisboa meio que vai se metamorfoseando em cachorro ao dar ouvidos ao seu tesão mais primário, e pronto! Só! E não tem realmente mais nada além disso, por uma hora e trinta minutos que parecem oito!!! Existe uma cena de sexo explícito oral entre dois homens e várias de nudez masculina frontal, o que pode ser uma excelente desculpa para o diretor nunca mais ter feito nada, pelo menos tão famoso quanto este O Fantasma. Na época em que saiu, foi exibido no Brasil numa mostra e causou certa barafunda na imprensa, hoje se sabe que mais pelas cenas ousadas do que por seus predicados artísticos. O valente estreante Ricardo Meneses, em cenas de sexo fortes com outros homens, também não voltou a trabalha na área, teria abandonado a carreira, segundo o IMDB, voltando a morar na zona rural com sua mãe. É uma oportunidade raríssima de se assistir a um filme português, que mesmo ao lado da Espanha, aparenta ter uma produção irrisória, ou que faça barulho o suficiente para a gente ouvir deste lado do oceano.

O Fantasma – O Fantasma

- Portugal 2000 De João Pedro Rodrigues Com Ricardo Meneses, Beatriz Torcato, André Barbosa, Eurico Vieira 90’ Drama


DVD - Os guias de VHS e DVD indicam que foi lançado em ambos os formatos, mas parece não ter tido uma distribuição a contento! Minha edição é Zona 2(Europa), e na contracapa vem com um selo de autenticidade parecendo aqueles que lacram maços de cigarro. Escrito “interdito o aluguer”... Há vários extras, como trailers de outras produções da tal Filmes da Rosa e o teste do ator principal, bem moleque, morando na cidade grande há pouco tempo, cheio de sonhos, o que entristece saber sua atual vida. Ainda cenas deletadas, o curta-metragem Parabéns, do mesmo diretor que também não é nada espetacular e uma faixa multimídia. Esta vem com muito material legal do tipo pôsteres em JPG de alta resolução, texto em .doc, etc. Durante o filme, o elenco fala muito rápido para nossa compreensão, então as legendas em português são um alívio em muitas momentos.

Cotação:

9 de abril de 2008

A Noite do Desejo

De cara parece uma versão pornochanchada de Noite Vazia, ou mais com jovens boa praça em busca de prazeres fugazes na noite, como o cinema brasileiro produziu às toneladas. Lentamente as cartas vão sendo mostradas com uma sensibilidade acima do que normalmente vinha da boca-do-lixo. Dois pés rapados juntam dinheirinho para cair na gandaia do centrão de São Paulo onde se envolverão com prostitutas e pederastia de uma forma bastante intensa e reflexiva. Para resolver o desfalque de algumas seqüências, retiradas por problemas com a censura, criou-se uma trama paralela, com um pacato cidadão indo resgatar sua amada da capital aonde vive de trottoir. Sua intenção é clara, quer fazê-la recordar dos bons valores familiares do interior. Em apenas uma pequena seqüência os personagens se cruzam, uma ousadia, não de sexo, mas de narrativa. Ousada também a edição, assinada pelo diretor e (pasme!) Inácio Araújo, um dos melhores críticos de cinema em nossa língua. Todo o filme é entrecortado por momentos nem sempre claros de espaço, tempo e personagens. Desde os créditos iniciais, por exemplo, vê-se a polícia em diligência, mas não se sabe para qual das sub tramas se dirigirá em crescente tensão até o sanguinolento final, de fazer Tarantino babar, com a mesma cena mostrada de inúmeros ângulos. Mais? Pelo ano em que foi feito, mesmo com tantas qualidades cinematográficas, ainda tem de bônus todo o aspecto visual 70’s, com as mocinhas de peruca e cílios postiços chamando os machos de “benzinho”, trilha sonora com alguns tangos, música progressiva e efeitos sonoros bizarros... Vencedor de alguns prêmios quando finalmente pode ser lançado de forma satisfatória em 81, permanece com espantoso vigor.

A Noite do Desejo – A Noite do Desejo

- Brasil 1973 De Fauzi Mansur Com Ney Latorraca, Marlene França, Ewerton
de Castro, Francisco Curcio, Roberto Bolant, Selma Egrei, Betina Viany, Carlos Bucka 113’ Drama


DVD - Sei lá o que falar deste disco, porque filmes brasileiros desta época são tão raros que a sua existência já é um bônus... Não há nada de extras além de uma galeria com screenshots no menu único que tem mais dois botões. O primeiro escrito “filme” e outro com “capítulos”. A imagem em tela cheia está relativamente boa, á vezes com alguns arranhões.

Cotação: