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20 de setembro de 2008

Os Fantasmas se Divertem

Contado como comédia surreal do ponto de vista de fantasmas às voltas com os moradores vivos de sua casa, é antes de tudo um filme sobre costumes. A tradicional América perdendo espaço para a globalização dos hábitos, degeneração já bem avançada em Nova York. Tim Burton, praticamente em seu primeiro longa, voltaria inúmeras outras vezes ao mesmo tema. Das casinhas suburbanas, aos figurinos de Geena Davis e Alec Baldwin, tudo nos remete ao amado american way de outros tempos. O principal mérito é usar assuntos tão mórbidos e pesados com uma leveza ímpar. Ao final, nos sentimos tentados a olhar para almas penadas com muito mais respeito ao invés do medo costumeiro, embora isso não seja suficiente para que o desfecho conciliador faça algum sentido. Conseguiu bilheteria suficiente para que a mitologia gerasse um desenho animado, vídeo-game e uma há anos comentada seqüência que nunca apareceu. E lógico, credenciou o diretor para assinar Batman, divisor de águas no cinema da década de 90. Cada frame é a cara do cineasta, tanto nos efeitos óticos, ainda interessantes, quanto no visual. Se prestarmos atenção, até a cabeça de Jack Skellington aparece ornamentando o chapéu de Beetlejuice, sendo que o personagem só apareceria em O Estranho Mundo de Jack, que Burton produziu, quatro anos depois. Há também muitas regras engraçadas ditadas, como a que nós só enxergamos o óbvio e que suicidas invariavelmente tornam-se funcionários públicos no além! Sem esquecer a principal delas: Problemas com os vivos? Basta chamar três vezes: Beetlejuice! Beetlejuice! Beetlejuice!

Os Fantasmas se Divertem – Beetle Juice

- EUA 1988 De Tim Burton Com Michael Keaton, Geena Davis, Alec Baldwin, Catherine O'Hara, Winona Ryder, Glenn Shadix, Sylvia Sidney 92’ Comédia


DVD- Caquético e ainda por cima em tela cheia. Ficamos na torcida para que a Warner lance também no Brasil a mesma edição comemorativa dos 20 anos que está saindo nos EUA. Sem falar de As Grandes Aventuras de Pee-Wee que continua inédito em DVD aqui.

Cotação:

12 de agosto de 2008

Marte Ataca!

Além de levar o pouco honroso título de o primeiro filme baseado em figurinhas de chiclete, ainda se deu ao luxo de usar um dos elencos mais estrelares já reunidos. Tão escachado e ao mesmo tempo tão hermético, é político-social crítico como poucas vezes vimos vindo de um grande estúdio de Hollywood. Tim Burton usou a série de imagens 60’s para reverter a interpretação que as produções com invasões alienígenas se prestavam no passado. “Pobre EUA, sempre sendo ameaçado por forças externas terríveis!”. Nos mornos anos noventa a Guerra Fria com seus perversos comunistas à espera de uma brecha da grande águia democrática já tinha saído faz tempo do imaginário popular. Deu lugar à não menos xenófoba paranóia quanto à invasiva chegada de latinos (ou qualquer outro estranegiro) em busca de seu lugar ao sol. Não é à toa de que o grande herói se revelará o adolescente xicano vendedor de Donuts, enquanto os americanos aparecem mais idiotas e presunçosos do que de costume. Como não há quem goste de dedos em riste contra seu nariz, não houve por lá quem achasse graça. Deste lado do equador, para quem se permitir rir e pensar ao mesmo tempo, aplaudirá o espetáculo de referências aos “grandes” momentos do cinema B da décadas 50 e 60. Burton não abriu mão inclusive de misturar inúmeras imagens de arquivos de velhas fitas catastróficas como convinha ao gênero. Ainda arranjou papéis para muitos astros de outros tempos como Pam Grier, musa dos blaxploitation que depois trabalharia com Quentin Tarantino, e Sylvia Sidney, que como a vovozinha esquecida num asilo teve seu último trabalho na tela grande antes da morte em 1997. O compositor Danny Elfman tem na trilha sonora de Marte Ataca! um dos pontos altos de sua carreira.

Marte Ataca! – Mars Attacks!

- EUA 1996 De Tim Burton Com Jack Nicholson, Glenn Close, Annette Bening, Pierce Brosnan, Danny DeVito, Martin Short, Sarah Jessica Parker, Tom Jones, Lukas Haas, Pam Grier, Lisa Marie, Natalie Portman, Sylvia Sidney, Christina Applegate, Black Jack 106’ Ficção Científica/Comédia


DVD - Este lançamento antigo da Warner recebeu reimpressão substituindo capinhas de papelão perecíveis. O conteúdo continuou o mesmo, com os desconfortáveis dois lados, tendo fullscreen e widescreen em cada um, o que nos faz sempre deixar marcas de dedos. O filme roda automaticamente, o que parece outra lembrança da época pré-histórica do DVD. No menu principal não há a função iniciar, o que nos obriga a entrar no filme através da seleção de capítulos. De extras, muito texto em inglês, dois trailers também sem versão em português, e a opção de se assistir à película sem os diálogos. Ao entrar em o áudio, repare na opção “marciano” e clique!

Cotação:

3 de junho de 2008

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas

Este apanhado de contos fantásticos curtos, recebeu do roteirista uma costura habilidosa, acrescentando uma trama passada na realidade. Mas por mais bem feita é inegável o desequilíbrio do que é fantasia e do drama familiar no qual um filho tenta saber o que é verdadeiro na história de seu pai, prestes a morrer. Tim Burton tentando ser adulto, mas também aceito como cineasta sério, chega à banalidade da maioria dos filmes americanos neste gênero. E a trilha sonora sentimental, repleta de momentos grandiloqüentes acentua este sabor, uma das piores de Danny Elfman em sua parceria com o cineasta. Se nos entretemos com as aventuras de Ewan McGregor por terras misteriosas, logo voltamos ao agora, com aquele filho reclamando não se sabe do quê ao certo. Pode ter sido um recurso útil ao roteirista para emendar os contos, mas não parece ser motivo plausível para um filho ficar de mal com o pai por anos só porque o velho gosta de contar histórias absurdas. No faz de conta, há várias mensagens bacanas claramente retiradas do livro, mas como são muitas seguidamente acabam se diluindo. Certamente teríamos um filme mais feliz se fosse divido em capítulos. Burton, acolhido por uma produção esmerada, está claramente muito mais a vontade no que se refere à fantasia conseguindo momentos memoravelmente mágicos. E são estes momentos que fazem Big Fish permanecer na nossa memória por muito tempo tal e qual o incrível passado do herói Edward Bloom.

Big Fish – Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas

- EUA 2003 De Tim Burton Com Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Helena Bonham Carter, Alison Lohman, Steve Buscemi 125’ Drama


DVD - Edição simples e ao mesmo tempo caprichada. Poucos mas bem realizados extras como trailer original, e de outros filmes, um documentário dividido por partes e faixa de áudio com o diretor dando uma entrevista sobre o filme. Essa entrevista é curiosa porque eles não comentam exatamente o que está acontecendo na tela, mais parece um programa de rádio. Porém, comparada às vezes em que Burton comentou sozinho seu trabalho, como no DVD de A Lenda do Cavaleiro sem cabeça, é uma boa idéia, porque é monossilábico. Tem um joguinho de perguntas e respostas sobre a carreira do diretor não muito fácil, mas se todas as respostas estiverem corretas somos presenteados com um mini documentário. Tudo está legendado em português fora os extras e o recurso de durante o filme se clicar em certos ícones e se saber mais sobre a realização ou dos personagens. Aliás, este recurso desabilita as legendas do próprio filme! Atenção para um easter egg escondido logo no menu principal.

Cotação:

17 de maio de 2008

Batman

Parece que foi ontem que para onde se olhava tinha um logo do Batman estampado! Assim, por fórceps, mesmo com roteiro frouxo, tornou-se retumbante sucesso abrindo caminho para a infinita série de filmes com heróis dos quadrinhos. Lamentavelmente mostrou o caminho das pedras aos grandes estúdios. De lá pra cá, qualquer coisa antes impressa tem ganhado a tela grande e se não estouram na bilheteria têm suas despesas compensadas vendendo absolutamente qualquer traquitana. Star Wars promoveu algo semelhante uns dez anos antes, mas o marketing de personagens já conhecidos é mais implacável. Americano é tão esperto que lucra até vendendo propaganda... Extremamente fiel às suas origens como nunca havia sido produzido com o personagem criado por Bob Kane no fim dos 30, surgiu como aposta da Warner em levar às platéias modernas um pouco das aventuras dos heróis daquele período. Seguiu, portanto a tendência bem sucedida de Indiana Jones. Tanto pioneirismo derivou uma inegável carência de ousadia em muitos pontos. Essa timidez (mercadológica) promoveu desigualdade não só na trama, mas nas interpretações. Cada ator está em seu Batman, levando a melhor, como bem se sabe, Jack Nicholson e seu endiabrado Coringa. Por mais gótica que Gotham City seja, podemos ver claramente personagens vestidos de forma vulgar a lá Madonna daquela época. Essas indecisões todas podem ter dado incômoda desigualdade, mas são perdoáveis se encaradas como laboratório ao próximo trabalho com o Cavaleiro das Trevas. Tim Burton estava mais confiante para Batman Returns, ainda o melhor Batman de todos os tempos.

Batman – Batman

- EUA 1989 De Tim Burton com Michael Keaton, Jack Nicholson, Kim Basinger, Billy Dee Williams, Jack Palance, Lee Wallace, Jerry Hall 126’ Ação


DVD - Não é um DVD, mas uma peça preciosa de colecionadores. Horas a fio de extras no segundo disco fazem dele item indispensável. Pra se ter uma idéia, há depoimentos atuais de todos os envolvidos no projeto, inclusive Sean Young. Ela lamenta ter sido obrigada a desistir do trabalho semanas antes de começarem a rodar, abrindo vaga para Basinger. Ainda incontáveis estudiosos de quadrinhos explicam ano a ano a trajetória de Batman e três clips de Prince para o filme. É de chorar um produto tão bem acabado e sem legendas justo na faixa de comentários de Tim Burton!

Cotação:

13 de abril de 2008

Ed Wood

Normalmente biografias só são filmadas quando há uma superação de limites físicos, quando alguém morre por uma grande causa, enfim, retratam heróis, pessoas vencedoras. Isso faz com que esta biografia de Ed Wood Jr. seja mais estranha. O afamado pior de todos os diretores do mundo, dono de uma filmografia com bombas do gênero Glen ou Glenda, Plan 9 From Outer Space, A Noiva do Átomo ainda por cima tinha a péssima mania de usar calcinha e sutiã! Claro que seria um fracasso de público embora muito elogiado pela crítica e adoradores de cinema. É sobretudo a obra prima de Tim Burton, diretor igualmente esquisito, e que vive nos dias de hoje ganhando milhões com fetiches e bizarrias igualmente amante da sétima arte. Não nos mostra apenas ao auge, se é que aquela sucessão de fracassos pode ser considerada auge de alguma coisa, de Ed Wood, mas a paixão que move a vida de um homem não longe do medíocre. O descompasso entre capacidade e a ambição, produzido como se realmente fosse uma divertida produção ruim 50’s. E os envolvidos parecem ter abraçado o projeto com a mesma loucura. Interpretações fantásticas, como a de Martin Landau de Bela Lugosi, premiada com o Oscar daquele ano, fotografia preto e branco de contrastes fortes a trilha sonora que se dá ao luxo de usar Teremim, secular instrumento musical eletrônico ouvido naquele período à exaustão em ficções científicas. Junto a Crepúsculo dos Deuses e Cecil Bem Demente, é o melhor filme sobre cinema, celebridades e teimosia! Seu coração suportará estes chocantes fatos?

Ed Wood – Ed Wood

- EUA 1994 De Tim Burton Com Johnny Depp, Martin Landau, Sarah Jessica Parker, Patricia Arquette, Jeffrey Jones, Bill Murray, Lisa Marie, Juliet Landau, George 'The Animal' Steele 127’ Drama/Comédia


DVD - Além de resgatar a imagem original widescreen, há alguns extras simplesmente imprescindíveis não mencionados na contracapa! Mesmo não sendo a edição definitiva lançada lá fora. Dois documentários, por exemplo, estendem assuntos tratados no filme: travestismo (!!!) e o uso do teremim, verdadeiras aulas de psicologia e história musical. Cenas deletadas, making of, clip musical com Lisa Marie dançando de Vampira, etc. O destaque é a faixa em áudio com comentários do diretor, Martin Landau, roteiristas e produtores, que teria sido um dos motivos para o DVD em seu primeiro lançamento nos EUA ser recolhido tamanha franqueza nas declarações. Gravada com eles separadamente, mas com depoimentos costurados pela voz de Landau encarnando Bela Lugosi, temos o distanciamento necessário de quando o filme foi feito para todos revelarem muitas curiosidades. Os roteiristas lembram por exemplo quando fizeram O Pestinha, que originalmente seria uma comédia inteligente adulta e depois de tanto mexida virou uma comedinha infantil ruim explorada em continuações e série de TV. Sucesso de público os colocou artisticamente numa espécie de limbo, porque ninguém queria trabalhar com eles. E fazer um filme ruim não era a sua intenção, assim como Ed Wood.

Cotação:

21 de dezembro de 2007

Planeta dos Macacos (2001)

Divertida, mas escandalosamente vazia versão de Tim Burton à célebre cine série da década de 60. Curioso é que mesmo tendo assinado inúmeras películas desde Batman, é justamente esta a referência a ele contida nos trailers. Acusado por fãs de ter sido econômico nas cenas de ação em seus filmes do Paladino da Justiça parece que aqui quis ir á forra! Como resultado temos uma correria sem fim pondo por água a baixo qualquer possibilidade de se conhecer (ou ter interesse) o mínimo possível por aqueles tantos personagens. Muitos aparecem e somem sem dizerem a que vieram... Cheira a trabalhinho de produtor que na ilha de edição tentou deixar a coisa mais atrativa comercialmente falando. Outro incômodo é que na tentativa de evidenciar o paralelo entre macacos e humanos descambou pra caricatura. Motoqueiros de jaqueta de couro, maconheiros hippies, mulher de político fútil, inclusive a macaca esquerdista de Helena Bonham Carter. Não se vê macacos (com maquiagem quase sempre fabulosa de Rick Baker) humanizados, mas macacos fingindo que são humanos. De Tim Burton mesmo temos uma rebuscada direção de arte, trilha sonora de Danny Elfman e a retórica sobre as diferenças. Há sim, e a referência ao estúdio inglês Hammer na presença de Kris Kristofferson com visual quase igual ao usado por ele no clássico One Million Years B.C..

Planeta dos Macacos – Planet of Apes
- EUA 2001 De Tim Burton Com Mark Wahlberg, Tim Roth, Helena Bonham Carter, Michael Clarke Duncan, Kris Kristofferson 120’ Ação/Sci-Fi


DVD - Poucos lançamentos usaram e abusaram da mídia DVD como este Planeta dos Macacos. Pra você ter uma idéia, é possível se assistir ao filme 4 vezes!!! Normal, com comentários do diretor, outra com os de Danny Elfman (as poucas coisas sem legendas em português) e com entrada de informações de bastidor na tela. Duplo, os bônus não estão concentrados apenas no segundo disco, tendo inclusive um easter egg no primeiro. Se o filme ficou a desejar, prepare-se para passar horas e horas com documentários (relativamente longos e bem produzidos) de bastidores, cenas estendidas, cenas vistas por múltiplos ângulos (até com as páginas do roteiro), trailers, pôsteres entre outros regalos. Vale comentar um defeito nos discos da Fox: nos filmes só é possível alterar áudio e legendas pelo menu principal e não diretamente pelo controle remoto o que é bastante irritante.

Cotação:

19 de novembro de 2005

A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005)

Tim Burton é Deus!!! E, passado o susto, já dá pra confessar que torci o nariz quando soube que ficaria a cargo de Tim Burton uma nova versão para A Fantástica Fábrica de Chocolate, popular livro infantil inglês, levado às telas em 1971 com bastante sucesso. O diretor vinha de uma série de fracassos de bilheteria, mas, claro, absolutos sucessos artísticos, como A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Marte Ataca! e, mais recentemente, o morno Peixe Grande, o que poderia demonstrar que os executivos do cinemão yankee estavam-no relegando a projetos de segunda classe. Que tristeza ver a competente refilmagem O Planeta dos Macacos sendo massacrada... Nem queria imaginar o que poderia vir com um clássico cult sendo refeito nos dias de hoje. Realmente, aos cuidados de uma mente menos astuta, poderia ter ficado só mais um filminho para passar "inédito" na Sessão da Tarde, repleto de pirralhos com texto decorado, mas é um Tim Burton até o osso. Talvez o mais Tim Burton em muito tempo, com fotografia cinza desbotado, personagens marginalizados, árvores retorcidas, a abertura semelhante a Edward Mãos de Tesoura, as viajantes citações cristão-pagãs, e aquela sensação de que, se alguém guardou um cadáver no armário, não foi sozinho! Primeiro ponto positivo foi a total recusa a mostrar parentesco com o filme anterior. Não encontrei, até agora, nenhuma referência que seja, talvez porque o diretor tenha dito em inúmeras entrevistas que não gostava do resultado anterior, pouco fiel ao livro e que, portanto, não seria uma refilmagem, partindo da estaca zero na concepção. Declarações estas que estão suprimidas das entrevistas (leia abaixo) no material extra do DVD, já que ambos os filmes são da Warner, que também relançou, em versão digital, o clássico para quem quiser comparar. E era de se esperar que Willy Wonka, encarnado por Johnny Depp, fosse salvar o filme de um possível desastre. Como o resultado geral está a anos-luz disso, o que se vê é um personagem riquíssimo que nos dá calafrios e, logo depois, nos faz gargalhar, façanha para poucos atores da atualidade. O engraçado é que o de 71 chamava-se Willy Wonka and The Chocolate Factory, este é Charlie and The Chocolate Factory, como se chama o livro, mas agora o dono da fábrica tem muito mais importância do que o menino, com sua história pessoal chegando a conduzir muitas vezes toda a trama. Os personagens mirins também tiveram substanciais mudanças de comportamento. Se, no anterior, praticamente só a riquinha Veruca Salt era a vilãzinha do grupo e os outros tinham pouquíssimos pecados (fora o fato de estarem dispostos a entregar os segredos do senhor Wonka a um misterioso concorrente), aqui todos os quatro (exceto Charlie, claro) são insuportáveis levando suas compulsões ao extremo. Sempre me identificava com o Mike Teavee, mas agora... Oh, oh! E como todo trabalho do diretor, a cada assistida dá pra notar coisas incríveis antes despercebidas, principalmente a enxurrada de referências cinematográficas, tendo como as mais óbvias 2001, Uma Odisséia no Espaço e Psicose. Olho vivo para Ben-Hur, Psicose, O Chamado, cartoons de Charles Schulz, Hair e até o cumprimento dos adoráveis Oompa Loompas foi pinçado de Plan 9 From Outer Space. E a trilha sonora? O velho e bom Danny Elfman se renova sendo o mesmo! Deus, só a alma mais gélida não terminará de assistir sem sair cantarolando a canção dos Oompa Loompas para Augustus Gloop. Com o DVD você agora tem a oportunidade não só de cantar como um Oompa Loompa, mas de aprender a dançar como eles! Por um triz tascaria ali em baixo, na cotação, uma "obra-prima", se não fosse a esticadela no final. Ao invés de acabar com o pequeno Charlie, agora rico, há ainda uma resolução do drama familiar de Wonka. Desnecessário! Aliás, o passado de quem coloca uma balinha na boca e a transforma em um passarinho não mereceria explicação alguma. Mas como bem se sabe, o criador nem sempre é perfeito...

A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and The Chocolate Factory)
- EUA 2005 De Tim Burton com Johnny Depp, Freddie Higghmore, Noah Taylor, Chritopher Lee 115' Aventura

DVD - Daqui mesmo da net compre agora! O disquinho prateado mais fantástico que já vi até agora. E olha que já vi muuuuuuitos! Mas nenhum com o elenco filmando cenas só para os menus. Todos confusos, mas encantadores! Os extras no segundo disco nos trazem alguns joguinhos viciantes (mesmo para maiores de 12 anos!), e alguns documentários imperdíveis, além de surpresinhas no caso de você possuir DVD-Rom! Aliás, logo no menu dos documentários tem um easter egg. Falta a faixa de áudio de comentários com Tim Burton, mas já não disse que o criador nem sempre é perfeito?

Cotação:

31 de outubro de 2005

Batman, O Retorno

Que Tim Burton é um dos meus cineastas norte-americanos vivos prediletos não deve ser novidade nem para a dona Ruth, aquela velhinha que fica na janela ali da esquina... Imagina a taquicardia que foi quando achei Batman, O Retorno em DVD para abrilhantar minha ilustríssima filmoteca! Oh! E nem é meu filme preferido dele, aliás, o que mais marcou minha vida é um Burton, e só conto aqui quando achá-lo em versão digital. Adivinha? Mas enfim, para quem acha exagero meu apreço por esse senhor nativo de Burbank, recomendaria, para início de conversa, ver Batman, O Retorno. Ou rever, porque só mesmo tendo estado até ontem em Júpiter para nunca ter assistido a ele. Recomendaria, principalmente, pela magnífica mescla de comercial e artístico que possibilita que desde o intelectual mais ranzinza até o guri de bermudão e boné se deliciem por 126 minutos lado a lado. É estranho que a Warner o venda claramente apenas para o público infanto-juvenil, inclusive em seu site brasileiro, ele pertence à lista desta categoria. Não só pelos figurinos históricos da Mulher-Gato, mas pelos apimentados diálogos repletos de duplo sentido, a sombria película passa a anos-luz de ter sido direcionada aos pequenos. De longe é o filme mais sexualizado de sua carreira, e o que mais escancara seu tema predileto: o desajustado, cuspido pela "perfeita" sociedade, que quer simplesmente ser aceito, ou vingar-se. Se observarmos bem sua filmografia (de As Grandes Aventuras de Pee-Wee (1985) ao recente A Fantástica Fábrica de Chocolate) ele só falou sobre o mesmo tema. Nesta "seqüência" do mega sucesso de 1989 bateu seu pé em ter Michael Keaton no papel principal tal e qual fez anteriormente. As personalidades dos vilões eram muito ricas para serem perdidas por um herói de interpretação mais rebuscada. Ok, Batman também tem uma personalidade perturbada pelos motivos que sabemos, mas de certo modo é aceito pela sociedade defendida por ele. Em miúdos, faz parte dela. E que fascínio me causa aquele prólogo com a esnobe família tendo que lidar com o pequeno e bizarro Oswald. Praticamente sem diálogos (fora dois "Merry Christmas"), temos uma óbvia referência bíblica servindo de antepasto ao épico gótico que veremos a seguir. Como pano de fundo, ganhamos uma mídia faminta por sangue e uma lei quase sempre do lado errado. Perceba a referência a Geraldo, o latino que estourou na década de 90 na TV americana, precursor de ninguém mais que Ratinho. O chiuaua (aquela raça de cães mexicanos minúsculos) de Shreck chama-se Geraldo. E referências é o que não nos falta. Das mais óbvias (Shreck é também o sobrenome do ator que interpretou Nosferatu no clássico de Murnau) a algumas intrigantes, quanto toda a história se passar em 7 dias. Cinematográficas temos algumas da Hammer, como os palhaços malvados saltando no céu, ou o final à la Bonequinha de Luxo. A gatinha de Selina chama-se Kitty tal e qual uma das atrizes que interpretou a vilã na série clássica de TV. Poderia ficar horas analisando. Cada vez que o assistimos sempre há inúmeras coisas a serem notadas, e olha que faço isso há 13 anos. A citação a Murnau nos revela a base vinda mais do cinema expressionista que do noir. E ainda nem falei da Michelle Pfeiffer no papel de sua vida, usando aquele figurino sadomasô sinistramente. Ela nem precisaria ter interpretado de forma tão magistral que já entraria para a história do cinema. Mas interpretou de forma única. Tão única que os boatos da época apontavam um filme só para a vilã, inclusive com aquele final aberto. Denise Di Novi, a produtora, levou mais de uma década para nos dar a ofensa Mulher Gato com Halle Berry desonrando o uniforme. E a trilha de Danny Elfman com aqueles atemorizantes corais sussurrando aqueles ohs e ahs, a fotografia desbotada, os efeitos visuais ainda em forma, mesmo depois de tanto tempo... Um clássico moderno.

Batman, O Retorno (Batman Returns)
- EUA, 1992 De Tim Burton com Michael Keaton, Danny DeVitto, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken 126' Aventura

DVD - Absurdo!!! A Warner pegou a matriz do DVD lançado em 1997, reprensou e colocou no mercado para pegar carona em Batman Begins. Os copyrigths são de 2005, mas o material interno aponta a década passada. Menus estáticos, extras apenas em texto e o pior, tudo em inglês!!! Áudio também apenas em inglês, o que nem é má idéia, já que a gente sempre dispensa a dublagem em nossa língua, o que poderia ser uma boa para baratear os disquinhos. Fora isso, ele é bem bizarro, apresentando lado A e lado B tal e qual um vinil. No A a película em widescreen e no B em fullscreen. Já está lançado há algum tempo nos EUA a versão dupla, como você confere no link abaixo. Dá pra babar nos extras com comentários do diretor, entrevista com Michael Keaton, Danny DeVitto e Michelle Pfeiffer, o vídeo clip da canção Face to Face, interpretada por Sioux, entre um monte de outros baratinhos. Cadê?


Cotação: