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22 de agosto de 2008

Pacto Sinistro

Obra prima de Alfred Hitchcock, embora pouco lembrada como um dos melhores já produzidos em Hollywood. Era o início da feliz fase que entraria na década de 50, embora tecnicamente, aparente ser mais antigo. Por mais frescor que exigisse de seus roteiros (por acaso a estréia em adaptações dos livros de Patricia Highsmith), Hitchcock preservava muitos cacoetes já fora de moda. Retro projeções ao invés de externas, câmera acelerada em cenas de perseguição, etc. Óbvio que este pode ser um de seus diferenciais, fez tudo do jeito que sempre quis, com aprovação da platéia e de forma pouco vista, pelos estúdios. Em uma viagem de trem, jogador célebre de tênis cruza com Bruno (Robert Walken), um pretenso fã. Conversa vai, conversa vem, o desconhecido conta-lhe sua idéia de crime perfeito. Cada qual assassinaria um desafeto do outro, e como não há relação alguma entre ambos, jamais seriam descobertos. O esportista tem a ex-esposa libertina a lhe empacar e Bruno, seu pai magnata e intransigente. Claro que não há como levar a sério tais devaneios, embora o desconhecido creia no pacto selado, cumpre sua parte, e passa a exigir o mesmo do outro. O circo está armado e o que não faltam são momentos do mais puro talento artístico! Adaptado por Raymond Chandler (entre outros), polemicamente como muitas das parcerias do mestre, é um dos textos mais bem amarrados que já filmou. Conduz a platéia a uma espécie de funil macabro, enquanto ricamente dá espaço às mais variadas interpretações, inclusive sexuais. Walken, que faleceria logo depois graças ao alcoolismo, entrou para a diminuta galeria de atores que conseguiram ter seu talento destacado em um filme de Hitchcock.

Pacto Sinistro - Strangers On A Train

- EUA 1951 De Alfred Hitchcock Com Farley Granger, Robert Walken, Ruth Roman, Patricia Hitchcock, Laura Elliot, Marion Lorn, Norma Vaden 101’ Suspense


DVD - Outro clássico lançado com a dignidade que merece pela Warner, distribuidora número um para este tipo de filme. Embalado em luva de papelão, só a faixa de áudio com comentários e o trailer não estão com legendas em português. No segundo disco, a versão integral de Pacto Sinistro conforme foi exibido numa pré estréia, com alguns minutos a mais e sem a cena final no trem. São quatro documentários: Um com historiadores contando detalhes de bastidores, outro com Patricia (filha de Hitchcock e participante do elenco) com as filhas relembrando fatos familiares, um terceiro com a atriz que faz a vitima míope e o mais curioso com M. Night Shiamalan analisando o roteiro.

Cotação:

6 de junho de 2008

Escola de Sereias

Verdadeiro biju com todo o rococó que só a Metro conseguia imprimir em suas películas. A história é incrivelmente bobinha nas sutilezas amorosas: Compositor de uma big band (Red Skelton) decide parar de compor seus boogie woogies de tão apaixonado pela futura esposa, uma nadadora bonitona interpretada por Esther Williams, quem mais? Acreidta que seu afeto combinaria mais com operas e canções mais nobres. O empresário então arma um plano para separar o casal de pombinhos ao qual ela cai feito um pato, trocando a ensolarada Califórnia por seu antigo emprego numa escola só para moças. E o humor será tirado daí, quando ele para reparar o mal entendido se matriculará na respeitada instituição feminina, tomando proveito de brecha nas normas. Há muitos números musicais, em sua maioria latinos, habilmente inseridos na história. Quando as alunas, adolescentes sapecas, convencem a careta professora de piano a tocar um ritmo quente sul americano prepare-se para o frenético Tico-tico no Fubá! Skelton ao contrário de outros trabalhos está tão terno quanto engraçado. Teria sido assessorado por Buster Keaton, o que provavelmente aliado ao bom roteiro colaborou no resultado tão agradável, com menos caretas. Não ria se puder na seqüência da aula de balé, quando aparece vestido a caráter. A direção do colégio, doida para mandar aquele estranho no ninho embora, incumbiu a rigorosa professora de lhe dar os deméritos suficientes para a expulsão. Memorável! O filme ainda conta com a nata musical da época, como o contratado do estúdio Xavier Cugat e sua orquestra tal e qual em muitas outras produções e a estrela do trompete Harry James com sua crooner contumaz Helen Forrest. O esmero do gran finale, com um apuradíssimo nado sincronizado, chega a emocionar pela inocência perdida entre a humanidade.

Escola de Sereias – Bathing Beauty

- EUA 1944 De George Sidney Com Esther Williams, Red Skelton, Basil Rathbone, Bill Goodwin, Carlos Ramírez, Xavier Cugat Orchestra, Harry James and His Music Makers, Jacqueline Dalya, Ethel Smith, Nana Bryant 101’ Musical


DVD - Uma luxuosa luva de papelão embala a caixinha, mas como diz aquele velho ditado, por fora bom violão por dentro pão bolorento! Lançado pelo selo Flash Movies, com distribuição da Works, não dá pra correr a abertura do programa do Amaury Junior toda vez que se insere o disco. Os menus são pavorosamente amadores, dando inexplicável destaque a Harry James. Como extra as biografias de Williams, Cugat, Skelton e Basil Rathbone, sendo que os botões de Williams e Cugat estão trocados! A parte boa é estão inclusos mais dois Soundies, aquela espécie de avô do videoclipe, o mais puro american way pós-guerra. O filme está com imagem bem ruim, escuro e sem nitidez, o que nos faz perder todo esplendor do berrante Technicolor.

Cotação:

24 de abril de 2008

Touro Indomável

Demora quase meia hora pra este dramalhão ser palatável. Principalmente para quem não só entende bulhufas de boxe, como para quem ainda choca-se com tanta brutalidade. O temperamento hardcore do biografado Jake La Motta, estúpido e casca grossa, também não é uma das coisas mais agradáveis de querer se assistir. Mas o filme mostra-se tão visceral e autêntico que ao fim se aplaude, pelo menos porque com todo esse viés consegue impor-se pela beleza estética ímpar. Um trabalho essencialmente Artesanal, de notável carpintaria artística de todos os envolvidos. Sem um pingo de maniqueísmo, e uma narrativa linear muito simples, deixa este mito esportivo quase tão íntimo quanto qualquer vizinho grosseirão que todos nós se não temos, já tivemos! E é genial que Scorsese faz uso justo de um vizinho, que nunca se visualiza o rosto, pra dizer algumas verdades a La Motta. Esnobado em seu lançamento, virou clássico mais de vinte anos depois como cinema espetacular e, sobretudo como um dos mais crus retratos humanos fabricados em Hollywood. Há inúmeras referências bíblicas implícitas o tempo todo, o que pode servir de válvula de escape a tanta truculência, ou símbolo das infinitas possibilidades de se levar a vida.

Touro Indomável – Racing Bull

- EUA 1980 De Martin Scorsese com Robert De Niro, Joe Pesci, Cathy Moriarty, Frank Vincent, Nicholas Colasanto 124’ Drama


DVD - O “Edição de Colecionador” na capinha é um exagero. No primeiro disco além da película vem o trailer original. O mesmo trailer está presente no outro disco, junto a um curta jornalístico com Jake La Motta em ação, comparação entre o lutador da tela e o real e um making of. Destaque para um documentário com entrevistas recentes, dividido em algumas partes curtas, mostrando todos os envolvidos vivos, inclusive o biografado. Faltou ousadia para o merecedor status Cult da obra.

Cotação:

2 de abril de 2008

Onda Nova

O cinema feito por José Antonio Garcia e Ícaro Martins nos 80 está para a cidade de São Paulo como o de Woody Allen está para Manhattan! Apaixonadamente bairrista, mostrando cenários pouco vistos na tela grande. Onda Nova, é uma grande farra, começa com Camurati e Muttarelli pixando lençóis estendidos no parque Ibirapuera. Recurso amador para se mostrar créditos, mas eficiente como demonstração do espetáculo que teremos. É a segunda parte de uma espécie de trilogia do sexo jovem assinada pelos diretores naquela época (completa com O Olho Mágico do Amor e A Estrela Nua), e infelizmente a mais fraca, com o argumento simples e por vezes difícil de ser acompanhado. Há um fiapo de trama: Garotas moderninhas montam um time de futebol, o Gayvotas Futebol Clube, e a partir daí teremos suas desventuras pessoais quase sempre envolvendo a sexualidade. Algumas cenas de sexo (hetero, gay, lésbico) esbarram no sexo explicito não raro gratuito. Até o jogador Casagrande tem seu momento hot. Não se faz de rogado quando uma tiete pede com a finesse peculiar às produções da boca-do-lixo, que ele lhe “descabaçasse”. Mas legal mesmo é que como tudo excessivamente moderno hoje fica hilário amanhã, tornou-se um exagerado raio-x do seu tempo. Onda Nova não é a tradução de New Wave afinal? De sapatões com corte de cabelo repicado tipo Simone, sonatinha tocando Rita Lee à sempre desnecessária participação de Caetano Veloso, aqui mais freak do que de costume. Patricio Bisso brilhante poderia ter sua Olga Del Voga explorada em mais filmes brasileiros. Teríamos nossa própria Divine, só que made in Argentina, né?

Onda Nova – Onda Nova

- Brasil 1983 De José Antonio Garcia e Ícaro Martins Com Carla Camurati, Cristina Mutarelli, Cida Moreira, Vera Zimmerman, Tânia Alves, Patricio Bisso, Regina Casé, Ênio Gonçalves, Dartagnan Júnior 98’ Comédia


DVD - A Cinemagia presta um verdadeiro serviço ao cinema do Brasil lançando produções de pouco sucesso comercial, nem sempre devidamente reconhecidas, embora curiosas e divertidas. A arte da capa está bem bagunçada, diz que o gênero é “Nacional”, e que erroneamente está em fullscreen. Os extras se resumem a biografias em texto, galeria de fotos, e pra dar água na boca, lista de alguns outros títulos lançados pela distribuidora.

Cotação:

20 de fevereiro de 2008

A Filha de Netuno

Exemplo puro de como Hollywood sabe trabalhar com estereótipos. Esther Williams é a durona empresária norte americana do ramo dos maiôs (óbvio!) que tem dores de cabeça familiares. Sua irmã adolescente, louquinha para dar (!!!) amor acabará se entregando a um massagista virgem que mente ser famoso sul americano jogador de pólo. Caberá à irmã mais velha tomar satisfações ao conquistador, só que ao verdadeiro, interpretado pelo galã latino Ricardo Montalban. A junção das palavras “norte americana” e “sul americano” já pressupõe alguns números de rumba, salsa, merengue e todo um povo caricaturalmente mostrado de forma machista e festeira. Mas trata-se só de uma pequena bobagem romântica dos estúdios Metro com belas garotas de maiô e canções com qualidade acima da média. Toda a latinidade fake não compromete o entretenimento, compreendendo a época em que foi feito. Betty Garret (a garota nem tão garota assim) chega a imitar os movimentos de Carmen Miranda (a grande sensação do momento) em um número. Red Skelton, o massagista mentiroso, é o ponto fraco com seu humor circense entre Chaves e Didi Mocó, destoando de todo o glamour imposto pela dupla central. Montalban, atualmente em uma cadeira de rodas (como foi visto vivendo o avô em Spy Kids 3D) me fez lembrar o que a jornalista Dulce Damasceno de Brito disse a seu respeito. Ele sempre teve deformidade em uma das pernas, mas nem por isso deixou que o limitasse a pegar papeis com números de dança. Realmente não se percebe! Sua nacionalidade no filme é Sul Americana, como se o continente em si fosse um país embora seus ajudantes atrapalhados, quase burros, se vestem como argentinos. Só que no número aquático final há algumas faixas verdes e amarelas que se combinam com outras vermelhas e azuis antes do casal mutli regional dar seu beijo de happy end. Arriba!

A Filha de Netuno – Neptune’s Daughter

- EUA 1949 De Edward Buzzell Com Esther Williams, Ricardo Montalban, Red Skelton, Betty Garret, Xavier Cugat e sua Orquestra 93’ Musical


DVD - Medo! Selo Flash Classics com a assinatura de Amaury Junior e tudo! E sempre que você coloca o disco é obrigado a ver a abertura do programa dele com aquele monte de celebridades trash ao som do famigerado hit disco transformado em seu jingle há décadas. O DVD em si está com a imagem bem ruim, parecendo VHS, e os extras referentes ao filme são alguns textos. O que gostei foi da inclusão de dois Soundies, coisa que jamais tinha ouvido falar! Trata-se do tataravô dos vídeoclips que nos anos 40 eram exibidos em lugares públicos através de máquinas parecidas aos jukeboxes. Um dos presentes aqui é com Yvonne DeCarlo, muito antes de ser a Lili no seriado Os Monstros.

Cotação:

16 de janeiro de 2008

O Grande Lebowski

Mais uma traquinagem do irmãos Coen para nos esfregar na cara o quanto conhecem a arte cinematográfica. Acompanha-se a filmografia deles como quem implora por participar de um happening cinematográfica de uma panelinha a qual não fomos convidados. Talvez por isso nem tudo faça algum sentido. Este fracasso de bilheteria em sua época de lançamento estranhamente foi ganhando aura de Cult com o passar dos tempos. Dizem que existe uma espécie de festival Lebowski nos EUA com fãs do “Cara”. Divertido em muitos pontos, chega a incomodar o excesso de personagens bizarros que vão aparecendo no decorrer da história. Parece haver uma urgência em chocar. Ainda por cima cada qual com sua trama que jamais será resolvida decentemente ao final. Com momentos gloriosos como os envolvendo o jogador Jesus de John Turturro, mas mal estares estrondosos como a interpretação estridente do sempre estridente John Goodman... Entre mortos e feridos chega-se à conclusão de que houve muito barulho por nada e coisas legais do roteiro foram perdidas em alguma viagem psicodélica dos autores.

O Grande Lebowski – The Big Lebowski
- EUA 1998 De Joel Cohen Com Jeff Bridges, John Goodman, Julianne Moore, John Goodman, John Turturro, Steve Buscemi 117’ Comédia


DVD - Tô até agora pra descobrir o porquê de no topo da capinha estar estampado “Edição Especial”, já que os extras são uma mixórdia. Galeria com fotos feitas por Bridges nos bastidores, Making Off e o melhor de tudo, introdução de um tal de Mortimer Young, presidente da Forever Young, empresa de preservação de filmes. O supra-sumo do humor genial dos Coen.

Cotação: