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9 de dezembro de 2008

Disque M Para Matar

O roteiro nunca chega a disfarçar as origens teatrais do argumento, parecendo que todo o filme justifica-se pela cena do crime estravagante. Com a ação se transcorrendo basicamente em um cenário, Hitchcock confia nas sempre chiques presenças de Grace Kelly E Ray Milland para entreter, além dos efeitos 3D, muito em voga na metade da década 50 como tentativa de resgatar as platéias interessadas em ver a novidade TV. Como o efeito inexiste em DVD, pode-se apostar que boa parte da graça acabou indo ao ralo. Não chega a ser enfadonho, mas deixa brecha para Um Crime Perfeito com Michael Douglas, ser o único remake de Hitchcock que vale a pena porque, acaba desenvolvendo lados que neste original são só sugeridos. Kelly, a encarnação perfeita das loiras geladas hitchcockianas, é a adultera que nem desconfia que seu marido Milland já descobriu seu jogo. O homem bolou um plano acima de qualquer suspeita para mandar a beldade ao quinto dos infernos, limpar a honra e ainda papar sua fortuna. Isso se tudo correr como planejado. No triangulo amoroso central, incomoda um pouco a presença oca de Robert Cummings com uma interpretação bem frágil do amante. Contratar atores ruins talvez seja a intenção do diretor, sempre apto a criar desafios a serem resolvidos.

Disque M Para Matar – Dial M for Murder

- EUA 1954 De Alfred Hitchcock Com Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson, Leo Britt 105’ Suspense


DVD- Pena que Hitchcock não trabalhou sempre para a Warner. Teríamos agora todos os seus filmes em DVD em edições decentes como esta. O estúdio mais uma vez vendeu um título clássico corretíssimo, com a arte da capa e menus seguindo o estilo publicitário da época em que o filme foi lançado. Os extras são trailer, documentário sobre a produção e outro sobre o porquê de ele ser produzido em 3D. Tudo devidamente legendado em português.

Cotação:

26 de novembro de 2008

Interlúdio

Hitchcock tão seguro que parece sapatear como bem entende sobre o que de melhor sabe fazer na vida. Qualquer lógica é subvertida para que o mote principal (de que nada, absolutamente nada, pode abalar o amor) seja preservado até os enervantes minutos finais. Ingrid Bergman faz a desamparada alemã naturalizada norte-americana que se apaixona perdidamente por agente do governo (Cary Grant), embora seu pai esteja preso sob a acusação de nazismo. Ela aceita passar para o lado do Tio Sam ao embarcar rumo ao Rio de Janeiro em missão secreta. O que parecia ser um conto de fadas tropical não demorará a desembocar em terrível pesadelo com Nazistas organizadíssimos (chefiados por Claude Rains, em outra interpretação memorável) em busca de minérios brasileiros. Os pombinhos entrarão numa arapuca política/sexual que tão importante quanto saírem com vida será tentar manter os sentimentos ilesos. Bergman, soberba transitando num cenário carioca kitsch de mentirinha, age constantemente entre a razão e a emoção num jogo do mais profundo e complexo suspense. Com total domínio técnico, o diretor não abre mão do que chamou de “Mac Guffin”, o que traduzindo, seria mais ou menos como os meios narrativos justificando os fins, pouco importando a veracidade. O resultado é tão bem engendrado, dirigido com maestria inigualável, que não há do que reclamar. Poucos filmes do mestre têm uma sucessão de grandes seqüências quanto Interlúdio. Imprescindível.

Interlúdio – Notorious

- EUA 1946 De Alfred Hitchcock Com Cary Grant, Ingrid Bergman, Claude Rains, Louis Calhern, Leopoldine Konstantin, Wally Brown 101’ Suspense


DVD- A qualidade padrão da Continental tanto em áudio, imagem e extras. Biografias básicas e irrisória galeria de imagens como bônus.

Cotação:

10 de setembro de 2008

Janela Indiscreta (1954)

Tão elegante e requintado que é difícil de acreditar que tenha sido feito a partir de um conto. James Stewart é o fotógrafo que após se acidentar passa as tarde quentes em seu apartamento nova-iorquino bisbilhotando a vida dos vizinhos. Janela a janela, vai se entretendo com a vida comum dos outros até se deparar com o que pode ser assassinato. Alfred Hitchcock num dos seus melhores momentos também nos imobiliza em gesso. Só vemos o que o protagonista vê, exceto numa madrugada quando ele cochila. Grace Kelly e Thelma Ritter são as coadjuvantes de luxo, sendo a primeira a namoradinha endinheirada e a outra a enfermeira num tipo habitual à atriz, uma espécie de consciência ou grilo falante do papel principal. Assim que Stweart as convencer que presenciou realmente um crime, a trama ganha em agilidade com melhor aproveitamento da cenografia e sua pulsante realidade. Impossível deixar de comentar não só a excelente direção de arte, executada de forma incomum e do uso da trilha sonora, ou da falta dela, já que todo o som é exatamente o que o fotógrafo ouve. Estes dois elementos de impecável apuro técnico, produzidos perfeitamente em época distante, só reforça o emblema de obra prima.

Janela Indiscreta – Rear Window

- EUA 1954 De Alfred Hitchcock Com James Stewart, Grace Kelly, Thelma Ritter, Wendell Corey, Raymond Burr, Judith Evelyn, Georgine Darcy 112’ Suspense


DVD - A Universal manteve em todos os do diretor que lhe dizem respeito capa e menus padronizados, o que além de ser feio por si só, ainda piora na estante ao ser misturado em ordem cronológica com os de diferentes distribuidoras. Pra variar, o tal livreto descrito na contracapa não está neste também. Há um documentário longo de analises e sobre a restauração, um menor só sobre os bastidores, galeria de imagens, trailer original e do relançamento. Este último já presente em outros da série.

Cotação:

6 de setembro de 2008

Rebecca - A Mulher Inesquecível

Bem à frente de seu tempo artisticamente, Hitchcock estreava no cinema americano dando três filmes de gêneros distintos em um. A primeira parte é um magnífico romance, onde uma simplória dama de companhia conhece milionário viúvo. Apaixonada perdidamente por seu charme, aceita de imediato o pedido de casamento. O irresistível (e artificial) conto de fadas é crucial para nossa identificação com a garota já que a trama é contada na primeira pessoa. Na segunda parte, casados vão morar na mansão centenária Manderley. Temos um filme de horror, daqueles góticos com o vento soprando palavras de desordem em mentes desprotegidas, sem faltar nem uma governanta, que pra bruxa só precisa de vassoura. A noivinha descobrirá que caiu numa furada. Desprotegida, terá que enfrentar Rebecca, a falecida esposa mais viva do que nunca em todos os cantos escuros. Exatamente porque a história exigiu nossa identificação com a mocinha lá no começo que neste ponto chega a dar certa raiva da sua inércia diante da vida empoeirada ao qual lhe é imposta. Quando finalmente resolver peitar não só a governanta fidelíssima à finada, mas sua costumeira postura submissa, Hitchcock nos entrega uma trama policial cheia de reviravoltas bem à sua maneira. Todo o esforço de clima faz com que a obra perdure por muito tempo na mente após seu término, e também nos leva a certos raciocínios. É muito discutido o possível lesbianismo da governanta com Rebecca, e até pode ser, mas pouco se aponta para outro traço forte de homossexualidade. Qual seria o motivo para Max, o magnata dono do mundo, se manter casado com Rebecca, sabendo desde o início que a moça não era flor que se cheirasse? Embora posteriormente tivesse torcido o nariz ao resultado, o mestre chegava com muita gana de vencer nos EUA e não ser cozido pelo sistema como aconteceu com vários outros diretores. Toda a munição gasta aqui gerou um de seus filmes mais típicos, e sem dúvida, uma de suas maiores obras-primas. Isso sob o olhar do poderoso produtor Selznick que sempre mandou e desmandou no trabalho de seus contratados. Reza a lenda que ele só deu relativa liberdade a Hitch por estar muito ocupado finalizando ...E O Vento Levou. Ao estrear no Brasil, a escritora Carolina Nabuco acusou a inglesa Daphne Du Maurier, cujo livro originou o roteiro, de ter plagiado seu romance A Sucessora, lançado quatro anos antes. Rebecca teve uma tradução nacional assinada por ninguém menos do que Monteiro Lobato.

Rebecca - A Mulher Inesquecível – Rebecca

- EUA 1940 De Alfred Hitchcock Com Laurence Olivier, Joan Fontaine, Judith Anderson, Nigel Bruce, Reginald Denny, George Sanders, Florence Bates 130’ Suspense


DVD - Com nitidez digna de VHS, a Continental comercializa tal filme no Brasil há quase 20 anos com os costumeiros erros de legendas. Como extras há biografias em texto, lista bem mal feita de atrizes q trabalharam com o diretor, galeria com dois pôsteres que não inclui Rebecca e o trailer original.

Cotação:

22 de agosto de 2008

Pacto Sinistro

Obra prima de Alfred Hitchcock, embora pouco lembrada como um dos melhores já produzidos em Hollywood. Era o início da feliz fase que entraria na década de 50, embora tecnicamente, aparente ser mais antigo. Por mais frescor que exigisse de seus roteiros (por acaso a estréia em adaptações dos livros de Patricia Highsmith), Hitchcock preservava muitos cacoetes já fora de moda. Retro projeções ao invés de externas, câmera acelerada em cenas de perseguição, etc. Óbvio que este pode ser um de seus diferenciais, fez tudo do jeito que sempre quis, com aprovação da platéia e de forma pouco vista, pelos estúdios. Em uma viagem de trem, jogador célebre de tênis cruza com Bruno (Robert Walken), um pretenso fã. Conversa vai, conversa vem, o desconhecido conta-lhe sua idéia de crime perfeito. Cada qual assassinaria um desafeto do outro, e como não há relação alguma entre ambos, jamais seriam descobertos. O esportista tem a ex-esposa libertina a lhe empacar e Bruno, seu pai magnata e intransigente. Claro que não há como levar a sério tais devaneios, embora o desconhecido creia no pacto selado, cumpre sua parte, e passa a exigir o mesmo do outro. O circo está armado e o que não faltam são momentos do mais puro talento artístico! Adaptado por Raymond Chandler (entre outros), polemicamente como muitas das parcerias do mestre, é um dos textos mais bem amarrados que já filmou. Conduz a platéia a uma espécie de funil macabro, enquanto ricamente dá espaço às mais variadas interpretações, inclusive sexuais. Walken, que faleceria logo depois graças ao alcoolismo, entrou para a diminuta galeria de atores que conseguiram ter seu talento destacado em um filme de Hitchcock.

Pacto Sinistro - Strangers On A Train

- EUA 1951 De Alfred Hitchcock Com Farley Granger, Robert Walken, Ruth Roman, Patricia Hitchcock, Laura Elliot, Marion Lorn, Norma Vaden 101’ Suspense


DVD - Outro clássico lançado com a dignidade que merece pela Warner, distribuidora número um para este tipo de filme. Embalado em luva de papelão, só a faixa de áudio com comentários e o trailer não estão com legendas em português. No segundo disco, a versão integral de Pacto Sinistro conforme foi exibido numa pré estréia, com alguns minutos a mais e sem a cena final no trem. São quatro documentários: Um com historiadores contando detalhes de bastidores, outro com Patricia (filha de Hitchcock e participante do elenco) com as filhas relembrando fatos familiares, um terceiro com a atriz que faz a vitima míope e o mais curioso com M. Night Shiamalan analisando o roteiro.

Cotação:

10 de julho de 2008

Marnie, Confissões de Uma Ladra

Novelão dramático com a assinatura indelével de Hitchcock. Muito engraçado em seus exageros narrativos, alcança cafonice ímpar como qualquer livro de bolso e mesmo assim é genial. Cinema em estado puro, formado por centenas de tomadas fotografadas e montadas minuciosamente. Analisando o material promocional é evidente ser intencional a mistura de gêneros, a indecisão em se assumir policial, suspense ou romance, mas há quem aponte ser este o motivo para não o considerarem grande coisa na filmografia do diretor. Marnie (Tippi Hedren, fantástica!) é a mocinha que incapaz de sentir tesão pelo sexo oposto se dedica a assaltar grandes empresas. Sean Connery (no auge do sucesso como 007) é o milionário que tem como passatempo adestrar feras selvagens e verá na garota um intrigante objeto de estudo. Embora os distúrbios psicológicos apresentados no roteiro pareçam ter alguns furos, são minimizados com diálogos discutindo tais atitudes, porque, teoricamente cleptomaníacos não roubam grandes coisas e agem por impulso ao invés de armarem planos mirabolantes. Marnie mudando a cor do cabelo e nome consegue facilmente emprego em cargos de confiança, e o motivo para tanta fluência Hitchcock conta logo na primeira tomada, prova de sua inteligência e humor únicos. O longa começa com um close fechadíssimo na bolsa da ladra, que vista de perfil é bastante semelhante ao órgão genital feminino. A próxima cena será justo a de um homem de negócios dando queixa do roubo há polícia, babando ao descrever a forma física da ladra, sua secretária ainda lhe lembra de que não exigiu referência nenhuma a larapia.

Marnie, Confissões de Uma Ladra – Marnie

- EUA 1964 De Alfred Hitchcock Com Tippi Hedren, Sean Connery, Louise Latham, Diane Baker, Mariette Hartley, Bruce Dern, Martin Gabel 130’ Policial/Suspense


DVD - Esta série da Universal com menus e capas padronizadas leva a vantagem de sempre possuir no mínimo um grande documentário sobre a obra. Neste caso, com uma hora de duração possui depoimentos recentes de quase todos os envolvidos vivos menos Sean Connery. Também não há uma palavra sobre a homérica briga de Tippi Hedren com o diretor, que marcaria o fim da parceria entre eles, e colocaria em risco sua carreira de atriz. Mais uma vez a imagem está em tela cheia e anunciada como widescreen na embalagem.

Cotação:

10 de junho de 2008

Topázio

Historicamente o pior Hitchcock, sem sombra de dúvida o melhor se comparado a muitos filmes considerados bons de outros diretores. Seu raro toque de genialidade está em muitas cenas, o que é suficiente para prender a atenção até o fim. Mesmo com roteiro confuso sobre espionagem em plena Guerra Fria, calcada no Best-Seller de Leon Uris, onde se leva quase uma hora para compreender o que realmente os personagens estão fazendo. Estranho porque contradiz as palavras do próprio Hitchcock sobre o roteiro de Vertigo, com o mesmo roteirista Samuel A. Taylor, de que para o suspense funcionar é preciso nunca esconder o jogo à platéia, tudo tem que ser bem claro desde o inicio. Pra piorar há uma profusão de personagens, todos com subtramas, e nenhum rosto realmente conhecido para se ter qualquer apatia. Repelido na audiência teste foi remontado, o que deu aspecto truncado a muitos momentos, inclusive à trama afetiva central, e um final um tanto quanto simplório depois de mais de duas horas de reviravoltas. Curioso o papel dos comunistas cubanos, truculentos, quase como os nazistas nos filmes B antigos, mas a posteridade provou que esta visão nem estava tão errada assim. Graças a Topázio a brasileira Eva Wilma ficou cara a cara com o mestre do suspense conforme já contou em muitas entrevistas. Ela fez o teste para o papel principal feminino latino, Juanita de Cordoba. Deixou de protagonizar uma das cenas de assassinato mais emblemáticas de todos os tempos.

Topázio – Topaz

- EUA 1969 De Alfred Hitchcock Com Frederick Stafford, Dany Robin, John Vernon, Karin Dor, Michel Piccoli, Philippe Noiret, Claude Jade, Michel Subor 126’ Suspense


DVD - Essa coleçãozinha da Universal é padronizada até nos menus, com o engraçado tema do seriado Alfred Hitchcock Apresenta no menu principal destoando da película. Sempre se esforça nos extras, até nos discos simples. Topázio vem com um longo especial onde estudioso tenta explicar todos os tropeços da produção, os três finais filmados, inclusive com o escolhido pelo diretor, mil vezes melhor ao que entrou no corte final, trailer, storyboards e fotos de divulgação. Fora o trailer, tudo está legendado em português. Resta falar de um mistério. A contracapa indica que o filme está em fullframe(1:33:1), ou seja na TV aparece em tela cheia com boa qualidade de imagem. Não era comum um filme de um grande estúdio não usar o formato widescreen.

Cotação:

3 de abril de 2008

Psicose

Silvio de Abreu, diretor do mais hitchcockiano filme brasileiro, o subestimado Mulher Objeto, já declarou inúmeras vezes que para seu trabalho de novelista é imprescindível ser contratado da TV Globo. Suas criações necessariamente carecem de todo aquele aparato técnico e financeiro. Hitchcock, ao contrário, tentou com Psicose provar que precisava de muito pouco para fazer um grande trabalho. Baseado no livro de Robert Bloch, sobre um escabroso caso real, usou a mesma equipe de seu programa de televisão Alfred Hitchcock Apresenta, meia dúzia de cenários e apenas uma estrela, com o resto do elenco desconhecido, ou vindo da TV. Inclusive Vera Miles que fez carreira no veículo, depois de recusar o papel feminino principal em Um Corpo Que Cai (Vertigo) porque engravidou. E isto o gorducho diretor a jogou na cara pro resto de seus dias! Também como contenção de gastos o rodou em preto e branco, evitando o dispendioso sistema Technicolor. Como marketing era tão seu forte quanto suspense, divulgou-se que tal recurso foi para não chocar a platéia com o vermelho do sangue, e é esta versão repetida à exaustão até os dias atuais. Dessa pequinesa toda saiu nada menos que a película que revolucionaria o cinema do medo. Tão espetacularmente orquestrado que influenciou não só os novos rumos do gênero, mas carreiras, e a forma de Hollywood (em pleno declino) encarar suas produções. Tão famoso desde sua estréia, que mesmo com spoliers divulgados aos quatro cantos, ainda é um espetáculo notável. De comercial de pastilhas pra garganta a programas humorísticos, não há quem nunca viu um homem louco vestido de mulher empunhando uma faca ao som de “Qüin, qüin, qüin!”. Mas há uma na riqueza de detalhes, a ser observada, dando suporte às reviravoltas propostas pelo roteiro. Até nos cenários, sempre com objetos que refletem os personagens, ou no lingerie da mocinha Marion Crane. No inicio, quando é apenas uma garota indecisa com seu futuro aparece com peças íntimas brancas, ao fazer a mala e resolver ficar com o dinheiro de seu patrão usa de cor preta. Quando já no hotel Bates decide retornar e devolver a grana, escolhe branco antes de entrar no chuveiro. Água, claro, bíblico símbolo de purificação. Depois de tanto tempo, tornou-se sim bem batido, mas o que a simples genialidade tem a ver com isso?

Psicose – Psycho

- EUA 1960 De Alfred Hitchcock Com Anthony Perkins, Janet Leigh, Vera Miles, John Gavin, John McIntire, Martin Balsam, Patricia Hitchcock, Mort Mills 109’ Suspense


DVD - Sacanagem da grossa, deve ser o terceiro lançamento do mesmo filme, com pouquíssima diferença entre as edições. Primeiro apareceu sem extra algum, depois com uma porrada em menu tosco e sem nenhuma legenda. Este relançaram o mesmo sem legendas acrescido de mais um disco, chamado “O Legado de Alfred Hitchcock”. Ele contém apenas 2 especiais. O primeiro é a entrega de um prêmio do American Film Institute ao diretor com discurso de muitos dos atores fetiches. Chega a emocionar James Stwart, Ingrid Bergman, Cary Grant, todos com idade avançada relembrando o que era trabalhar em seus filmes. Ele na platéia muuuuuuito velhinho, acompanhado da esposa Alma, ainda com aquela centelha de humor que o faz ser reconhecido como gênio. O outro especial é uma entrevista de Hitchcock a dois apresentadores de TV, sendo que a mulher parece estar absurdamente deslocada. Tanto o prêmio, quando as entrevistas não possuem mais do que 15 minutos cada, o que nos faz estranhar a lógica do segundo disco.

Cotação:

17 de março de 2008

O Homem Que Sabia Demais (1956)

Filme de um profissional! Aliás, esta é a própria opinião de Hitchcok ao ser perguntado por Truffaut sobre as duas versões dirigidas por ele de O Homem Que Sabia Demais. A de 34 segundo o próprio, em lampejo de humildade, seria obra de um amador. A verdade é que em seu 44º filme, vindo de uma de suas raras comédias (O Terceiro Tiro/ The Trouble with Harry), tinha experimentando de tudo um pouco, sentia-se seguro o suficiente para entrar na (chamada pelos críticos de) “grande fase”. Há inúmeros elementos já explorados, e muitos outros que seriam reaproveitados em seus futuros filmes. Até a trilha sonora, discreta para explodir no fim, na grande cena da orquestra, dialoga com a de Vertigo, também composta por Bernard Hermann. E se Deus fosse um compositor de cinema, seu nome seria Bernard Hermann! O roteiro, com o casal em férias pelo Marrocos que acaba se envolvendo numa sinistra trama de espionagem é um primor em elaboração. Lapidado de forma tão envolvente que se engole, quase sem se notar, que está feito em cima de um Mac Guffin! Recurso (ou truque) criado pelo diretor com a ajuda do roteirista Charles Bennet que consiste simplesmente em disfarçar a pouca importância do que realmente move os vilões. No caso não se sabe ao certo o que realmente pretendem os espiões com o crime, qual a finalidade dos mirabolantes planos, etc. Nossa atenção estará voltada para o drama dos pais em desbaratinar o grupo sem a ajuda da policia a fim de terem seu gracioso filho são e salvo. O elenco é um achado a parte, como em muitos dele. Que me recorde, talvez o único deslize seja Jessie Royce Landis sendo a mãe de Cary Grant em Intriga internacional, mesmo com ambos tendo nascido no mesmo ano! Neste, Brenda De Banzie evidencia o desperdício que foi sua carreira em obras muito pequenas. Está fabulosa nas reviravoltas que sua personagem dá, de turista acima de qualquer suspeita, a ratazana a serviço do mal, até revelar embaixo de todo aquele gelo um coração maternal. E claro, Doris Day, até então mais uma cantora loirinha bonitinha tentando ser atriz, convencendo como uma sofredora mãe, passando o diabo para reaver seu rebento. O próprio diretor teria batido o pé para tê-la ali contra muitas opiniões. Talvez porque naquela época havia uma piada em Hollywood a respeito da atriz. Para se referir a coisas feitas, ou vistas muito antes, dizia-se que foi antes de Doris Day ser virgem, tamanha docilidade que sempre demonstrou em uma época marcada por loiras fatais como Marilyn Monroe. Uma espécie de “Do tempo do Onça” no Brasil. E nada melhor que uma atriz com tal rótulo para interpretar uma mãezinha, todas elas também eternamente puras!

O Homem Que Sabia Demais – The Man Who Knew Too Much

- EUA 1956 De Alfred Hitchcock Com James Stewart, Doris Day, Brenda De Banzie, Bernard Miles, Ralph Truman, Daniel Gélin, Christopher Olsen 120’ Suspense


DVD - Como muitos de Hitchcock, lançado e relançado! Esta coleção de capa padronizada cinza tem menus estáticos com o desconfortavelmente cômico tema do programa Alfred Hitchcok Apresenta destoando do filme. A galeria de arte mantém dois pôsteres da versão inglesa. Há dois trailers, um narrado por James Stewart para um dos vários relançamentos da obra do mestre, e o original de cinema. Nele o vilão principal foi redublado. Onde se ouvia que Jo McKenna iria cantar Whatever Will Be, Will Be (Que Sera, Sera), agora é “Miss Doris Day”. E claro, um documentário caprichado com muitas curiosidades sobre a película. Na contracapa diz que vem com um livreto contendo notas da produção, o que não é verdade.

Cotação:

1 de março de 2008

Frenesi

Basicamente a visão de um velho senhor estarrecido com os novos costumes de sua terra natal após longo período ausente. A clássica disputa entre o que guardamos na memória e o que realmente é. Raro não ser muito mais sórdido... Hitchcock, cineasta de várias fases de absoluta paridade artística, parece não acreditar no que havia se transformado sua Inglaterra depois da revolução cultural 60’s. Há algo de fétido que o antigo rio que corta Londres levará à tona. Será neste cenário, onde é quase um crime estar fora de moda, que todas as mulheres correrão o risco de cruzar com o temível assassino da gravata. Justo agora quando nem mais é preciso haver maridos para se sentirem realizadas, e mesmo as casadas podendo ousar fugir do tédio torturando os outrora provedores do lar no que de melhor se dedicavam: o preparo de quitutes. Esta comédia de humor negro, repleta de símbolos fálicos e roteiro minuciosamente elaborado, mas de compreensão muito simples, funciona como espetacular canto de cisne do mestre de suspense. Penúltimo trabalho, mas considerado seu último grande filme, destoa-se dos demais principalmente pela abordagem moderna, violência explicita e a ausência dos recursos técnicos da velha Hollywood vistos em sua fase de maior sucesso popular. Ele aparece logo no inicio usando seu desatualizado chapéu coco para nos lembrar que os tempos são outros, mas gênios são atemporais.

Frenesi – Frenzy

- Inglaterra 1972 De Alfred Hitchcock Com Jon Finch, Barry Foster, Alec McCowen, Barbara Leigh-Hunt, Bernard Cribbins, Vivien Merchant, Anna Massey, Billie Whitelaw 115’ Suspense


DVD - Os filmes de Alfred Hitchcock em DVD estão se saindo verdadeiras arapucas para cinéfilos. A Universal os relançam em edições de luxo volta e meia, sendo impossível muitas vezes se saber quando comprá-los. A dica é que os menos famosos valem ser adquiridos em discos simples. Frenzy vem com o trailer original (hilário com o diretor boiando no Tâmisa), galeria e documentário de quase uma (!!!) hora com o elenco nos dias atuais comentando as filmagens.

Cotação:

16 de junho de 2007

Ladrão de Casaca

Em um dos documentários contidos nesta edição, a filha ou a neta do diretor, se apressa a dizer que este é um filme maravilhoso porque é um Hitchcock típico. Muito pelo contrário! Talvez seja o mais ousado, onde ele tentou subverter algumas das “regras” de sua obra. O próprio argumento não é de suspense, mas sim mistério. Praticamente um “Quem é o criminoso?” a lá Agatha Christie. Quer risco maior para o auto-intitulado mestre do suspense? Claro que temos o bom (!!!) e velho Cary Grant tentando provar sua inocência e a gélida como nunca Grace Kelly como casal central e mais aquele apuro técnico tão saboroso, mas os cenários (a riviera francesa fotografada belíssimamente) com mais externas que o costumeiro e um criminoso desconhecido nos levam a algo fora do comum. Oh sim, e a trilha sonora romântica destoa das outras assinadas por Bernard Herrmann! De qualquer forma, não é um grande filme, está anos luz de obras-primas como Um Corpo que Cai (Vertigo) ou Psicose (Psyco), mas mesmo assim, empolgante e memorável. A prova que mesmo quando Alfred Hitchcok não é lá essas coisas ainda é bom pra caramba! Repare como os figurinos da veterana Edit Head ajudam a contar a história e na soberba interpretação de Kelly, de garota materialista a sagaz detetive apaixonada.

Ladrão de Casaca – To Catch a Thief

- EUA 1955 De Alfred Hitchcock Com Cary Grant, Grace Kelly, Jessie Royce Landis 106’ Romance/Policial


DVD - Chiquérrimo como este filme merece. O menu animado toma ao máximo proveito de algumas seqüências de forma tão inteligente que parecem ter sido feitas apenas para isso. Mais alguns documentários interessantes, em se tratando de um dos mais mitológicos trabalhos do cineasta. Ainda há o trailer, único conteúdo sem legendas em português. Afinal, porque as grandes distribuidoras raramente legendam trailers? Outro ponto contra: O documentário (muito bom por sinal) sobre a figurinista Edit Head é exatamente o mesmo que a Paramount incluiu na edição digital de Crepúsculo dos Deuses. Mas se você não tiver este...

Cotação: