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14 de junho de 2008

Tudo Sobre Minha Mãe

A genialidade começa pelo trocadilho do título, referência a All About Eve, ou A Malvada. Ao contrário do que parece à primeira vista, não se trata de uma história desenrolada nos bastidores do teatro, com mocinhas passando a perna em estrelas tarimbadas, mas relacionada a Eva, a genitora do Planeta. All About Eve foi chamado na Espanha de Eva al Desnudo, como o filme lembra logo no início. De inúmeras maneiras veremos as mulheres gerando impulsivamente todo tipo de coisa entre o drama e a comédia como só os latinos são capazes. Sempre equilibrado, discute assuntos extremamente delicados sem esbarrar no dramalhão, embora consiga com maestria fazer chorar nos momentos certos. Ainda reuniu Almodóvar à argentina Cecila Roth após mais de dez anos. E não se pode pensar em atriz melhor no papel da mulher que volta a suas raízes atrás não apenas do pai do filho perdido, mas de si mesma. Acabara encontrando muito mais do que procura ao se envolver com muitas outras mulheres de vida atribulada. Impossível deixar de citar Marisa Paredes, diva, diva, diva, interpretando outra diva, Huma Rojo que por sua vez interpreta Blanche Du-Bois uma das mais atormentadas personagens criadas por Tenesse Willians. Não há toa a frase “Sempre dependi da bondade de estranhos” (pertencente a Um Bonde Chamado Desejo ou Uma Rua Chamada Pecado) será repetida três vezes e poderia ser a tagline do filme. Seja por problemas sentimentais, ou de saúde, como os transplantes de órgãos abordados de maneira consciente, todos dependem de estranhos. Não é meu Almodóvar favorito, mas é o mais completo desta fase chamada irritantemente pela imprensa de “a mais madura”.

Tudo Sobre Minha Mãe – Todo Sobre Mi Madre

- Espanha 1999 De Pedro Almodóvar Com Cecilia Roth, Marisa Paredes, Penélope Cruz, Rosa Maria Sardà, Antonia San Juan, Eloy Azorín 101’ Drama


DVD - O cineasta espanhol merecia melhor cuidado com suas películas em DVD no Brasil. Aliás, se lançassem os mais antigos já estaríamos felizes. Tudo Sobre Minha Mãe é um daqueles em que a Fox não fazia nem menus exclusivos. Um horror! Para quem só o tinha assistido em VHS, vai levar um susto com a belíssima fotografia, resgatada em seu formato original. Para desencalhe, a distribuidora o re-embalou com Fale Com Ella, do mesmo diretor, mas de épocas diferentes, e por isso com muitos extras.

Cotação:

5 de março de 2008

Como Enlouquecer seu Chefe

Em meio a impressoras famintas, vírus vingativos, chefes megalomaníacos, um dos raros filmes a mostrar de forma adulta quem trabalha num escritório moderno. De humor ácido é quase uma incógnita a quem não está familiarizado com os cenários retratados. Taí uma possível explicação para a absurda ignorada quando lançado nos cinemas no fim dos 90. Mike Judge em meio ao sucesso de Beavis and Butt-Head provou o peso da inversão de expectativas. Assim como As Patricinhas de Beverley Hills, de uma hora pra outra os alvos da critica tornaram-se fãs, o que imediatamente afastou qualquer outro tipo de público que seja ou se ache mais inteligente do que as criaturas ali retratadas. Por tanto, Como Enlouquecer seu Chefe teria se dado mal por ser muito melhor do que aparentava, mas bem distante do que os fãs do desenho da MTV poderiam esperar. Nada como o mercado do home vídeo para convertê-lo em Cult movie, quase que uma comédia pessoal, querida, cheia de situações e sensações que qualquer pessoa já enfrentou diante de um PC no trabalho... É quase como uma cartilha, um guia de sobrevivência na selva de cubículos de compensado! Na melhor das hipóteses olha-se para o monitor por uns 15 segundos, o que aparentará estar se fazendo alguma coisa para o desenvolvimento de sua empresa. Aliás, sua o caramba! Parece que a cada vez que se assiste ganha mais graça, há mais cumplicidade com o jovem funcionário que num belo dia resolve simplesmente não se importar com nada! Absolutamente nada! Não se sabe se a culpa é da hipnose a qual é submetido, com o psicólogo morrendo em meio à sessão (!!!) ou se apenas não quer mais tentar achar sentido praquilo. Há ainda Jennifer Aniston, bem meiga, vivendo uma garçonete insatisfeita e interesse amoroso do protagonista. Quase um repeteco de Rachel, seu personagem de Friends, o que funciona hoje em dia como uma espécie de bônus, uma entre tantas referências pop habilmente inseridas.

A Como Enlouquecer seu Chefe – Office Space

- EUA 1999 De Mike Judge Com Ron Livingston, Jennifer Aniston, David Herman, Ajay Naidu, Gary Cole, Stephen Root 85’ Comédia


DVD - Nem me passa pela cabeça esperar algum dia encontrar a edição de luxo lançada no mercado norte americano pós o sucesso da versão simples. A nossa tem trailer e um menu estático que poderia pertencer a Office Space como a qualquer outro. Mas chato mesmo são estes filmes da Fox que não permitem que se mude legenda e áudio pelo controle remoto.

Cotação:

22 de fevereiro de 2008

Loucos do Alabama

Coube a um ator espanhol dirigir esta história americana até o osso, com o instinto da liberdade saindo por todos os poros dos personagens em um escaldante verão 60’s! Antonio Banderas ficou longe de fazer feio em sua estréia nesta função, embora cinematograficamente seu filme está longe de ser extraordinário. É bonito, sensível e sua esposa Melanie Griffth está graciosa como a dona de casa a beira de um ataque de nervos que mata o marido, arranca-lhe a cabeça e parte para Hollywood atrás de seus sonhos. Paralelamente discutem-se os direitos civis dos negros na década de 60, o que sempre emociona, mas já foi muito explorado. Todas as possibilidades bizarras do roteiro também foram timidamente omitidas, evidenciando a inexperiência do ator atrás das câmeras na hora de transitar entre gêneros dentro de uma mesma película. No geral não irrita, mas também não empolga... O próprio argumento em si não ajuda, porque mesmo Griffth usando sua eterna persona meiga a todo vapor, sabe-se que não adianta torcer por ela se dar bem como estrela hollywoodiana com todos aqueles antecedentes no desenrolar da trama.

Loucos do Alabama – Crazy in Alabama

- EUA 1999 De Antonio Banderas Com Melanie Griffth, Lucas Black, David Morse, Robert Wagner, Cathy Moriarty 113’ Drama/Comédia


DVD - Até os trailer estão legendados em português... A gente chega a desconfiar de tamanha caridade! Banderas aparece para comentar as cenas deletadas com certo brilho no olhar de quem não tem certeza do que faz ali. Há duas faixas de comentários, uma com diretor e a outra com a atriz entre outros mimos.

Cotação:

10 de fevereiro de 2008

Matrix

Talvez os mais novos não saibam o que era não só o cinema, mas a cultura pop em geral antes de 1999! Por algum motivo, talvez o novo milênio que se aproximava, Hollywood mirou seus holofotes a filmes reflexivos, que discutiam verdades e mentiras de nossa mente. Clube da Luta, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, O Show de Truman, todos do mesmo ano! Nenhum fez o estardalhaço de Matrix, que foi surgindo muito mais de boca a boca (pelo menos no Brasil) do que por campanha de marketing. A Internet em seus primeiros passos, nem se cogitava campanhas virais como as de hoje. Dá pra garantir que de tão ousado nem o estúdio apostava muito nele. E todos queriam ver, todos queriam discutir, e volta e meia alguém falava que não entendeu nada. Em plena transição do analógico ao digital, Keanu Reeves ressurgia como um messias deste novo tempo. E dá-lhe um visual cool, e inúmeras referências clássicas a qualquer coisa que os irmãos Wachowski teriam consumido até então. Detratores apontam este ser o ponto fraco do projeto, tamanha obviedade de algumas delas. Do surrado Platão, bíblia até os (então desdenhados) filmes made em Hong Kong. Os caras foram os primeiros a junta-las e dar um novo refresco. Se há um mérito legítimo nos caras está neste ineditismo. E sim, mostrar a fome em informática (efeitos digitais, internet, etc.) em algo real, e não apenas uma brincadeira de nerds espinhentos. Os efeitos assustadores de tão perfeitos estavam ali só pra ilustrar a história, e quase uma década (!!!) depois ainda impressionam. Há um roteiro bem amarrado para disputar interesse com eles. O que envelheceu foram os figurinos, exaustivamente copiados, estão quase que risíveis de tão cafonas e artificiais. As próprias seqüências desnecessárias, que tiveram campanha de marketing muito feroz, ajudaram nisso, e até a abafar suas inúmeras qualidades. Mercantilismos à parte, este por si só se completa como o filme definitivo da geração 90’s. Houve algo tão inventivo desde então?

Matrix - Matrix
- EUA 1999 De Andy e Larry Wachowski Com Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano, Hugo Weaving, Gloria Foster 136’ Ficção Científica


DVD - É um clássico do disquinho digital!!! A gente alugava o VHS e vinha a propaganda logo no começo “What is DVD?”, usando Matrix como exemplo das maravilhas do mundo digital que nos aguardava. Então, é uma edição bem antiga, reimpressa em 2006, o que se perdoa a total falta de legendas nos extras. Até a função de seguir o coelhinho branco durante o filme faz com que elas não apareçam. Mas a cerejinha não está nos extras pra se ver no player, mas na faixa DVD-ROM. Nos tempos pré-históricos da internet, quando ela era na verdade um monte de texto e pouquíssimas fotos, não havia site mais bacana que o de Matrix. Hoje pode parecer até tosco e simplista, mas naquela época: Wow! Enfim, ele está inteirinho (!!!) como estava no ar em 1999 até com os downloads. O screensaver original com os códigos verdes é uma pequena pérola daqueles tempos. Saudosismo puro! Pena não funcionar corretamente nas dimensões atuais dos monitores com o mínimo de 1024 X 764...

Cotação:

22 de janeiro de 2008

O Gigante de Ferro

Este filme deve configurar em toda lista que se preze dos mais injustiçados de todos os tempos. A brilhante animação que Brad Bird (Os Incríveis)fez para a Warner enfrentou inúmeros problemas de distribuição quando lançado nos cinemas, e consecutivamente foi parar direto nas locadoras do Brasil, em pouquíssimas cópias VHS. Uma pena! Consagra-se com a passagem do tempo em clássico, um dos maiores êxitos artísticos da animação produzida nos EUA. Deixa qualquer sentimentalismo barato da Disney no chinelo, diga-se de passagem. Aliás, não há bichinhos fofinhos, nem cantorias desnecessárias para ser indicado ao Oscar. Certa vez o diretor disse em entrevista que se irrita quando colocam seus filmes na categoria “animação”, porque esta seria a técnica empregada, não um gênero em si. O Gigante de Ferro é uma história interessante, que por acaso é contada através de desenho animado. Numa bela tarde, menino solitário e caçador de aventuras encontra um robô gigante vindo do espaço sideral. Partirá desta simplicidade recheada de referências ao mundo pop algumas impressões nada maniqueístas sobre a natureza original de cada um. Em cores pastel e traço retrô, de acordo com a época retratada (50’s), temos aqui a melhor representação fora de seu tempo à paranóica guerra fria. Inteligente o suficiente para ir além do que seria previsível, o apelo antibélico, ecoando até seu surpreendente final pouco feliz (!?) a esperança na amizade pura entre desiguais. Para se aplaudir de pé!

O Gigante de Ferro – The Iron Giant
- EUA 1999 De Brad Bird 87’ Drama/Aventura/Animação


DVD - Não temos a comentada edição de luxo lançada lá fora, mas ainda um DVD digno de nota. Primeiro porque resgata as vozes originais (no VHS só havia a versão em português) de gente como Jennifer Aniston e um Van Diesel em começo de carreira. Depois porque nos primórdios da Internet, um dos sites mais legais era justo o deste filme. Ao colocar o DVD no drive do PC, surpresa! Ele está inteirinho lá! Até com um joguinho em flash, papel de parede, pôsteres, páginas em html e mais um monte de coisa. Ao contrário das faixas para DVD Rom atuais da Warner que trazem quase sempre apenas aquele péssimo player que se instala automaticamente. Detalhe, na capinha os únicos extras descritos são um making of (sem legendas em português) e videoclipe.

Cotação:

25 de março de 2006

A Praia

A Praia começa mal logo pelo trailer visivelmente voltado ás menininhas que ainda se sentiam molhadinhas com as peripécias de DiCaprio pós Titanic. O segundo filme de Danny Boyle com capital norte americano afugentou não só as doces púberes que não devem ter entendido lhufas daquele emaranhado de violência, drogas e disputa por poder, como os nerds cinéfilos (de verdade) que nem se deram ao luxo de ir assistir a uma película estrelada pelo ex-senhor Bünchen. Bem distante da qualidade vista em seus primeiros filmes (Cova Rasa, Trainspotting – Sem limites), mas nem tão lixo como pode parecer. Ainda estão lá os enquadramentos arrojados, o humor cinicamente cool, a violência extremista se auto justificando e como em todos seus filmes, personagens em busca de seu Shangrilá existencial. Pecado maior é a edição que perde tempo fazendo vez de cartão postal da praia em si, diga-se de passagem, a mesma que se tornou notória com a chegada do tsunami no fim de 2004. E se perdemos tempo de um lado, por outro se corre. De uma hora a outra o protagonista endoidece e ninguém entende direito o porquê, até o mundinho maravilhoso dos maconheiros desanda de forma copiosamente ingênua. Dá pra se divertir, claro, mas ao final há uma frase que não sai da cabeça: “E daí?”.

A Praia (The Beach)
- EUA 1999 De Danny Boyle com Leonardo DiCaprio, Tilda Swinton, Virgine Ledoyen 119’ Aventura


DVD - Menus animados chiquérrimos, todos inteligados! De extra, o principal é o tal trailer ao som de Moby pra você ver que não estava mentindo na resenha e algumas cenas excluídas. Nessas cenas há um final alternativo menos esperançoso que poderia ter salvado a pátria literalmente. A Faixa de áudio com comentários do diretor porcamente não está legendada em português. E tava me esquecendo da “cerejinha do bolo”, um pavoroso clip das All Saints. Quem?


Cotação: