13 de fevereiro de 2006

O Guia do Mochileiro das Galáxias

É a história da minha vida: provar que não sou tão inteligente quanto pareço ou estúpido como muitos querem acreditar. E esta adaptação do livro cult de Douglas Adams veio para me deixar em dúvida também. É muita, muita, muita (MESMO!) informação em 109 minutos, o que o deixa parecendo possuir 218 minutos, acabando por diluir boa parte das boas idéias. Talvez o grande erro seja a fidelidade extrema ao livro, tão alardeada pela imprensa especializada à época de seu lançamento. Não há tempo suficiente para se digerir tudo o que passa na tela. A trama vai ficando com sérios lapsos de continuidade em nossa cabeça dando uma espécie de irritabilidade a partir da metade. Como comédia falta nos fazer rir, ou se nos faz, faz muito pouco, como ficção científica não apresenta quase nada de novo e como ousado filme existencialista peca pelo ritmo. Não dá pra comparar ao livro, já que nunca o li, mas com suas boas intenções parece um bom aperitivo a ele, mas você sabe o que está cheio das mesmas...

O Guia do Mochileiro das Galáxias – The Hitchhiker’s Guide To The Galaxy
- EUA/Inglaterra 2005 De Garth Jennings com Martin Freeman, Bill Nighy, Sam Rockwell 109’ Comédia


DVD - Assustadoramente divertido e competente em apenas um disco. Os menus confusos de design retrô casam perfeitamente com o estilo do longa em si. Nos deparamos com dezenas de coisinhas curiosas e bacanas, o que dá para se entreter mesmo depois do flop, mas não o suficiente para se comprar o DVD.

Cotação:

11 de fevereiro de 2006

As Panteras Detonando

E as platéias costumam ser cruéis! O primeiro As Panteras foi aquele estrondo de bilheteria. Elogiava-se até o que havia de pior nele, o roteiro sem mínimo nexo, e Bill Muray que parecia fazer um outro filme sem ter sido avisado. Alguns anos depois, como todo blockbuster que se preze, veio a seqüência, com muito mais grana, roteiro mais enxuto, e... simplesmente não aconteceu. Não que este valha mais que o outro. No fim ainda vem a sensação de se ter entrado em um brinquedo de parque de diversões de feira: foi legal pra cacete, ok, mas e daí? Em se tratando de um arrasa quarteirão, isso não é pouco. Cumpre competentemente sua missão de divertir. O triste é que o público está tão acostumado com o óbvio ululante que para indicá-lo é preciso dizer que é uma brincadeira, não se deve levá-lo a sério como representação da realidade, tal e qual com Kill Bill, guardando as devidas proporções artísticas, claro. Embalado na mais pop das culturas com humor e auto-crítica, é preciso ficar atento às inúmeras referências. Temos até Demi Moore, finalmente, em um grande desempenho fazendo papel de vaca.

As Panteras Detonando – Charlie’s Angels: Full Throttle
- EUA 2003 De MCG com Drew Barrymore, Lucy Liu, Cameron Diaz, Demi Moore 105’ Ação


DVD - Mesmo em edição standart (e provavelmente wide não será lançado tão cedo) é um daqueles disquinhos fetiche que independente do filme em si rodarão inúmeras vezes em seu DVD player. Extras bem caprichados esmiuçando os mais diversos aspectos da produção. Só não consegui achar a tal cena excluída onde o brasileiro Rodrigo Santoro teria a tão comentada fala. Reveja o filme na opção Visão Pantera e descubra pequenas curiosidades sobre os mais absurdos temas. Boa dica é colocar o DVD no drive do PC porque alguns (são muitos!!!) dos easter eggs só dá pra acessar por lá.


Cotação:

28 de dezembro de 2005

Dois Filhos de Francisco

Este filme se tornou um fenômeno tão popular que até dá um certo (e confesso esnobe) constrangimento assisti-lo ou até mesmo assumir tê-lo visto. É quase como assumir assistir aos domingos o programa do Gugu, ou dar algum crédito ao famigerado Domingão do Faustão... Mas uai, gosto de filmes de qualquer natureza, e claro que a cinebiografia da irritante dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano não passaria batida por mim. E se as milhares de pessoas estiverem certas? E se aqueles elogios na imprensa (inclusive a revista Set) não forem um deslavado jabaculê? Caraca, o primeiro sinal de que não estava errado foi que as mais de duas (!!!) horas de película me pareciam oito! Uma pieguice rala, a que nem interpretações afinadas como as do eterno Beija-Flor Ângelo Antônio ou da talentosíssima Dira Paes conseguem dar um verniz menos enfadonho. E começa bem, com uma vidinha rural, moda de viola tocando no radinho de pilha, mas daí pra descambar ao lugar-comum é um pulo. Claro que com patrocínios como os que tiveram não dá pra alguém falar mal daquele maniqueísmo típico de qualquer telenovela. Quem sabe está aí a chave para o inusitado sucesso. A "inteligência" média ama assistir a algo de que já sabe o final. Talvez como a psicologia infantil, que permite rever o mesmo desenho animado inúmeras vezes, assim o infante se sente seguro. Segure o riso, se for capaz, para a aparição de um ônibus com logo da prefeitura de Marta Suplicy em plena década de 80! Falando nisso, triste é imaginar que após o sucesso, pessoas de passado tão humilde se submetem a subir a palanques políticos em troca de polpudos cachês como revelaram os recentes escândalos. Escreve o que eu digo, ou melhor, dá um control C e depois um control V nisto: Não me faça gargalhar imaginando uma indicação ao Oscar, e se porventura o lobby da Columbia for absurdamente forte, não há a mínima chance de a estatueta dourada vir ao Brasil em 2006! Se os yankees já são fechadíssimos a qualquer outra parte do mundo, imagina se vão digerir um roteiro picado e óbvio sobre dois latinos desconhecidos que possuem como único mérito terem vendido milhares de cópias de música muito ruim. E não caia você no conto de que, gostando ou não da dupla, o filme se segura por si. Volta e meia o telespectador é incomodado pelos gritos esganiçados deles, o que distrai a atenção exatamente nos pontos em que a trama ameaça se perder por completo. Fora o lamentável fato de uma criança morrer em um acidente, nada de realmente extraordinário. E nesse ponto, a gota d'água do desinteressante é a partir do casamento com a Zilu, interpretada por uma caricata Paloma Duarte de grampinhos na cabeça, bem diferente daquela emergente que hoje exibe na páginas da revista Caras todo o seu mau gosto ao pintar notas musicais em dourado na parede da sala. Há histórias de vida tão mais relevantes...

Dois Filhos de Francisco
- Brasil 2005 De Breno Silveira com Ângelo Antônio, Dira Paes, Paloma Duarte, Dablio Moreira 119' Drama


DVD - Edição bem pobrinha de extras, provavelmente saída de Sítio Novo. Hehehe. Vem com escassos erros de filmagem, documentário sobre os cantores entre outras desnecessidades, visivelmente foi lançada às pressas para a época natalina e tentar (hehehehe parte 2) conter as vendas dos piratas. Aliás, pensando bem, pra guardar historicamente, a edição pirata seria mais interessante. Pensou contar pra seus filhos que o presidente da época, blábláblá?

Cotação:

19 de dezembro de 2005

Efeito Borboleta

Ao fazer qualquer comentário sobre este filme corre-se o risco de ser preconceituosamente injusto. A começar pelo astro principal, Ashton Kutcher. Difícil levar a sério alguém que surgiu interpretando o estúpido Kevin na série televisiva That 70's Show, e depois, ao ir para a tela grande, optou sempre por fazer espécies de "releituras" deste mesmo arquétipo e tem ainda as freqüentes aparições na mídia fofoqueira a tira colo de Demi Moore. O tema também, viagem no tempo, não lhe dá muitos créditos, ainda mais com a roupagem "para leitoras de Capricho" do material promocional, mas enfim, o que assistir em uma banal noite de quarta? Longe de ser um filme ruim, a ousadia no roteiro e direção de Eric Bress e J. Mackye Gruber seguram bem a diversão. Simplesmente não para terminar de assisti-lo sem se pensar na possibilidade de voltar também ao passado e dar uma arrumadinha em coisas pendentes. Nota-se que tudo poderia ser mais cabeça, inclusive na teoria do caos (o motivo para o título emblemático), mas qual produtor correria o risco de perder as verdinhas de adolescentes a fim de ver apenas um romance com o futuro astro Kutcher? Outra derrapada é o menino malvado ser minúsculo e mesmo assim descer o sarrafo em meio mundo, além, é claro do poder de retroceder no tempo tornar-se, nos momentos finais, uma espécie de pó de pirlimpimpim. O rapaz volta inúmeras e inúmeras vezes quando bem entende, chegando a mandar ao espaço (graças a alguns furos) toda a trama antes inteligentemente amarrada. No balanço geral, ao fim do filme, acabamos por não saber se é um ótimo filme com momentos ruins ou um filme ruim com momentos ótimos.

Efeito Borboleta (The Butterfly Effect)
- EUA 2004 De Eric Bress e J. Mackye Gruber com Ashton Kutcher, Amy Smart 113' Suspense


DVD - Se levarmos em conta os menus, é um tanto quanto amador em sua simplicidade, mas o arrojo do conteúdo eleva a cotação, como alguns curiosos documentários sobre viagens no tempo, e filmes sobre o mesmo tempo. Imperdíveis as cenas deletadas ou alternativas. Há dois finais diferentes além do que entrou na edição final. Tudo poderia ser muito pior...

Cotação:

6 de dezembro de 2005

O Chamado 2

Remakes de horror japonês possuem por si muito mais mistérios do que jorram em suas tramas. Tome por exemplo esta seqüência do sucesso de 2001, que demonstra, não sinal de cansaço da fórmula, mas a formação de um gênero à parte com a possante capacidade de auto-citação antropofágica. Se o dirigido por Gore Verbinski usava apenas como argumento o fantástico original asiático, tendo a inteligência de ir mais além na criação do mito Samara Morgan, este também bebe naquela fonte (o diretor é o mesmo Hideo Nakata) e ainda dialoga com dúzias de outros títulos, o principal deles sendo Dark Water, assinado novamente por Nakata. Dark Water (o original de 2002) estranhamente herdava em seu plot muito mais da fita feita pela DreamWorks (The Ring) do que de Ringu. A carência maternal, o fantasma possessor, a mãe ausente, a água como símbolo do transcendental, etc. Estreando em Hollywood, Hideo Nakata (um dos homens mais influentes da atualidade segundo a revista Time) salpica boa parte deste filme (refeito por Walter Salles recentemente) nesta produção falada em inglês. Assim, pinça o que de melhor surgiu na trajetória de fantasmas femininos, cabeludos, descartando algumas coisas. A maldita VHS agora tem importância quase nula. Sinal da presença da garota malvada são águas, de preferência as escuras! E também há dezenas de citações a clássicos americanos de outros tempos. O Iluminado (The Shining) poderia ser a mais gritante, se não tivéssemos agora a certeza de que Carrie, A Estranha, é a antecessora de Samara (Sadako no original), e quanto a isso não é possível se falar mais sem estragar surpresas. Muito longe do filme de 2001, mas nem tão ruim quanto falaram, mesmo com freqüentes erros de continuidade. Apenas trocou-se o horror pelo suspense, respeitando o personagem principal na medida do possível. O medo nestas obras prova aqui ser cíclico e infinito como se fizesse parte de uma coisa só, independente de qual filme seja, como uma aparentemente desconexa série macabra. Samara, Sadako, Kayako,Toshio ou Mitsuko pouco importa. A originalidade não se impõe no argumento, mas em imagens fortes e inovadoras e, neste ponto, se percebe que atrás da câmera há um japonês. Eles vieram para nos lembrar de que cinema é imagem e, quanto a isso, são mestres absolutos.

O Chamado 2 (The Ring Two)
- EUA 2005 De Hideo Nakata com Naomi Watts, Simon Baker, David Dorfman, Elizabeth Perkins, Sissi Spacek, 111’ Suspense

DVD - O principal atrativo é um curta mostrando fatos que antecedem o longa, com muito mais espírito do filme anterior. Fora isso o básico do básico, com alguns documentários mixurucas e curtos. Atenção a um ótimo easter egg escondido na setinha da tela de extras.


Cotação:

28 de novembro de 2005

Cecil Bem Demente


Cecil B. Demented só chegou às minhas mãos depois de 5 anos de lançamento. Há dois meses A Dirty Shame (o mais recente John Waters) ganhou o título de O Clube dos Pervertidos e saiu diretamente em vídeo. Já o viu em algum lugar? O humor em Cecil veio logo na compra: Blockbuster! Da mesma forma que achei surreal demais comprar ingressos para ver um Tim Burton das mãos de uma anãzinha de braços felpudos, este veio inesperadamente do reino dos filmes "família". "Família é eufemismo para censura!", brada um dos personagens a certa altura. Pronto! Tornou-se meu atual filme de cabeceira. Um dos hits de minha filmoteca visto e revisto, com a trilha sonora (com Moby!) martelando a toda hora! O melhor Waters desde Polyester (1982), pode ter certeza. E o mais bizarro (como se houvesse poucas coisas bizarras na filmografia dele) é que é uma espécie de retrocesso na carreira. Sabe quando você abre um jornal ou um destes portais de notícias e lê que o novo Almodóvar é o filme mais maduro de sua carreira e sente um frio na espinha? E isso a gente lê quase sempre, né? Pois é, este é exatamente o contrário, tecnicamente falando. O diretor inclusive usa o arcaico recurso de tela dividida em duas quando os personagens estão ao telefone. Não há novidades em enquadramentos e a fotografia não é mais a "chapada" e comercial dos seus anteriores como Mamãe é de Morte ou Cry Baby, sendo muitas vezes até bem ruim. O plot é um primor do óbvio, mas pra lá de bem resolvido. Cineasta adolescente underground, junto com sua gangue, seqüestra famosa atriz de Hollywood para obrigá-la a estrelar seu filme classe Z. Exatos 50 anos depois de Billy Wilder gerar a obra-prima Crepúsculo dos Deuses (você TEM que ver este!) cuspindo na cara da burguesia hollywoodiana, Waters bebe na mesma fonte, fazendo talvez o melhor filme sobre filmes desde que Norma Desmond se declarou pronta para seu close up!!! Ah, e como queria também bater boca com velhinhas comedoras de jujuba saindo de uma seção da versão autoral de Patch Adams, ou ameaçar aquele diretor que fez aquela versão americana horrível daquele filme europeu maravilhoso! Melanie Griffith, com vozinha da Madonna cinematográfica que conhecemos tão bem, não poderia estar melhor. Arrogante, vil, e depois a indefesa mártir e diva do bom cinema, seja ele qual for. Claro que se você morre de rir assistindo a versões cinematográficas de programas de TV lançados pela hedionda Globo Filmes, não assista este filme, nem tampouco nenhum outro do diretor. Aliás, vá se tratar! De resto, entre no espírito natalino, saiba o que é uma pilha humana, aprenda a cantar jingle balls, jingle balls... E grite: Morte ao cinema ruim!

Cecil Bem Demente (Cecil B. Demented)
- EUA 2000 De John Waters com Melanie Griffith, Stephen Dorf, Alicia Witt, Mink Stole, Ricki Lake 88' Comédia

DVD - Caretinha (como todos os lançamentos da Europa Carat), mas visivelmente esforçado para se tornar uma edição boa. Menus ok, e nos extras dois trailers bacanas pra chuchu e um longo especial com Waters feito para o canal Comedy Central, que pode não ser a 8ª maravilha, mas iria correr gravar se visse na TV e ainda só houvesse VHS na parada.

IMDB: http://us.imdb.com/title/tt0173716/

Cotação:

19 de novembro de 2005

A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005)

Tim Burton é Deus!!! E, passado o susto, já dá pra confessar que torci o nariz quando soube que ficaria a cargo de Tim Burton uma nova versão para A Fantástica Fábrica de Chocolate, popular livro infantil inglês, levado às telas em 1971 com bastante sucesso. O diretor vinha de uma série de fracassos de bilheteria, mas, claro, absolutos sucessos artísticos, como A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Marte Ataca! e, mais recentemente, o morno Peixe Grande, o que poderia demonstrar que os executivos do cinemão yankee estavam-no relegando a projetos de segunda classe. Que tristeza ver a competente refilmagem O Planeta dos Macacos sendo massacrada... Nem queria imaginar o que poderia vir com um clássico cult sendo refeito nos dias de hoje. Realmente, aos cuidados de uma mente menos astuta, poderia ter ficado só mais um filminho para passar "inédito" na Sessão da Tarde, repleto de pirralhos com texto decorado, mas é um Tim Burton até o osso. Talvez o mais Tim Burton em muito tempo, com fotografia cinza desbotado, personagens marginalizados, árvores retorcidas, a abertura semelhante a Edward Mãos de Tesoura, as viajantes citações cristão-pagãs, e aquela sensação de que, se alguém guardou um cadáver no armário, não foi sozinho! Primeiro ponto positivo foi a total recusa a mostrar parentesco com o filme anterior. Não encontrei, até agora, nenhuma referência que seja, talvez porque o diretor tenha dito em inúmeras entrevistas que não gostava do resultado anterior, pouco fiel ao livro e que, portanto, não seria uma refilmagem, partindo da estaca zero na concepção. Declarações estas que estão suprimidas das entrevistas (leia abaixo) no material extra do DVD, já que ambos os filmes são da Warner, que também relançou, em versão digital, o clássico para quem quiser comparar. E era de se esperar que Willy Wonka, encarnado por Johnny Depp, fosse salvar o filme de um possível desastre. Como o resultado geral está a anos-luz disso, o que se vê é um personagem riquíssimo que nos dá calafrios e, logo depois, nos faz gargalhar, façanha para poucos atores da atualidade. O engraçado é que o de 71 chamava-se Willy Wonka and The Chocolate Factory, este é Charlie and The Chocolate Factory, como se chama o livro, mas agora o dono da fábrica tem muito mais importância do que o menino, com sua história pessoal chegando a conduzir muitas vezes toda a trama. Os personagens mirins também tiveram substanciais mudanças de comportamento. Se, no anterior, praticamente só a riquinha Veruca Salt era a vilãzinha do grupo e os outros tinham pouquíssimos pecados (fora o fato de estarem dispostos a entregar os segredos do senhor Wonka a um misterioso concorrente), aqui todos os quatro (exceto Charlie, claro) são insuportáveis levando suas compulsões ao extremo. Sempre me identificava com o Mike Teavee, mas agora... Oh, oh! E como todo trabalho do diretor, a cada assistida dá pra notar coisas incríveis antes despercebidas, principalmente a enxurrada de referências cinematográficas, tendo como as mais óbvias 2001, Uma Odisséia no Espaço e Psicose. Olho vivo para Ben-Hur, Psicose, O Chamado, cartoons de Charles Schulz, Hair e até o cumprimento dos adoráveis Oompa Loompas foi pinçado de Plan 9 From Outer Space. E a trilha sonora? O velho e bom Danny Elfman se renova sendo o mesmo! Deus, só a alma mais gélida não terminará de assistir sem sair cantarolando a canção dos Oompa Loompas para Augustus Gloop. Com o DVD você agora tem a oportunidade não só de cantar como um Oompa Loompa, mas de aprender a dançar como eles! Por um triz tascaria ali em baixo, na cotação, uma "obra-prima", se não fosse a esticadela no final. Ao invés de acabar com o pequeno Charlie, agora rico, há ainda uma resolução do drama familiar de Wonka. Desnecessário! Aliás, o passado de quem coloca uma balinha na boca e a transforma em um passarinho não mereceria explicação alguma. Mas como bem se sabe, o criador nem sempre é perfeito...

A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and The Chocolate Factory)
- EUA 2005 De Tim Burton com Johnny Depp, Freddie Higghmore, Noah Taylor, Chritopher Lee 115' Aventura

DVD - Daqui mesmo da net compre agora! O disquinho prateado mais fantástico que já vi até agora. E olha que já vi muuuuuuitos! Mas nenhum com o elenco filmando cenas só para os menus. Todos confusos, mas encantadores! Os extras no segundo disco nos trazem alguns joguinhos viciantes (mesmo para maiores de 12 anos!), e alguns documentários imperdíveis, além de surpresinhas no caso de você possuir DVD-Rom! Aliás, logo no menu dos documentários tem um easter egg. Falta a faixa de áudio de comentários com Tim Burton, mas já não disse que o criador nem sempre é perfeito?

Cotação:

15 de novembro de 2005

Os Homens Preferem as Loiras

Esta deliciosa farsa em reluzente Technicolor sobreviveu não só pelo humor atemporal, mas por ter uma jovem em ascensão chamada nada menos que Marilyn Monroe. Este último motivo sozinho já a tornaria obrigatória para quem ama cinema, ou para quem tiver a curiosidade de conhecer um pouco mais sobre a construção de um mito, uma lenda única, imitada, admirada, reverenciada e referenciada eternamente. Coube a Howard Hawks dirigir este seu primeiro mega sucesso. Para isso junto à novata Monroe, Jane Russell, uma antiga queridinha sua, divide os créditos. Em O Proscrito (que seria dirigido por ele, sendo substituído por Howard Hughes) de 1943, Russell foi a primeira mulher a participar de um faroeste em um papel que não era meramente figurativo. Entrou assim para a história logo em seu filme de estréia. Ou seja, neste Os Homens Preferem as Loiras, já poderia ser considerada uma veterana (seu nome vem antes do da colega na abertura e material promocional), e nem por isso ofuscou, ou deixou-se ofuscar. Química! Diga-se de passagem, não há notícias sérias de rivalidade nos bastidores, e nem no roteiro, ao contrário do que o título possa sugerir tanto em português, quanto no original. Fato que denota a percepção de que (em seu 20º filme!!!) a loira teria seu tão sonhado estouro de bilheteria. O diretor já havia trabalhado com ela no ano anterior, em Monkey Business (O Inventor da Mocidade), e soube agora (talvez apenas como Billy Wilder) capitalizar o seu eminente talento e sex appeal em uma interpretação memorável. Marilyn está afinadíssima como a material girl de plantão (consegue alternar instantaneamente glamour, humor refinado e imediatamente uma sexualidade explosiva), mas ainda bem longe do trabalho memorável que nos mostraria anos depois, a partir de Bus Stop (Nunca Fui Santa). Talvez porque em 1953 ainda estava sob as rígidas orientações de Natasha Lytess, sua primeira professora de arte dramática. A trama (até que bem simplista) gira em torno de Dorothy (Russel) e Lorelei (Monroe), dançarinas norte-americanas que viajam à França: uma atrás de homens musculosos, a outra, de uma polpuda conta bancária e muitos diamantes, respectivamente. Baseado em uma peça teatral, esta caprichada produção da Fox nos proporciona ótimas piadas, muitas delas vindas de situações, e claro, interpretações estonteantes das protagonistas. Talvez a profissão das moças seja desculpa para alguns números musicais, mas que números musicais!!! Desde os créditos iniciais, com as duas cantarolando suas pobres infâncias em Little Rock, a um inacreditável e hilariante de Russel e a comitiva olímpica em trajes sumários. E falar de Diamonds Are a Girl's Best Friend sempre é chover no molhado. Cada frame dele dá vontade de transformar em um quadro gigantesco e pendurar na parede. Poderia ser mais uma comedinha antiga e tola em cores berrantes, mas é um clássico delicioso não só por suas qualidades próprias.

Os Homens Preferem as Loiras (Gentlemen Prefer Blondes)
- EUA 1953 De Howard Hawks com Marilyn Monroe, Jane Russell, Charles Coburn 91' Comédia

DVD - Lançado em 2002 juntamente com muitos outros de Marilyn Monroe em uma coleção chamada Diamond Collection durante o 40º ano de falecimento da estrela, pela sua existência já merece festejos. Praticamente idêntico ao lançado no exterior (raridade!), ainda nos dá a agradável surpresa de ter um cine jornal da época, quando as duas protagonistas deixaram suas marcas na calçada da fama, não descrito na embalagem. Também o áudio é apenas em espanhol (antigo) e em inglês estéreo, sendo que a versão gringa contém o mono original. Poder ver o trailer original também já nos emociona, mesmo sem legendas e imagem podre, e os menus estáticos são outra coisa que pode ser perdoada só pelas fotos belíssimas de Monroe que os ilustram. A imagem restauradíssima deixa toda a película muito mais viva literalmente, e os diamantes finalmente brilhantes como devem ser. Como falar mal deste DVD?


IMDB: http://us.imdb.com/title/tt0045810/

Cotação:

9 de novembro de 2005

Exorcista: O Início

Prometo não tomar seu precioso tempo com um filme deste porte. E antes que me esqueça, maldito seja George Lucas que, para encher seu cofrinho, laçou esta hedionda modinha de se contar como tudo começou... Se a platéia média americana é burra o suficiente para só ver filmes explicados nos míííííííííínimos detalhes, acharam a mina de ouro certa! A propósito, alguém quer ver o começo de carreira do doutor Hannibal Lecter? Fala sério! Até Batman (que ainda não vi provavelmente por isso) teve direito ao seu. No caso deste Exorcista, assim que começaram os primeiros boatos de confusões no set e de película amaldiçoada pelo Coisa-Ruim, já se sabia a bomba que viria. Depois que o clássico de 1973 foi relançado com sucesso nos cinemas recentemente, com alarmadas (e desnecessárias) cenas extras, era de se esperar que os engravatados dos estúdios não deixassem o fato passar batido. E o resultado foi muito, mas muito ruim mesmo! Bocejante! A maioria dos filmes de terror, pelo menos se não nos assusta, vira pérolas trash, para revermos e darmos boas gargalhadas. Aqui não é o caso. Primeiro, coisas pseudo-assustadoras levam séculos para aparecerem, segundo, a África fake ao cubo e com elenco black falando um dialeto nada convincente ("mugunzunka racamaté!") só nos dá sono. Chato, arrastado, e com uma absurda necessidade de ter elos com o filme original, não só na trama, mas até nos efeitos especiais e maquiagem. Deus, após 30 anos? Nessa urgência de referências ao clássico, a necessidade de haver um possuído com a cara toda machucada e os olhos com lentes coloridas acaba se tornando um hilariante "adivinha quem será o escolhido pelo demo?". Dizem que o filme era outro, os produtores recusaram e rodaram tudo de novo a toque de caixa, e que essa primeira versão saiu diretamente em DVD nos States, o que pouco importa. Aliás, até o original, que revi há pouco tempo, perdeu muito do seu impacto nestes anos todos. Só por curiosidade, o sucesso, quando lançado nos anos 70, foi tão grande (históricas 10 indicações ao Oscar!!!) que o número de pessoas que se diziam possuídas pelo demônio cresceu consideravelmente na época. E claro, inúmeras seitas e religiões prontinhas a expulsar o capeta. Uma maria mole azul violeta para quem adivinhar em qual década a Igreja Universal do Reino de Deus foi criada.

Exorcista: O Início (Exorcist: The Beginning)
2004 - EUA De Renny Harlin com Stellan Skarsgard, Izabella Scorupco 114' Terror

DVD - Se todo o filme tivesse 10% do capricho exibido no menu principal, seria uma obra-prima. Fora isso, nos extras o trailer de cinema já cheirando a EQ dos bravos, faixa com comentário do diretor para quem se importar, e um documentário curto sobre os bastidores. Neste documentário, dependendo de sua noção de humor, dá pra rir um pouco com os atores seríssimos tratando a "obra" como se fosse grande coisa. O que não se faz por um punhado de dólares?


Cotação:

3 de novembro de 2005

Kung Fu Futebol Club

E faço coro com os que acham que se o Brasil ainda fosse o país do futebol o fenômeno (desculpe o trocadilho) mundial Shaolin Soccer teria sido exibido nos cinemas e não lançado diretamente em DVD com absurdos quatro (!!!) anos de atraso. O Zé povinho só reage aos apelos da TV pra torcer por este ou aquele... Em troca da venda de anúncios publicitários. Trufas... Ok, o filme é sobre kung fu, mas é tão desta mitológica luta quanto do bom e velho esporte do Garrincha. E se você não tá nem aí pra uma coisa nem outra, assista mesmo assim se você quer se divertir sem culpa com um humor ingênuo, mas que não é burro. Sabe quando se paga uns trocos para dar uma voltinha numa montanha russa? É isso aí! Entretenimento puro e indolor. Acaba-se o filme da mesma forma que começamos. Stephen Chow não aparenta querer mudar o mundo, mas divertir, e faz isso com competência de dar gosto! Inclusive depois de 10 minutos dá pra adivinhar o que vai acontecer em todo o filme, mas isso não importa muito. Prepare-se para ver não só cenas de futebol da forma que você jamais imaginou, e (assim como a maioria dos filmes asiáticos) soluções dramáticas absurdamente criativas. Tal e qual o pobre shaolin pensa quando lhe dão a idéia de misturar a arte marcial com o esporte: “Como é que eu nunca pensei nisso?”. E os efeitos visuais, com esse tempo todo, praticamente não envelheceram em nada. Ainda dá pra ficar de boca aberta, inclusive com uma cena que o ocidente só produziu igual dois anos depois em Matrix Revolutions. Já ouviu falar deste?

Kung Fu Futebol Clube (Shaolin Soccer)
- China, 2001 De Stephen Chow com Stephen Chow, Vicki Zhao, Man Tat NG, 87’ Comédia


DVD – Mais um da série “Dá nojo!”. Menu estático e absolutamente nada de extras! A Buena Vista além de cortar “alguns” minutos de projeção nem o trailer disponibilizou. Parece DVD lançado na década passada, e isso não é força de linguagem... E um filme com tantas possibilidades de bônus... Nem dá pra esperar uma edição mais caprichada, porque lembra muito a edição paupérrima de Pulp Fiction lançada a uns cinco anos pela mesma empresa. Se com a obra máxima de Tarantino não lançaram outra, o que esperar de uma comédia comercial chinesa?

Cotação:

31 de outubro de 2005

Batman, O Retorno

Que Tim Burton é um dos meus cineastas norte-americanos vivos prediletos não deve ser novidade nem para a dona Ruth, aquela velhinha que fica na janela ali da esquina... Imagina a taquicardia que foi quando achei Batman, O Retorno em DVD para abrilhantar minha ilustríssima filmoteca! Oh! E nem é meu filme preferido dele, aliás, o que mais marcou minha vida é um Burton, e só conto aqui quando achá-lo em versão digital. Adivinha? Mas enfim, para quem acha exagero meu apreço por esse senhor nativo de Burbank, recomendaria, para início de conversa, ver Batman, O Retorno. Ou rever, porque só mesmo tendo estado até ontem em Júpiter para nunca ter assistido a ele. Recomendaria, principalmente, pela magnífica mescla de comercial e artístico que possibilita que desde o intelectual mais ranzinza até o guri de bermudão e boné se deliciem por 126 minutos lado a lado. É estranho que a Warner o venda claramente apenas para o público infanto-juvenil, inclusive em seu site brasileiro, ele pertence à lista desta categoria. Não só pelos figurinos históricos da Mulher-Gato, mas pelos apimentados diálogos repletos de duplo sentido, a sombria película passa a anos-luz de ter sido direcionada aos pequenos. De longe é o filme mais sexualizado de sua carreira, e o que mais escancara seu tema predileto: o desajustado, cuspido pela "perfeita" sociedade, que quer simplesmente ser aceito, ou vingar-se. Se observarmos bem sua filmografia (de As Grandes Aventuras de Pee-Wee (1985) ao recente A Fantástica Fábrica de Chocolate) ele só falou sobre o mesmo tema. Nesta "seqüência" do mega sucesso de 1989 bateu seu pé em ter Michael Keaton no papel principal tal e qual fez anteriormente. As personalidades dos vilões eram muito ricas para serem perdidas por um herói de interpretação mais rebuscada. Ok, Batman também tem uma personalidade perturbada pelos motivos que sabemos, mas de certo modo é aceito pela sociedade defendida por ele. Em miúdos, faz parte dela. E que fascínio me causa aquele prólogo com a esnobe família tendo que lidar com o pequeno e bizarro Oswald. Praticamente sem diálogos (fora dois "Merry Christmas"), temos uma óbvia referência bíblica servindo de antepasto ao épico gótico que veremos a seguir. Como pano de fundo, ganhamos uma mídia faminta por sangue e uma lei quase sempre do lado errado. Perceba a referência a Geraldo, o latino que estourou na década de 90 na TV americana, precursor de ninguém mais que Ratinho. O chiuaua (aquela raça de cães mexicanos minúsculos) de Shreck chama-se Geraldo. E referências é o que não nos falta. Das mais óbvias (Shreck é também o sobrenome do ator que interpretou Nosferatu no clássico de Murnau) a algumas intrigantes, quanto toda a história se passar em 7 dias. Cinematográficas temos algumas da Hammer, como os palhaços malvados saltando no céu, ou o final à la Bonequinha de Luxo. A gatinha de Selina chama-se Kitty tal e qual uma das atrizes que interpretou a vilã na série clássica de TV. Poderia ficar horas analisando. Cada vez que o assistimos sempre há inúmeras coisas a serem notadas, e olha que faço isso há 13 anos. A citação a Murnau nos revela a base vinda mais do cinema expressionista que do noir. E ainda nem falei da Michelle Pfeiffer no papel de sua vida, usando aquele figurino sadomasô sinistramente. Ela nem precisaria ter interpretado de forma tão magistral que já entraria para a história do cinema. Mas interpretou de forma única. Tão única que os boatos da época apontavam um filme só para a vilã, inclusive com aquele final aberto. Denise Di Novi, a produtora, levou mais de uma década para nos dar a ofensa Mulher Gato com Halle Berry desonrando o uniforme. E a trilha de Danny Elfman com aqueles atemorizantes corais sussurrando aqueles ohs e ahs, a fotografia desbotada, os efeitos visuais ainda em forma, mesmo depois de tanto tempo... Um clássico moderno.

Batman, O Retorno (Batman Returns)
- EUA, 1992 De Tim Burton com Michael Keaton, Danny DeVitto, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken 126' Aventura

DVD - Absurdo!!! A Warner pegou a matriz do DVD lançado em 1997, reprensou e colocou no mercado para pegar carona em Batman Begins. Os copyrigths são de 2005, mas o material interno aponta a década passada. Menus estáticos, extras apenas em texto e o pior, tudo em inglês!!! Áudio também apenas em inglês, o que nem é má idéia, já que a gente sempre dispensa a dublagem em nossa língua, o que poderia ser uma boa para baratear os disquinhos. Fora isso, ele é bem bizarro, apresentando lado A e lado B tal e qual um vinil. No A a película em widescreen e no B em fullscreen. Já está lançado há algum tempo nos EUA a versão dupla, como você confere no link abaixo. Dá pra babar nos extras com comentários do diretor, entrevista com Michael Keaton, Danny DeVitto e Michelle Pfeiffer, o vídeo clip da canção Face to Face, interpretada por Sioux, entre um monte de outros baratinhos. Cadê?


Cotação:

25 de outubro de 2005

Invasão de Privacidade

E costuma ser sempre uma diversão as surpresas que a TV aberta reserva para as madrugadas de cinéfilos insones. Mais precisamente a TV Globo, que entre clássicos das décadas mais recentes a telefilmes insossos, nos permite reavaliar algumas coisinhas, enquanto o sleep timer não termina sua função. Quem se importa dos cortes para os comerciais e da medonha dublagem em português diante de uma pérola trash do porte de Invasão de Privacidade? O ano era 1993, e os engravatados de Hollywood estavam em alvoroço com a descoberta da loira que deveria dominar as bilheterias naquela década que se iniciava. Dês da descoberta de Jean Harlow ou Alice Faye nos anos 30/40, esta tradição é seguida a risca. Tinha chegado a vez de Sharon Stone após o mega sucesso Instinto Selvagem ( Basic Instinct, 1992). A possível assassina com o “péssimo” hábito de sair de casa sem calcinha fez o polêmico filme cair como uma luva na pseudo liberação sexual anunciada naquele período, pós susto HIV da década anterior. Ela teria dito á Movieline que “Hoje em dia me pagarão para interpretar qualquer papel que eu queira. Até a Lassie”. O produtor Robert Evans (Poderoso Chefão) começou com boas intenções: Conseguiu o roteirista de Instinto Selvagem para adaptar o romance Sliver, de Ira Levin, mesmo autor de O Bebê de Rosemary. Aliás, era sua idéia contratar o mesmo diretor do aterrador suspense de 1968, Roman Polanski. Mas de boas intenções você sabe o que está cheio, né? Com inacreditável excesso de cenas de sexo mornas e um serial killer óbvio rondando miss Stone até o mais otimista apontaria a catástrofe que estaria por vir. Reza a lenda que a platéia teste detestou a primeira versão com sexo mais hardcore, e um assassino bem diferente do visto na versão final. Aliás, depois os sensores americanos ainda obrigaram várias outras picotadas, quase todas no nu frontal de William Baldwin, para a classificação permitir a entrada de menores nos cinemas. Resumindo, mesmo se houver uma versão do diretor, não há promessa de melhorias. E a chuva de fofocas de uma animosidade entre o casal protagonista nos sets invadiu a imprensa especializada. Óbvio que todo o marketing possível era o que eles precisavam, o que também não indicava boa coisa. Lembro que o que mais me incomodou quando aluguei em VHS nem foi tanto a previsível trama policial, ou o sexo careta, mas justamente a personagem de Sharon Stone. Carly Norris está a anos luz da escritora bissexual que fez em seu filme até então mais famoso. Fraca, chorona, e com toda a ação em suas costas, sem trocadilhos, please!!! Até a cena da calcinha (sim, ela teve também uma com calcinha neste!) é involuntariamente risível. No cinema norte americano se reconhece uma mocinha quando na hora da cama ela aparente sofrimento, e não prazer. Em todas estas seqüências Carly é pega á força por um dos Baldwin (nunca sei direito qual deles fez o quê...), e reage como uma donzela vitoriana cheia de culpa. As malvadas nestes filmes sempre dão com mais vontade. Note! Para quem gosta de películas por si só, independente de gênero, ou qualidade, apenas por curiosidade ou para melhor entender a 7ª “arte” (note as aspas também...) nos anos 90, Invasão de Privacidade é considerável. E se for na TV sem se pagar absolutamente nada por isso, porque não?


Invasão de Privacidade (Sliver)
- EUA, 1993 De Philip Noyce com Sharon Stone, William Baldwin, Martin Landau, Tom Berenger 106’ Suspense



Cotação:

22 de outubro de 2005

A Vida Marinha com Steve Zissou

É pertinente ao ser humano caçar ídolos, pessoas hiper especiais em quem todos nós queremos nos espelhar. Ou, no caso do cinema, que nos façam sonhar por duas horas de projeção e acompanhar sua carreira, filme a filme, quase como uma telenovela sem uma trama uníssona. Quando eles não estão prontos, o que fazer? Cria-se! E, nesta batalha, lá está a imprensa na linha de frente e, logo atrás, aqueles desavisados que gostam ou deixam de gostar de qualquer coisa de acordo com o vizinho. Vi desde a década de 80 (ou seja a partir do momento em que me achei gente...) muitos e muitos. Alguém aí se lembrou de Wim Wenders? Wim Wenders e aprendenders! Nos 90 encheu o saco o empurra goela abaixo de um certo Tarantino. E este humilde escriba pedia calma à turba ensandecida. Como dar o título de gênio a alguém com dois filmes a tiracolo? Do que chamaremos Billy Wilder com centenas de obras pra lá de brilhantes? E Almodóvar (nos 90 ele ainda não havia ganhado a alcunha de maduro) fazendo pérolas atrás de pérolas sem perder o rebolado? Ok, dez anos depois vieram os Kill Bills, Jackie Brow e algumas outras coisinhas saborosas. Ponto. Agora a bola da vez é um certo Wes Anderson. O rapaz está com dois filmes estupendos (Três é Demais, Os Excêntricos Tenenbaums) no currículo, e um relativamente bom, este que está sendo comentado no momento. E já há um certo zum zum de que o rapaz não é de nada, o gênio negou fogo, sei lá. Aliás, a imprensa brasileira diz isso, a portuguesa teria aceitado a comédia aqua-psicodélica numa boa. Bem, o que está dando a entender é que um cineasta de língua inglesa que cria um universo próprio convincente em trabalhos totalmente originais não surge desde Tim Burton com seu Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice), em 1988! E rapaz, isto não é pouca coisa. Aliás, películas boas, mas que não se fica olhando no contador pra ver quanto falta pra acabar, estão cada vez mais raras... Claro que há alguns deslizes. O principal deles pode ser o brasileiro Seu Jorge (Cidade de Deus) aparecendo do nada, tocando em seu violão versões brasileiras de famosas músicas de David Bowie. Na primeira vez soa legal, depois é impossível não vir à mente um "Meu Deus! De novo?" E são muitas vezes. Ou parecem ser... Mas como deixar de perceber que Bill Murray já está mais do que consagrado como astro do cinema. Aquele simpático caça-fantasma... Aqui ele vive o tal Steve Zissou, uma espécie de Jacques Cousteau decadente que leva sua trupe em busca de um tubarão (ou não) raro (ou não) que possivelmente comeu seu melhor amigo, ou não. Se você achou Virgem de 40 Anos o máximo do engraçado, fuja deste filme. Inclusive fuja deste blog também, de mim, do meu cachorro, ou de qualquer coisa com bom senso!!! Mas A Vida Marinha com Steve Zissou ainda é bem engraçado, imaginativo. Há cenas hilárias como o ataque pirata, o pedido de adoção do filho que provavelmente nem é dele, entre muitas outras que você se esborracha de rir... Por dentro. O elenco (muitos oriundos de suas outras obras) afinadíssimo no espírito da coisa. Até o cão de três (!!!) patas. Felliniano? Este rótulo não partiu de Anderson. É gênio? Imortal? Pelo menos está começando bem....

A Vida Marinha com Steve Zissou - The Life Aquatic with Steve Zissou
- EUA, 2005 De Wes Anderson com Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchet, Anjelica Huston, Willem Dafoe, Seu Jorge 119' Comédia


DVD - Mixos extras. Mas o menu caprichadinho já vale muito, e um easter egg logo no menu inicial e anunciado na capinha valem. Nos comentários do diretor e roteirista perceba o nome de Jacques Cousteau devidamente censurado com "pis".

Cotação: