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16 de setembro de 2008

Laranja Mecânica

Não só se manteve bendito/maldito por todos estes anos, como uma excelente demonstração de como um livro deve ser adaptado ao cinema. Kubrick pegou o romance de Anthony Burgess e limou aqui e ali, aumentou acolá, conseguindo extrema fidelidade sem ser chato. Até as gírias, que obrigam o leitor a ficar o tempo todo recorrendo ao glossário das últimas páginas, estão em sua maioria presentes, embora com sutis explicações visuais. Alex, o pequeno delinqüente mais inteligente do que qualquer outro personagem, parece muito mais carismático e de duvidosa identificação com a platéia. Sorrateiramente as vítimas têm destaque quase nulo após suas barbáries. Não é um filme, aliás, sobre vítimas, mas sobre o perigoso jogo de dominação e dominado, que nos lembra que absolutamente todos nós fazemos parte do chamado sistema. A engrenagem que roda infinitamente criando lobinhos para depois os converter a doces cordeirinhos e vice versa. Hermético, de incontáveis paralelos, foi polêmico desde quando lançado, permanecendo proibido na Inglaterra pelo próprio cineasta após algumas ameaças de delinqüentes juvenis. E a vida nunca imitou tanto a arte quanto com Laranja Mecânica. O futuro próximo já virou passado e presente... Dando ritmo ainda mais épico, a chocante trilha sonora de Walter Carlos abraçada a Beethoven, Rossini e Terry Tucker.

Laranja Mecânica – A Clockwork Orange

- Inglaterra 1971 De Stanley Kubrick Com Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, Adrienne Corri, Aubrey Morris, Sheila Raynor 136’ Ficção Científica


DVD - A edição dupla e restaurada dá a sensação de estarmos vendo um filme inédito, tamanha quantidade de novas nuances notadas. É triste que os extras do primeiro disco (faixa de comentários de um historiador, de Malcolm McDowell e o trailer original) estejam sem legendas em português. Tal desleixo desmerece o titulo de edição especial, já que custa mais do que a versão simples vendida antes. O segundo disco tem apenas três documentários bons. Um com o impacto cultural da obra, outro menos feliz sobre os bastidores e um terceiro de uma hora e meia sobre a carreira de McDowell.

Cotação:

4 de setembro de 2008

Spartacus

Kubrick e Kirk Douglas deixaram sua marca indelével neste espetáculo literalmente colossal. Dá pra sentir a mão genial do diretor em inúmeras tomadas milimetricamente calculadas, assim como a mão de chumbo do ator-produtor, num personagem principal maniqueísta e bidimensional. Se um busca realismo gráfico, o outro a aprovação da platéia média, que há pouco tinha aplaudido Ben-Hur e vários épicos, além de se firmar como estrela de primeira grandeza. O trabalho de um aponta para uma obra prima, o do outro apela às soluções populares. De qualquer forma, os primeiros 40 minutos, durante a escola de gladiadores, são tão empolgantes que compensam qualquer outro momento enfadonho. A existência da disputa política, mais arrastada do que devia, é outra óbvia concessão para a exploração das estrelas presentes no elenco. E claro, Sir Lawrence Olivier, o imperador bissexual e maquiavélico, rouba a cena! Seu personagem é quase palpável de tão complexo. Spartacus, o escravo que se rebela contra o regime opressor e utopicamente cria seu próprio exército de ex-escravos, ao contrário dos filmes similares, não toca em cristianismo, sua história se passa bem antes do nascimento de Jesus. Embora toda a benevolência do herói lembre a trajetória do Salvador, faz mais paralelo com a situação assustadora de castração ao qual intelectuais do período conviviam em plena era Carter.

Spartacus – Spartacus

- EUA 1960 De Stanley Kubrick Com Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin 198’ Drama/Ação


DVD - A cópia da Universal (que tem minutos a mais) não está tão restaurada quanto deveria, muitas vezes chega a aparecer saraivada de rabiscos pretos. Incluíram um pequeno livreto sobre a obra, o que é sempre bacana para se saber mais, mas não vem com nenhum documentário ou material exclusivo. A maioria dos extras é proeminente de outras vezes em que foi comercializado. Até as duas faixas de comentários são sobras. A do restaurador entrega o jogo ao tratar o telespectador como consumidor de LD. Tudo está legendado em português, inclusive os dois comentários, e as ótimas cenas deletadas.

Cotação: